As paralisações em razão da pandemia, no Brasil, estão completando um ano neste mês de março. Assim como diversos outros setores, o audiovisual alagoano e seus profissionais vêm sendo prejudicados durante esse período.

No setor de audiovisual e artístico alagoano, o impacto do novo coronavírus foi brusco. Os cinemas estão fechados há meses, estreias e eventos culturais foram cancelados e algumas produções tiveram que ser paralisadas.

Como é um dos setores que depende das aglomerações, o retorno deverá demorar para acontecer. Sem alternativa, os produtores, atores e a classe artística tiveram que adotar novas práticas e refazerem seus planos. O desafio é adaptar seus projetos a muitas dificuldades em meio a um cenário com uma grave crise sanitária que não promete desfecho rápido.

Foto: Cedido

Rafhael Barbosa, realizador audiovisual, atualmente possui alguns projetos aprovados no Edital de Audiovisual da Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac) de 2019, que se encontram estagnados, mas não apenas devido à pandemia. “O cenário é de paralisação total. Em relação aos projetos contemplados no edital da Fmac, eles estão em fase de contratação com a Ancine [Agência Nacional de Cinema], o que está sendo um processo extremamente moroso, burocrático e levando muito mais tempo do que costumava levar em períodos anteriores. Isso faz com que, na verdade, o setor inteiro no Brasil esteja paralisado e isso não necessariamente tem a ver com a pandemia. (...) são dois problemas que se somam. Antes da pandemia já estava acontecendo um desmonte”, conta.

Diante do atual contexto, Rafhael fala sobre as consequências geradas à cultura brasileira, que, apesar de paralisada em alguns aspectos, continua a ter custos mensais de manutenção e requer investimentos iniciados há anos. Além dos projetos mais recentes, o produtor também é sócio administrador da La Ursa Cinematográfica desde 2015. Ele abriu a empresa, junto a alguns parceiros, acreditando no desenvolvimento do audiovisual brasileiro, que vinha numa fase de crescimento muito grande nos últimos anos, mas que desacelerou e estacionou, principalmente, após o governo Bolsonaro.

“A gente tem dois problemas: os projetos em contratação que não são contratados, que já poderiam ter recurso para pelo menos trabalhar etapas de roteiro, etapas que independem da pandemia, podem ser feitos por roteiristas. (...) Tem os projetos também que tem outras fontes de recurso, como por exemplo a Aldir Blanc, e que não estão sendo filmados agora por conta da pandemia. E aí é um cenário de paralisação completa”, explica.

O realizador declara que a maioria dos profissionais do audiovisual em Alagoas não vivem só dessa atividade como forma de sobrevivência, mas indica haver algumas opções disponíveis para os trabalhadores desse setor durante a pandemia. “Agora, nesse momento, tem dois auxílios abertos que os profissionais do cinema podem se inscrever. Um deles é uma chamada da Amazon Prime com o ICAB [Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros], e outro é da Netflix com a APAN, que é a Associação dos Profissionais de Audiovisual Negro. As pessoas interessadas podem se inscrever e solicitar um auxílio para esse momento”, informa.

Rhafael lançou o longa-metragem “Cavalo” no Festival de Tiradentes em janeiro de 2020 e precisou cancelar o lançamento em Alagoas, que estava programado para março, devido ao início da pandemia. “O filme começou uma carreira online. Foi uma adaptação para esse novo período, pensar como é que o filme ia chegar no público dessa nova maneira, pela internet, com as pessoas vendo os filmes no celular, no notebook e não no cinema, como a gente tinha pensado a princípio. Mas, isso tem que ter um lado bom também, que é de mais pessoas terem acesso ao filme, saindo apenas desse circuito do público de festivais e se encontrando com um público alvo interessado, no Brasil inteiro e fora dele”, conta.

“O lançamento do filme nos cinemas, que a gente vem programando há um tempo, foi cancelado seguidas vezes porque as salas de cinema estão fechadas, não é um ambiente seguro para convidar o público. A gente tinha uma expectativa grande para estrear o filme em salas de cinema. A gente vai lançar o filme em pelo menos 20 salas. Agora esse lançamento foi adiado para agosto, torcendo que até lá o cenário esteja mais favorável, que a gente já tenha os efeitos da vacina e seja seguro convidar as pessoas. Ou a gente vai ter que adiar mais uma vez”, esclarece.

Foto: Cedido

O diretor relata que uma coisa fundamental para que os artistas tivessem um pouco mais de tranquilidade nesse momento, no qual é mais difícil trabalhar, foi a Lei Aldir Blanc. Através dessa medida, muitos profissionais foram contemplados e conseguiram receber valores para realizar seus projetos, como também serem remunerados, pelo menos, durante um tempo. “Isso foi fundamental para que a gente ultrapassasse a pandemia. Espero que haja uma extensão da lei para esse ano, porque a gente não tem uma perspectiva de que as coisas retornem ao normal”, finaliza.

Foto: Instagram

Laís Araújo é uma diretora alagoana que teve seu primeiro longa-metragem ‘Marina’ selecionado pelo fundo Hubert Bals, da Holanda e vencedor do pitching do laboratório Porto Iracema das Artes (2018). Agora, diante do atual contexto, a realizadora fala sobre as dificuldades de continuar produzindo. “Além da pandemia, tem uma coisa em paralelo que é muito grave para a nossa categoria: o desmonte da indústria do cinema, que tem sido muito forte no Governo de Bolsonaro. No edital de 2019 da Fmac, os projetos que aprovei viam de fundos federais. Estamos em 2021 e nenhum destes projetos entrou em fase de contratação ainda”, explica.

“Não temos uma resposta concreta de quando essa verba estará disponível e não podemos começá-los. Isso está acontecendo no país todo e é muito ruim para os profissionais, que não conseguem se programar e ter uma ideia real de cronograma. Por isso, o processo de desenvolvê-los vem atrelado a um certo medo, a um certo suspense ruim: quando vou poder gravar? Vou, de fato, poder gravar?”, completa.

A produtora conta que os trabalhadores cinematográficos em Alagoas sofreram uma grande quebra, pois estavam há meses realizando diferentes produções. Isso porque alguns profissionais do estado tiveram projetos aprovados em editais e receberam financiamentos. No entanto, com a chegada da pandemia, tudo precisou ser paralisado. Dessa forma, as produções acabaram perdendo parte da verba e terão que se adequar no futuro retorno. Além disso, terão que destinar parte dos valores conquistados para prevenir a contaminação entre os profissionais.

“Com a Lei Aldir Blanc um número grande de pessoas recebeu verba para projetos. Eu, por exemplo, estou produzindo através da Aguda Cinema um projeto de oficinas chamado Sala de Roteiros que deveria acontecer presencialmente, trazendo professores e realizadores à Alagoas, com aulas abertas ao público. Por enquanto, todas as aulas são adaptadas para o Zoom. É uma forma de lidar com isso, mas não deixa de ser uma pena - muita gente está saturada de tela; aulas online acabam tendo uma evasão maior; e nem sempre é possível adaptar a metodologia do presencial à internet”, afirma Laís.

E continua, “apesar disso, vejo como uma coisa muito boa trazermos essa opção de qualificação para profissionais que são muitas vezes autodidatas ou que saem de Alagoas para se qualificar (quando isso é possível), já que em Alagoas falta formação contínua, como uma graduação de cinema, uma pós, ou uma escola pública de cursos livres”.

Laís ressalta que um dos principais problemas está no fato do prazo para finalização dos projetos aprovado não depender dos produtores, mas sim dos editais. “Inclusive, é bom ressaltar isso: Alagoas foi um dos Estados que tomou a decisão responsável de prolongar o prazo da entrega da Aldir Blanc, antevendo uma decisão lógica do Governo Federal”, destaca.

Foto: Instagram / Aguda Cinema

Apesar das consequências, a diretora pontua que a paralisação das atividades é muito necessária para a saúde coletiva e que o problema atual é a falta de um planejamento adequado para reverter esse cenário. “A falta de um bom amparo aos trabalhadores que perdem suas vagas é uma grande questão e talvez o maior dano”, expõe.

“Para a gente fazer um filme num formato tradicional, num longa-metragem por exemplo, nós envolvemos dezenas de pessoas, juntas, trabalhando em espaços diferentes - casas, ruas, espaços públicos. Há deslocamentos, hospedagens. Pessoas juntas durante a alimentação, durante as etapas de pré-produção. E, se o país continuar do jeito que tá, uma indústria como esta, que emprega tantos e movimenta tantos setores, continuará semi-paralisada -- só com uns filmes lá e cá conseguindo arcar com todos os protocolos necessários para continuar”, conclui a produtora.

Foto: Cedido

Atriz, palhaça, Co-gestora da Casa Sede-AL, formada em Teatro pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Wanderlândia Melo tem batalhado para se manter ativa no ramo durante a pandemia do novo coronavírus. Uma das soluções encontradas foi produzir, junto com colegas, espetáculos e oficinas com transmissão via internet.

Diante de toda a mudança no setor, um dos mais impactados e obrigados a parar, devido à situação da pandemia, Wanderlândia explica que a falta de público além de afetar o setor financeiramente, também afeta toda a produção, visto que a troca ator/plateia é o sentido do teatro.

“Os impactos foram as casas de teatros, circos, salas de ensaios se fecharem, pois não via outra possibilidade de fazer artes cênicas sem a presença física, sem o público para olhar nos olhos na hora do espetáculo. O primeiro impacto foi a falta de público. E com as casas de espetáculos fechadas isso significava que não teríamos bilheteria, chapéu, ou seja, não temos como pagar as contas se não se pode apresentar com pessoas”, afirmou.

Sem projetos aprovados pela Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), em Maceió, a atriz salienta que o meio virtual tem ajudado na realização de trabalhos. “Enquanto atriz, palhaça e produtora estou em busca de ferramentas que facilitem a comunicação entre meus colegas de trabalho e como manter a qualidade da encenação usando esses novos artifícios que é o virtual”, completou.

Wanderlândia ressalta que um ano depois de lidar com essas ferramentas digitais, o setor já pode visualizar outras formas de fazer a arte acontecer. Ela cita que lives, vídeos, formações online, faz com que os atores, produtores e a classe artística em geral vá se renovando e se adaptando.

“Estamos aprendendo a nos colocarmos na internet onde a concorrência é enorme por atenção, existem aplicativos que disponibilizam vídeos de 15 segundos, como fazer um espetáculo de quarenta minutos ser tão interessante quanto essa produção de conteúdos? São estudos diários de formas de fazer teatro com essas ferramentas”, salienta.

Foto: Cedido

Ainda sem previsão de retorno, justamente pelo setor depender de “aglomerações” para se apresentar, Wanderlândia diz que a atual situação pode deixar marcas e continuar afetando a categoria, mesmo depois que melhorar.

“Como trabalhamos com casas de espetáculos, com os espaços alternativos por vezes fechados é possível que, a priori, as pessoas não se sintam confortáveis para aglomerar, assim como assistir espetáculos em suas casas pode se tornar mais cômodo. Hoje a gente pode ver um espetáculo de outro país, estado, cidade no sofá de casa, com pijama e isso é muito confortável e pode ter um custo baixo”, ressalta.

Wanderlândia também comenta que outra preocupação do setor é de que, passada a pandemia, seja difícil ter engajamento do público pagante, o que afetaria diretamente a bilheteria e, por consequência, as produções. “ Como a maioria dos espetáculos estão acontecendo com financiamento, seja de empresas privadas, seja através de editais públicos, pode acontecer de não haver esse investimento por parte do público pagão”, ponderou a atriz.

Para Wanderlândia, a assistência via políticas públicas para o setor é fundamental, para suprir a falta de recursos, mesmo com as produções realizadas através da internet. “É totalmente necessário a garantia de políticas públicas para manter os artistas em atividade da forma que é possível hoje, virtual”, afirma a atriz.