O senador Renan Calheiros (PMDB) é – atualmente – um dos nomes mais importantes da República. Tudo passa por ele. A pauta do país está em suas mãos como presidente do Congresso Nacional. Hábil enxadrista, Calheiros sabe que, diante das imprevisíveis consequências da Lava Jato, precisa trabalhar seu futuro político em duas frentes: ampliar os domínios em Alagoas e não perder influência em Brasília (DF) já que deixará o comando do Senado Federal ao final de janeiro 2017.
Caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) se concretize, Calheiros terá um “rival político” na presidência do país e dois ministros – os deputados federais Marx Beltrão (PMDB) e Maurício Quintella Lessa (PR) – de olho na eleição do Senado Federal por Alagoas. Os ministérios e o apoio de Temer, em um futuro próximo, podem transformar estes dois nomes da política paroquial em fortes concorrentes de Renan Calheiros. É por isto que, em 2016, Calheiros tem que se tornar mais forte do que já é.
Nas eleições de 2014, Renan Calheiros – aliado fortíssimo do presidente Luis Inácio Lula da Silva, o Lula (PT) e de Dilma Rousseff (PT) – saiu fortalecido. Foi a primeira vitória maiúscula de Renan Calheiros que amargou no segundo lugar na disputa pelo senado em 2010. Naquele ano, o eleito campeão de votos foi o senador Benedito de Lira (PP). Isto tem uma justificativa: Calheiros se recuperava das máculas do escândalo envolvendo a jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha. Renan Calheiros era acusado de usar lobista para pagar pensão e de falsificar documentos em sua defesa. Este processo corre no Supremo Tribunal Federal (STF).
Histórico
Por conta das acusações, Renan Calheiros – que na época presidia o Senado Federal – teve que abrir mão do comando do Congresso Nacional para não perder o mandato. Escapou porque a votação era secreta. Em 2010, sabendo que ainda se recuperava das denúncias e da exposição negativa na mídia, teve que usar sua habilidade de enxadrista político para pavimentar, por meio das urnas, o retorno ao Senado Federal. Eliminou da disputa os adversários que pode. Foi assim que tirou o então pré-candidato ao Senado, Pinto de Lula – na época filiado ao PT – do pleito. Luna teve que se contentar a disputar, em 2010, um cargo de deputado federal. O PT teve que se comportar como um puxadinho do PMDB do senador Renan Calheiros. Por sinal, PT e PMDB possuem uma aliança de longa data. É forte a influência de Renan Calheiros sobre o partido em Alagoas.
A estratégia de Calheiros deu certo. Ocupou a segunda cadeira derrotando Heloísa Helena (na época pelo PSOL). Em 2014, Calheiros deu o troco em Benedito de Lira e elegeu o filho – Renan Filho (PMDB) – governador do Estado de Alagoas. Todavia, há uma Lava Jato no caminho. Calheiros não pode ficar ao sabor das surpresas. O PMDB, portanto, trabalha para se fortalecer. É sonho do partido fazer pelo menos 50 das 102 prefeituras do Estado. Assim, Calheiros terá uma importante base em uma possível eleição duríssima em 2018.
Cenário
O cenário para 2018 é o seguinte: muitos rivais velados de Renan Calheiros apostam que os desdobramentos da Lava Jato enfraqueçam o senador peemedebista. Como são duas vagas, aumentam as chances de disputa. Todavia, são muitos os nomes postos hoje: o ex-governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) pode ser candidato, Benedito de Lira (PP) pode tentar sua última eleição, os deputados federais Maurício Quintella Lessa e Marx Beltrão também olham para as cadeiras do Senado Federal. Além disto, caso não eleja o prefeito de Maceió, Rui Palmeira (PSDB) surgirá como um nome forte em 2018 para fazer frente à campanha de reeleição de Renan Filho, o que também cobrará atenção de Renan Calheiros.
Sendo assim, no popular e diante das previsibilidades e das imprevisibilidades, o PMDB mais do que nunca precisa, em 2016, fazer “barba, cabelo e bigode” para não ficar ao sabor da sorte. Por isto, Renan Calheiros tem se empenhado pessoalmente (usou seus 15 dias de recesso no Senado Federal para isto) para desenhar as campanhas nos municípios e, sobretudo, em Maceió e Arapiraca. Nestes 15 dias de recesso parlamentar, Calheiros viaja por várias localidades alagoanas e ao mesmo tempo participa de encontros em Brasília, como o que ocorreu com o presidente interino Michel Temer (PMDB) e o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (Democratas). O senador do PMDB alagoano sabe que precisa dominar a pauta do Senado até a sua saída.
“Esta eleição será duríssima. Oportunidade para mostrar quem tem farinha no saco”, diz Renan
Em um período de descrédito da classe política e em que, mais do que nunca, uma significativa parcela da população (talvez maioria) enxergue todo mundo como farinha do mesmo saco, o presidente do Senado Federal, o senador Renan Calheiros avalia o pleito de 2016 como aquele que será o “mais difícil” por “não ter regras definidas para o financiamento de campanha”.
De acordo com o senador peemedebista, portanto, a campanha agora é “a oportunidade para mostrar quem tem farinha no saco”. A frase é dele! Resta saber qual será a essencial diferença entre uma farinha e outra, diante dos grupos políticos que se apresentam com cara de “novo”, mas aglutinam os mesmos caciques que sempre dominaram a política alagoana. É o próprio Renan Calheiros quem dá o conselho: “olhar para a ficha de serviços prestados”. Em outras palavras, analisar biografias.
Bem, é justamente por conta das biografias que parte da população anda desesperançada com a política. Em entrevista sobre o pleito, no recente encontro do PMDB, foi o próprio governador Renan Filho que reconheceu esta desesperança ao frisar que “ganhará a eleição quem conseguir mostrar que é possível o maceioense ter esperança”.
Maceió e Arapiraca
Na capital alagoana, a ideia é “turbinar” a campanha do pré-candidato e deputado federal licenciado Cícero Almeida (PMDB). Em Arapiraca, a “bola da vez” é o deputado estadual Ricardo Nezinho (PMDB). Calheiros sabe que são eleições duríssimas. Na disputa da capital alagoana, Almeida e Rui Palmeira despontam - conforme as pesquisas - praticamente empatados. Mas, há preocupações com as novidades do pleito, como o deputado federal João Henrique Caldas, o JHC (PSB).
Em Arapiraca, Tarcizo Freire - como mostrou o CadaMinuto Press - lidera a pesquisa, mas Nezinho se encontra praticamente empatado. Para Renan Calheiros vencer nestas regiões é mostrar força política para 2018. Para o PMDB é importante sair do processo eleitoral mais fortalecido do que entrou. Os dois Renans - o senador e o governador - sabem que o futuro político dos Calheiros está em jogo. Então, não basta apenas a farinha do saco (apesar de ser justo o questionamento do eleitor em relação à qualidade da farinha). Renan Calheiros sabe muito bem que precisa de muito mais.
Em Brasília, o desafio é “pacificar” a pauta no Senado. Nem tudo são flores, como vende o presidente
Em Alagoas, durante um evento do PMDB (ocorrido na segunda-feira, dia 18), o senador Renan Calheiros evitou entrar em “bola dividida”. Não falou sobre a Operação Lava Jato e preferiu se afastar da polêmica do projeto de “abuso de autoridade”, que o colocou em rota de colisão com a Associação de Juízes Federais do Brasil (Ajufe). Calheiros defendeu uma agenda positiva para o retorno dos trabalhos do Senado Federal. Vendeu a imagem do Senado como o que vai solucionar a crise diante da votação final do processo de impeachment da presidente Dilma Rouseff: “o Senado é solução”.
Renan Calheiros sabe que não é bem assim. Alguns políticos - em especial os do PMDB - apostaram que a Lava Jato iria arrefecer diante do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Não foi o que ocorreu. A operação da Polícia Federal, que é a mais importante do país, ultrapassou a marca da 30ª fase justamente sem o PT no comando. Então, o alvo não é só o Partido dos Trabalhadores como alguns querem fazer crer. O próprio Renan Calheiros sabe quem também é alvo. É o que se observa nas gravações envolvendo o próprio Calheiros e outros peemedebistas como Romero Jucá.
Diante do cenário, a ideia do projeto de “abuso de autoridade”. Mais uma tentativa que não deve dar em absolutamente nada. O Congresso Nacional está longe da “pacificação” vendida pelo senador Renan Calheiros. Até mesmo a agenda que o presidente do Senado tenta emplacar, como sendo positiva à Casa, na busca por (na visão de Renan) resgatar o papel institucional e reduzir os desgastes oriundos das investigações tem encontrado resistência entre os líderes partidários.
Líderes insatisfeitos
Nos bastidores, líderes acusam de Renan Calheiros de não discutir pontos fundamentais da agenda. Há projetos que não são de comum acordo, nem há apoio de maioria. Um deles é justamente o que estabelece as punições para autoridades que cometerem abusos, que ainda depende de análise de uma comissão especial.
Há quem reclame que Renan Calheiros tenta impor sem sequer existir reunião sobre o assunto. Há quem veja Renan como um presidente tratando de interesses próprios, passando por cima das prerrogativas do cargo, uma vez que é alvo das investigações e o caldo pode engrossar. O segundo semestre, portanto, não terminou tão pacífico quanto Renan Calheiros anunciou em Alagoas. Não é bem assim, senador.
No dia 13 deste mês, um reflexo disto foi a reunião com líderes para tentar fechar acordo em torno de propostas, mas tudo foi deixado para o segundo semestre. Renan Calheiros - na reta final de seu mandato - não terá só o desafio do impeachment, mas também de construir uma pauta consensual. Calheiros tentou demonstrar que ela existe, mas não é verdade.
Além disto, é um ano eleitoral! Isto dificulta ainda mais as coisas. Calheiros minimiza esta situação e não trata de temas espinhosos, ainda mais quando está na “terrinha”. Aproveita que por aqui o tema eleições domina a pauta. O Senado retomará seus trabalhos no dia 2 de agosto. Em Alagoas, Renan Calheiros elencou como a grande pauta do segundo semestre a necessidade de uma reforma política. É impressionante como, diante de toda e qualquer crise, este tema seja o rumo de discussões, mas nunca avance. O senador peemedebista ainda culpou a Câmara por isto. Disse que os deputados federais “pisaram na bola”. “O Senado votou as matérias fundamentais: clausula de barreiras, proibição da coligação proporcional e uma regra clara para o financiamento de campanha. Teremos mais dificuldades nestas eleições porque não há regra clara”. Sobre a situação do país, Calheiros diz o óbvio: é um momento único da história. “Nós estamos, no Senado, buscando colaborar com uma saída. Os desdobramentos da crise passam pelo Senado. É o Senado que vai fazer o julgamento da presidente da República. Eu tenho procurado conversar com todo mundo. O Senado está pacificado. O Senado é a solução da crise”.
O presidente do PMDB não antecipou seu voto em relação ao impeachment. Sempre foi um dos aliados mais importantes do PT no processo. Desde o início. Foi aliado mesmo quando bancou de isento. Este é Renan Calheiros: o discurso cirurgicamente pensando para não se comprometer com absolutamente nada, ou muito pouco, diante da crise política e, desta forma, manter a habilidade de mover as peças no xadrez pensando nas jogadas adiante. Renan Calheiros, o enxadrista.
