Nos poucos mais de dois anos que terá no comando da nação, Michel Temer (PMDB) vai governar tendo que pagar a conta já cobrada por empresários – reforma da previdência e alteração nas relações trabalhistas, por exemplo - e por partidos derrotados nas últimas eleições, casos do PSDB e do DEM que ascenderam ao poder.

Os protestos em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, ontem (31), após o impeachment de Dilma, foram intensos e deverão continuar alimentados ainda mais com as reformas que serão encaminhadas ao Congresso. Portanto, as dificuldades para o agora titular serão imensas.

Some-se a isso o Congresso Nacional completamente fatiado e dominado por interesses individuais pulverizados por parlamentares de diversas siglas. Até mesmo no PMDB de Temer que foi decisivo e acendeu uma vela para deus e outra para o diabo.

Ao decidir cassar Dilma, mas manter os seus direitos políticos, alguns companheiros de partido deram um recado a Temer sobre qual cartilha ele deve adotar. Caso contrário será abandonado. Também deram um sinal ao PT de que não são tão inimigos como se pode imaginar, tanto que detonaram Dilma apenas pela metade.

A verdade é que o mandato de Temer foi construído sem o respaldo de uma eleição e em um país dividido. Por isso o momento impõe uma profunda reforma política para impedir o excesso de partidos, loteamento do governo, fragmentação do Congresso e maioria frágil.

Assim como é fundamental que fique claro que falta de apoio político no presidencialismo não pode ser a causa de um impeachment. Caso contrário teremos dezenas de ‘golpes parlamentares’ e completa insegurança política que contamina a economia.

Quanto ao PT e aos partidos de esquerda, estes precisam se reinventar. O projeto liberal e neoliberal está em expansão e as esquerdas não têm uma estratégia de contraponto. Se os progressistas não refletirem sobre a perda de apoio popular que levou a divisão do Brasil, a queda de Dilma e ao aumento da rejeição popular, podem perder ainda mais representatividade.

Ciente disso o ex-presidente Lula já está propondo aos aliados a formação de uma frente ampla de esquerda de resistência ao governo Temer. Seria uma coalizão de partidos, sindicatos, associações, intelectuais e artistas em torno de novas ideias e programas.

Primeiras conversas já ocorreram com o PDT e o PCdoB, inclusive com a possibilidade de Ciro Gomes ser o candidato a Presidente. A perspectiva dessa frente é a de que os partidos percam o protagonismo e a coalizão ganhe força. Ou seja, escolhas serão feitas em nome da coalizão e não da hegemonia de uma sigla sobre as demais.

Ciro Gomes é considerado um dos mais preparados para ser o candidato na eleição presidencial, mas há um porém: o seu temperamento.

O jogo a partir de agora será jogado de olho em 2018.