Nos primeiros meses de 2007, estava difícil viajar em aviões de carreira no Brasil. Os longos atrasos nos voos eram uma constante e as filas nos aeroportos para fazer check in, um total inferno. 

Início do primeiro mandato do governador Teotonio e em algumas de suas viagens a Brasília eu o acompanhei como assessora de comunicação.  A agenda de trabalho era intensa, corrida, em ministérios, órgãos federais, às vezes no Palácio do Planalto, outras, no Senado e na Câmara dos Deputados.

A me auxiliar, um notebook pequeno, um modem da Oi para transmitir as matérias, e um fotógrafo contratado em Brasília.

Corre-corre danado.

 Entra no carro, desce em um ministério, apresenta documento, guarda documento, entra na sala, abre o computador, instala o modem que nunca funciona na hora, agiliza-se as informações para à Secretaria de Estado da Comunicação, atende telefone, liga para as redações, guarda tudo, começa imediatamente outra agenda em outro lugar.

Em alguns dos locais, com a presença da imprensa, era preciso deixar tudo de lado e acompanhar as entrevistas dadas pelo governador. Em outros momentos, era preciso fazê-lo falar com alguns jornalistas alagoanos por telefone, para repassar, ele próprio, algumas notícias sobre a produtividade da agenda para o estado.

Contatos com as assessorias de comunicação dos ministérios e órgãos federais eram, tipo:

- Oi, prazer, sou assessora de comunicação do governador de Alagoas, por favor, me passa teu email e teus contatos porque eu posso  precisar de algumas informações e não dá tempo para falarmos agora.

Claro, colegas sempre gentis, cordiais, prontos para ajudar.

Em uma dessas viagens, final de manhã de uma quinta-feira, saímos direto de uma reunião para o aeroporto Juscelino Kubitschek, rumo a Alagoas.

Bolsa de viagem, essa só de mão. Não dava tempo despachar mala, essas coisas e tal. Mochila nas costas e uma pequena valise de viagem, e eu estava pronta para o que desse e viesse. Chegamos ao aeroporto. Passagem à vista, ainda na fila para a sala de embarque, comecei a procurar minha identidade, o único documento que carregava comigo para onde fosse.

Na entrada, o funcionário da Infraero pegou a identidade e a passagem do governador, conferiu, e o deixou passar. Estendeu a mão para mim. Eu entreguei a minha passagem e disse que estava procurando a identidade.

A essas alturas, já suando frio, não achava o peste do documento.

Atrás de mim, uma fila inteira de passageiros.

O funcionário esperou pacientemente cinco minutos enquanto eu já estava com a bolsa e a mochila abertas, quase sentada no chão, a retirar tudo que tinha dentro,  e sentenciou:

- Sem documento, não viaja.

Eu tirava da bolsa cartões de assessores de ministros, blocos de papel, escova de cabelos, e nada da carteira de identidade.

O governador tentou me acudir. Ligou para Joãozinho, o motorista dele em Brasília, e pediu que ele procurasse no carro, até fosse ao último ministério onde tínhamos ido, e dirigiu-se ao funcionário:

- Eu sou governador de Alagoas, ela é minha assessora, eu me responsabilizo por ela, assino o que for preciso, mas dá pra ver que o documento não está aqui.

- Sem documento, ela não viaja governador.

Eu, nervosa, sugeri que o governador Teotonio embarcasse. Eu ficaria. Pediria uma segunda via emergencial, iria à Fenaj para tirar outra carteira de identidade de jornalista, mas ele precisaria retornar a Maceió.

“De jeito nenhum. Só saio daqui com você”, me respondeu Teotonio e eu percebi que ele estava preocupado, mas também divertido com a situação.

Até relaxei, e sorri.

Para não atrapalhar mais o atrapalhado movimento no aeroporto, o funcionário deixou que a fila andasse. Aí me chega Olavo Calheiros, na época deputado federal. Solidário, abaixou-se (eu já estava literalmente sentada no chão) e foi me ajudar a procurar o documento.

Eu, desolada:

- Está aqui não deputado.

Ele:

- Calma, vamos procurar novamente.

Chega Benedito de Lira, também deputado federal.

- O que está acontecendo aqui?

Teotonio, divertido:

- Eliane perdeu a identidade, já tirou todos os segredos de dentro das bolsas e nada.

Biu, tentando ajudar, foi pedir por mim ao funcionário, que já tinha mandado chamar um superior para resolver o impasse.

- Sem documento, deputado, ninguém viaja.

O deputado Carimbão aparece. Diz ao funcionário que é o coordenador da bancada federal de Alagoas, que “atesta” em documento à Infraero que me conhece, que sou jornalista, que se responsabiliza por mim, mas nada feito. Recebeu a mesma resposta já dada a Teotonio, Olavo Calheiros e Biu de Lira:

- Sem documento, ela não viaja.

Chega o superior do funcionário, eu já estava em pé com a mochila nas costas e a bolsa na mão. Teotonio explica a situação. O homem olha para mim, eu faço cara de paisagem, os parlamentares ajudam na “negociação” e eu, finalmente sou “liberada”, sob a responsabilidade total do Governador de Alagoas.

Ou seja, se, por acaso, eu aprontasse alguma coisa, Teotonio pagaria a conta.

Embarcamos rindo muito.

O constrangimento virou piada e assunto para a viagem toda.

Em Maceió, mal chegamos e eu corri à Secom. Ao abrir o meu computador, confortavelmente estava, ali,  bem deitado, o tal do documento.

Certamente a rir da minha cara.

Aprendi a lição, viajo sem lenço, mas não sem documento.

Agora levo, além da identidade pessoal, a da Fenaj, carteira de trabalho e até passaporte.