Em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), o jornalista venezuelano Miguel Henrique Otero, do jornal El Nacional, denunciou nesta quinta-feira (20) o desrespeito do governo de Nicolás Maduro à liberdade de expressão em seu país.

Segundo ele, a Venezuela foi tomada por uma ditadura que não respeita opiniões divergentes e sufoca os meios de comunicação de diferentes formas, seja com violência física a jornalistas, com aprovação de leis de controle da mídia ou com punições administrativas e tributárias.

—  O governo diz que o país é democrático porque tem eleições, mas essa não é a única característica de uma democracia, pois o processo eleitoral tem que ser livre e independente, o que não é o caso da Venezuela. Além disso, a liberdade de expressão é pilar de qualquer democracia e não é respeitada no país. O regime de Maduro é uma ditadura sob qualquer aspecto — afirmou.

Miguel Otero disse que há atualmente 70 presos políticos mantidos encarcerados por decisões liminares de um Judiciário dominado pelo Poder Executivo.

—  Todo preso político está sendo julgado em teoria, mas na pratica são medidas cautelares, sem sentença e sem julgamento. Todos são presos sem prova contundente. Assim funciona esse mecanismo moderno de deter preso políticos — lamentou o jornalista, que é alvo de processo da justiça venezuelana por ter publicado reportagem denunciando  o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, por lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.

O convidado ainda lamentou o fato de a Venezuela deter uma das maiores reservas de petróleo do mundo e estar à beira do colapso econômico, com crise de desabastecimento e inflação de 200% ao ano.

— O país está chegando a uma crise humanitária parecida com a do Haiti. Uma situação de violência e catástrofe que pode afetar toda a America latina. As consequências podem ser muito graves para o continente — previu.

Eleições

Depois de alertado pelo jornalista para o risco de fraude nas eleições parlamentares marcadas para o fim do ano, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) sugeriu que a comissão peça formalmente à Organização dos Estados Americanos (OEA) que envie observadores para acompanhar o pleito.

A iniciativa de ouvir o jornalista partiu do senador José Agripino (DEM-RN), que fez críticas à administração de Maduro e lamentou a situação pela qual passa o povo venezuelano.

Já o presidente da CRE, senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), criticou a postura de inércia do governo brasileiro diante de tantas irregularidades no país vizinho.

— Não dá mais para o governo brasileiro permanecer nesta posição. O que acontece lá nos diz respeito sim. O Brasil tem o compromisso de conduzir sua política externa sob o pilar do compromisso com os direitos humanos. O país está ameaçado de crise humanitária. Se essas eleições não transcorrerem sob condições minimamente aceitáveis, a crise política vai se agravar — afirmou.