Ouvi, com perplexidade, o comentário de um jornalista esportivo sobre o tema do momento no futebol brasileiro:

– O presidente do Benfica odeia o treinador do seu time.

Dedução óbvia, o coleguinha há de lacrar nas redes sociais, onde não é mais possível apenas desgostar de algo ou de alguém. É preciso, mais do nunca, manifestar-se com veemência, chocar o interlocutor, mesmo que invisível. Será que não é bastante ter desapreço, seja com o que for - simplesinho assim? 

Vivemos a banalização do ódio, o que se explicita no dia a dia. Quase ninguém tem mais raiva ou antipatia: o ódio virou um gigantesco guarda-chuva dos sentimentos negativos – um superlativo banal e usual. Não há matização ou hierarquização das emoções mais baixas - é tudo ódio. Com a mesma intensidade, odeia-se tanto um prato de comida quanto um serial killer de crianças (e nem estou tratando aqui de vacinas para os brasileirinhos).

Eis que o ódio é uma condição emocional grave, estudada por neurocientistas, psicólogos, filósofos, sociólogos, como algo que já foi muito necessário na história humana, manifestando-se em continuação ao medo primitivo, ajudando - preventivamente - na sobrevivência da espécie. Só que hoje, e já faz tempo, atua para destruir as relações pessoais e sociais.

É claro que a internet – pelo uso que demos a ela e não por ela, em si – tem contribuído decisivamente para que o “queridinho” das gentes, por esses tempos, se esparrame feito erva daninha em terreno fértil. Regado por água da boa, bem temperado pelo sol.

Hoje aceito com tranquilidade que uma pessoa simplesmente possa não gostar de mim, pelo que  sou, por motivos que eu desconheço ou que ela própria não sabe explicar. Essa rejeição segue os mesmos princípios da simpatia, e de antipatia deve ser chamada. Eu, ou qualquer um de nós, se humanos normais, já me vi preso nessa armadilha, externando julgamentos precipitados de pessoas a quem pouco conheço e com quem não tenho convívio mais estreito.

Já o ódio, entende-se, é uma construção sólida e se mantém insistentemente vivo mesmo quando identificado, a cutucar a alma do seu dono, como um cão de maus bofes a puxá-lo pela coleira e a levá-lo a situações extremas - à morte do outro (a), por exemplo, quando surge a oportunidade. Augusto Matraga, personagem imortal de Guimarães Rosa, tratou de revestir em camadas sobrepostas o seu "bolinho de ódio", força motriz da vingança levada a cabo.

Por outro lado, ele, o ódio, é a representação suprema do preconceito, do racismo, da misoginia, da homofobia, da xenofobia, e se aprende na escola, em casa, na igreja - e desde a primeira infância. Odiar é uma confissão do fracasso humano.

No seu ótimo A ciência do ódio, o sociólogo, professor e criminologista Matthew Williams apresenta vários estudos sobre a origem do ódio e como ele atua nos indivíduos e nas sociedades. Ele destaca que o ódio, especialmente na forma “intergrupal, é mais persistente, estável e intenso”.

Para que compreendamos com mais clareza a realidade vivida hoje pelo mundo inteiro, e ainda com as peculiaridades à brasileira:

- Alinhadas com paixões e obsessões, as pessoas que odeiam geralmente acreditam que estão embarcando em algum tipo de causa moral. Há uma crença de que seu ódio e as ações resultantes dele são virtuosos. Elas consideram que o grupo odiado age de modo a atacar a moral que os odiadores estão tentando defender.  

Cada um pode, sim, cuidar para que seus sentimentos mais baixos passem por uma metamorfose, cambiados por outros, menos malignos. Não se transforma ódio em amor – isso é uma grande bobagem. Enjaular o Mister Hyde, domar o hater que vive nos nossos recantos mais profundos, no entanto, faz parte do nosso processo de desanimalização, quando assim pretendemos.

Sem medo de errar, não é difícil concluir que não há nada de bom na existência individual ou coletiva que tenha sido construído pelo ódio.