Ainda quando tinha esperanças de que evitaria a falência de seu grupo empresarial, com dívida estimada em cerca de R$ 2 bilhões, o então deputado federal João Lyra (PSD) despiu-se de alguma lealdade que poderia ter com quem participou na construção de seu patrimônio e chamou de vândalos os trabalhadores que protestavam pelo recebimento de salários e direitos trabalhistas, há pouco mais de um ano. O discurso que celebrava a oficialização de candidaturas de Renan Filho (PMDB) e Fernando Collor (PTB) fez jus ao sentimento de indignação que despertou em boa parte da sociedade.
“Alagoas é um sacrifício. Vivo no meu escritório cercado por vândalos que querem toda hora perseguir, fazer isso e aquilo. E não posso apelar ao governo. O mínimo que pode acontecer é o governo se avacalhar e virar vândalo também”, discursou João Lyra, que conseguiu constranger até mesmo Collor.
Talvez, se voltasse ao falar hoje sobre o tema, o usineiro que já foi considerado o homem mais rico de Alagoas poderia por a pecha de vândalo naqueles que formam a gestão colegiada da Massa Falida da Laginha Agro Industrial S/A.
A reportagem de capa desta edição mostra dados obtidos com exclusividade do laudo pericial contábil apresentado no último dia 02 de julho à Justiça de Alagoas. O trabalho identificou um gasto de R$ 27 milhões de recursos da conta de onde sairão pagamentos da dívida bilionária, e é parte do processo de falência da empresa. A legislação prevê o acompanhamento da gestão dos bens, para garantir a preservação do patrimônio da indústria, que tem mais de 30 mil processos trabalhistas em tramitação e 16 mil funcionários em sua folha de pagamento.
O resultado do trabalho conduzido pelo perito contador judicial Joel Ribeiro dos Santos Junior é tão objetivo quanto à matemática e tão rigoroso quanto às cartas legislativas. Por conta do que foi encontrado, o laudo acende um alerta para trabalhadores, fornecedores e credores, que alimentam a esperança de ver quitadas as dívidas que a Laginha contraiu junto a eles.
Após o levantamento, que foi parcial por conta da sonegação de informações com que o perito afirmou ter se deparado, o laudo apresenta uma das maiores contradições no atual cenário da economia nacional. Entre maio de 2014 e maio de 2015, a Massa Falida foi alvo de ataques comparáveis aos de black blocs, que agem às escondidas, quebrando regras (da economia, administração e da contabilidade) e destruindo bens comuns à coletividade.
O leitor do CadaMinuto Press tomará conhecimento, por exemplo, de números detalhados do cenário caótico e irregular na gestão da Massa Falida da Laginha, que deve abrir espaço para novas investidas do Ministério Público e do Judiciário, para corrigir os rumos deste processo, em direção ao atendimento de famílias inteiras que foram vítimas da trágica gestão que acumulou décadas de dívidas e de vícios administrativos, lastreados no poder que os coronéis de engenho pensavam ser eterno e inabalável.
O perito contador judicial conclui que houve perda de tempo e de dinheiro, por meio de gastos milionários com salários pagos a supostos servidores cuja existência não foi comprovada, duplicação de salários de gestores, saques em dinheiro e até mesmo descontos de até 45% na venda da cana das usinas em Alagoas. A Justiça deve agir, antes que só reste o fel no engenho.
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Este editorial está publicado na Edição nº 91 do jornal CadaMinuto Press, que chega às bancas nesta sexta-feira (10) com este e outros destaques

