Welton Roberto
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O tempo da Bia

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Chegada da Corrida da Superação
Chegada da Corrida da Superação / foto by Maivan Fernandez

A vida começa aos 40! É o que todo mundo diz! Cabelos grisalhos despontando e com 80 quilos mal distribuídos em um corpo de 1,68m lá fui acreditar no adágio popular. A vida começava ali. Ou não! Sedentário nunca havia sido. Esporte sempre fez parte da minha vida desde a infância: futebol, judô, atletismo, basquete, vôlei, de tudo eu praticava um pouco. O futebol me compreendeu melhor. Consegui ser selecionado para jogar no infanto-juvenil do Palmeiras, clube do coração desde que me entendo por amante da pelota!

Mas por pouco tempo.

A transferência do meu pai para a cidade de Santos/SP como cabo da Marinha do Brasil me tiraria o sonho de ser jogador pelo Palmeiras e em outro clube eu não jogaria nem a pau, Juvenal. Acho que todo pivete que vem de família pobre e não tem pais, tios, avôs e avós formados tem no esporte a sua válvula de escape. Foi o meu caso.

Depois me apaixonaria por futsal e a para a seleção santista consegui pegar um banco de reservas. Mas o trabalho me chamara cedo para a dura realidade e o esporte foi sendo colocado em último plano. Dos 19 anos aos 39 anos só uma aventura pelo mundo das artes marciais me tiraria do sedentarismo. Kung-Fu por 01 ano inteiro. E mais nada.

A “DOLCE VITA” sedentária é viciante!

Porém, foi num fatídico jogo de futebol recreativo no dia dos pais na escola da minha filhota Tyla que o farol vermelho acendeu. Não consegui jogar nem 5 minutos e a vergonha na frente da filha me fez repensar tudo. Tinha 39 anos de idade, trabalhava como advogado, era professor de 03 faculdades em Maceió, estava no meio de um doutorado em Recife, era conselheiro da OAB, e nos finais de semana a danada da cerveja não me deixava em paz. Os porres de sexta-feira e de sábado com os amigos era garantido. E sagrado!

Do esporte só a lembrança de um dia ter sido um bom jogador de futebol, para a pilhéria dos amigos que não acreditavam em uma vírgula do que eu falava na mesa do bar, onde segredos são revelados em meio a doses de alegria e muita cerveja. Muita mesmo!

Mas tudo mudaria naquele jogo. Sabem aquela resolução que todo mundo toma na virada do ano? Pois é, a minha virada do ano foi ali em agosto de 2008 logo após o “jogo dos pais buchudos” casados e cansados. Nunca tinha presenciado uma bola ser tão maltratada até então. Depois lógico viria o fatídico Brasil e Alemanha em 2014. Para a nossa redenção!

Aos 40 anos virei corredor e a vida realmente começou ali. Um tênis e uma nova forma de ver tudo. Parei de beber com os amigos que continuam até hoje enchendo a cara todas as sextas e sábados.

Perdi muitas risadas e resenhas! Mas ganhei uma nova vida! Ou um restinho dela!

 Parei de beber.

Fiquei bem chato, é verdade. Fui perdendo quilos e ganhando medalhas. Os porres foram substituídos pelos novos desafios de correr mais longe em menos tempo. Corridas de 05 km, 10 km, 21 km e a temida maratona! Fui me superando a cada momento e me especializando no mundo deste esporte fascinante. Li muito a respeito, treinei um bocado, errei muito no começo sem uma dieta específica, sem treinos específicos, mas não parei. Fui buscando profissionais da área, fui viajando para correr e para fazer maraturismo (maratona com turismo).

A cada prova os tempos pessoais eram batidos e novos recordes apareciam. Números se transformaram nas metas. Minutos e segundos mais rápidos pareciam ser as coisas mais importantes nos finais de semana e nos treinos. E eram.

A pergunta que todos os corredores se fazem ao final de cada prova depois de se congratularem efusivamente como se fosse um gol de final de Copa do Mundo: “Qual foi seu tempo?”

Cada medalha conquistada era dividida alegremente com meus filhos que agora tinham um pai quarentão e corredor. Os amigos desistiram de me chamar para beber nos finais de semana. Acho que não queriam um chato que iria beber água de coco ao invés de cerveja na mesa sagrada do boteco.

Até que um susto familiar me sacudiria em 2014. Minha filha Bia de apenas 15 anos estava anoréxica. Uma doença silenciosa e que chegara de repente. Perdera em 15 dias, durante uma de minhas viagens de trabalho, mais de 08 kg. O susto dera lugar à preocupação e ao imediato tratamento. Aos poucos fomos conseguindo trazê-la de volta; idas e vindas em nutricionista, consulta com psicólogo, o apoio familiar, a introdução a um esporte lúdico nos deram algum norte.

Ficamos mais próximos depois disso e para a minha surpresa e alegria, em um dia de muito trabalho e estresse no escritório, ela me manda uma whatsapp com um treino dela numa esteira de corrida.

Ela tinha vencido a doença!

Chorei emocionado. Ela então me pediu se poderia treinar algum dia ao meu lado. A resposta foi imediata. Dali para sua primeira corrida de rua foram alguns meses de treino. Hoje corremos juntos as provas de rua em Maceió de 05 e 10km (ela até já arriscou uma prova de 16km na Superação na Barra de São Miguel-AL – e terminou bem a danada).

E agora quando os corredores terminam suados e vitoriosos as corridas, aquela pergunta que nos fazemos mutuamente sobre o nosso tempo alcançado, eu hoje alegremente esqueço os números e respondo: “Fiz o tempo da Bia”.

Boa semana aos amigos.  

  

 

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