Com a sociedade dividida entre favorável e contra o impeachment, muitos brasileiros se perguntam quais serão as consequências da decisão política para economia do país, ameaçada e agravada com a crise política. Enquanto uma parte dos brasileiros acredita que a inflação, recessão e o aumento de juros vieram junto com a má administração do governo, outra parte defende que o "golpe", vai provocar uma reação maior financeiramente, principalmente para a classe beneficiada com os programas sociais.
Diante desse quadro, o CadaMinuto Press buscou ouvir dois economistas alagoanos para trazer as avaliações dos especialistas sobre a possível melhoria da economia ou não depois da votação do Senado. O termômetro do valor do dólar no país tem medido também os planos anunciados pelo vice-presidente no seu atual governo.
Cícero Péricles coloca que o quadro de instabilidade com a posse do vice-presidente Michel Temer (PMDB) não trará um cenário e estabilidade e confiança, necessários para a retomada da economia. Já Rômulo Sales, afirma que é muito difícil fazer previsões em um cenário econômico contaminado por uma forte crise política, principalmente quando a mudança de governo em questão divide tão fortemente a opinião do povo e das instituições governamentais.
"Neste momento, a tendência é de se manter o quadro de dificuldades, pelo cenário nacional ainda conturbado, com a sociedade muito dividida. A presidenta Dilma será afastada por 180 dias, isso quer dizer indefinição e a falta de certeza pelos próximos seis meses. A economia refletirá, necessariamente, esse clima, aliado a falta de legitimidade do vice em assumir nas condições em que está assumindo", pontou Péricles.
Sobre um futuro próspero para economia com as mudanças, Péricles é bastante claro ao explica não consegue visualizar uma estabilidade durante nos próximos 180 dias, período o qual a presidente Dilma Rousseff ficará afastada das atividades até a decisão final sobre o impeachment.
"Há um problema político que determina a paralisia do governo desde as eleições de 2014. A oposição não aceitou os resultados de 2014 e luta desde então para derrubar o governo eleito. Isso tem influenciado em muito a economia nacional, porque a presença do setor público é muito importante. Os investimentos estão paralisados e o consumo caiu significativamente. A entrada de Temer não será a melhor resposta a esta crise. Melhor seria as eleições gerais e um novo governo legítimo", afirmou ele.
Apesar de muito recente, antes mesmo de sair a decisão do Senado, Michel Temer caiu em campo para avaliar algumas medidas de redução de gasto público e cortes nas despesas com o 32 atuais ministérios mantidos pelo Governo Federal. Péricles coloca que uma maior presença do Estado na economia, com anúncios de investimentos e aumentos dos gastos sociais, mesmo que isso gerasse um pouco mais de déficit público, seria uma das medidas urgentes a serem tomadas.
Ele criticou o pacote econômico lançado pelo ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, o que provocou o consumo e desgaste do governo. "Como a economia não deverá crescer este ano, o desemprego alto deverá ser mantido. O novo governo, quando assumir Temer, deverá levar a agenda trabalhista para o Congresso. A aprovação da lei da terceirização já sinaliza que muitos direitos trabalhistas serão modificados, em prejuízo para os trabalhadores. Michel Temer será a voz de um novo pacto, conservador, diferente da visão reformista dos governos Lula e Dilma", acrescentou.
Alagoas perderá com redução dos programas sociais
O modelo de crescimento econômico com inclusão social e distribuição de renda foi quem permitiu o crescimento de Alagoas nestes últimos anos, segundo a avaliação do economista Cícero Péricles. Ele coloca que todas as medidas anunciadas - até momento - são negativas para o Nordeste, assim como consequentemente para os alagoanos.
"Cortes nos gastos sociais, como o prometido para o programa Bolsa Família, irão atingir a vida de milhões de famílias nordestinas, incluindo as 420 mil que recebem esse benefício em Alagoas. Desvincular o salário mínimo dos benefícios da previdência vai retirar renda de 510 mil alagoanos que recebem mensalmente aposentadorias e pensões do INSS, um contingente que significa mais da metade das famílias alagoana. Cortar ou diminuir gastos nos investimentos públicos afetarão as mais de 800 obras do PAC em Alagoas. Neste caso, os cortes nos recursos federais afetarão tanto as grandes obras em andamento, como canal do Sertão e duplicação da BR-101, como os programas de desenvolvimento, a exemplo do Minha Casa Minha Vida, e de políticas e ações nas áreas sociais, a exemplo de educação e saúde. Os anúncios, até agora, não são nada otimistas", definiu ele.
Nesse mesmo aspecto, o especialista afirma que o desemprego continuará deverá ser mantido alto até o final do ano. Ele avalia que o vice-presidente deverá levar a agenda trabalhista para o Congresso, citando como exemplo a aprovação da lei da terceirização. "A aprovação da lei da terceirização já sinaliza que muitos direitos trabalhistas serão modificados, em prejuízo para os trabalhadores. Michel Temer será a voz de um novo pacto, conservador, diferente da visão reformista dos governos Lula e Dilma".
Rômulo Sales: “Sinais de melhoras aconteceriam, mesmo sem mudança de governo”
O economista Rômulo Sales avalia ser complicado realizar previsões sobre uma mudança considerável ou não do cenário econômico do país diante da forte crise política. A pressão para que a presidente Dilma Rousseff deixasse o cargo era grande por parte de quem acredita na melhoria das finanças e no crescimento dos investimentos com a saída do Partido dos Trabalhadores do Governo Federal.
No entanto, na visão do especialista alguns indicadores de mercado já apresentam leves sinais de melhora, o que reforça que o crescimento da economia, mesmo que pequeno, aconteceria independente da mudança de governo. Em entrevista ao CadaMinuto Press, Sales fala sobre a variação da moeda americana, além das medidas urgentes a serem tomadas neste cenário.
CM Press - Qual o futuro da economia que se pode vislumbrar a partir da possível mudança de governo?
Rômulo Sales - É muito difícil fazer previsões em um cenário econômico contaminado por uma forte crise política, principalmente quando a mudança de governo em questão divide tão fortemente a opinião do povo e das instituições governamentais. Para agravar mais ainda a situação, contamos com uma economia global fortemente desaquecida. Então, o cenário está posto e não é o melhor dos mundos. Independente de quem estiver no comando, não vai ser fácil reverter a situação.
CM Press - O senhor prevê uma melhora na economia ou um agravamento da crise no Brasil?
Alguns indicadores de mercado já estão dando leves sinais de melhora. A inflação acumulada em doze meses já dá sinais de arrefecimento. Em dezembro de 2015 estava em 10,7%, agora já está em 9,28%, ainda muito alta para o teto da meta, que é 6,25% no ano. Muito dessa queda é em função do aumento do desemprego. O mercado prevê que o Dólar deve ficar oscilando entre R$3,70 e R$ 3,90 até 2017, o que pode ajudar nas exportações e consequentemente melhorar o saldo da balança comercial. Reforço aqui que esses pequenos sinais de melhora aconteceriam independente da mudança de governo. A única certeza que temos quando estamos doentes é que, se medicado adequadamente, ficaremos bem. O problema aqui é saber quando ficaremos bem. Há quem especule que o pior ainda não passou. Indo por essa vertente, temos que ser realistas: ainda teremos muito aperto pela frente.
CM Press - E em Alagoas quais mudanças poderão ser sentidas? Exigirá um tempo para isso?
Alagoas é um estado pobre e muito dependente das transferências federais. Aproximadamente 60% da receita do estado advêm do Fundo de Participação dos Estados. Com o desaquecimento da economia nacional, nós também saímos perdendo. Adicionalmente, com o aumento do desemprego e inflação em alta, temos a redução do poder de compra do alagoano refletindo no enfraquecimento da economia local, fazendo cair ainda mais a arrecadação estadual.
Apesar de tantos indicadores socioeconômicos negativos que o nosso estado carrega, poderíamos estar em situação muito pior, quando nos comparamos com outros estados da federação muito mais ricos que nós. Enquanto temos estados sem conseguir pagar a folha dos funcionários e dos pensionistas, Alagoas vem, muito habilmente, conseguindo honrar os seus compromissos. Eventuais cortes de investimentos federais, principalmente nos programas Minha Casa, Minha Vida, podem penalizar consideravelmente nossa economia, que como disse, é muito pobre, sem indústrias de grande porte, portanto extremamente dependente de transferências federais e investimentos que façam aquecer nossa economia.
CM Press - A população perderá o "medo" de fazer novos investimentos e até mesmo de gastar um pouco mais?
Considerando o atual nível da taxa de juros, 14,25% a.a. e sem viés de queda, será preciso realmente muita coragem para colocar a mão no bolso e fazer algum tipo de investimento. A taxa de juros nesse patamar dá medo em qualquer investidor. Impossível estimular o investimento ou estimular o consumo com a taxa de juros nas alturas! É possível ganhar muito mais com o dinheiro investido em ativo financeiro do que arriscar na economia real para ganhar a mesma coisa, fazendo muito esforço para pagar impostos, assumindo todo o risco de empreender e, com a atual recessão, perder todo o dinheiro. Se os juros não baixar o “medo” continuará.
CM Press - Quanto ao desemprego e direitos trabalhistas, qual a perspectiva?
Com o pretexto de combater o crescente desemprego, uma das propostas do novo governo é flexibilizar ao máximo os direitos trabalhistas. Na verdade o que pode estar em curso é um grande retrocesso trabalhista! Como exemplo, foi aprovado mês passado pela Câmara dos Deputados em Brasília, lei que permite as empresas terceirizar, quarterizar e assim por diante, todas as atividades da empresa, inclusive a atividade fim, o que acabará desvalorizando a mão de obra do trabalhador. Os sindicatos podem perder força no eventual novo governo, ficando as negociações por conta da empresa diretamente com o trabalhador. O desemprego pode até diminuir, mas a que custo?
CM Press - Quais as medidas mais urgentes a serem tomadas? E quais os efeitos dessas medidas na economia e na opinião pública?
O país está envelhecendo muito rápido, as pessoas estão se aposentando muito cedo e vivendo por muito mais tempo. Para contrabalancear isso foi feito o fator previdenciário no governo FHC. Mas mesmo assim, as distorções continuam e reformas precisam ser feitas, pois a conta não fecha. Temos hoje no Brasil um sistema de carga tributária regressiva, ou seja, quem tem mais paga menos. Os pobres pagam muito mais impostos que os ricos. Os tributos incidentes nos gêneros alimentícios e nos serviços pesam muito mais no bolso das famílias pobres. As famílias ricas tem grande parte de suas rendas oriundas de lucros e dividendos de suas empresas, e por lei, lucros e dividendos são isentos de pagar imposto de renda. Não há como reduzir a desigualdade social sem haver uma reforma tributária adequada, onde quem ganhe mais, pague mais e quem ganhe menos, pague menos. Será necessário também austeridade fiscal, ou seja, redução de despesas, enxugamento da máquina pública, corte de investimentos etc. Contudo, é importante fazer uma ponderação com relação a redução de investimentos. Com a diminuição do papel do estado no investimento, este seria substituído pela iniciativa privada. Agora vem a questão: qual investidor se arriscaria a fazer investimento de longo prazo num ambiente de fragilidade das instituições brasileiras, com juros altos, nota de risco do país no grau especulativo, escândalos de corrupção etc.? É quase certo que medidas impopulares virão e quem irá sofrer mais é, sem dúvida nenhuma, a parte mais baixa da pirâmide social.
