A histeria de militantes defensores da família contra defensores das liberdades individuais em Alagoas produziu e ainda produzirá cenas patéticas e absurdas, no debate sobre os planos de educação para o ensino público. Como se não tivéssemos problemas a solucionar, nem metas sérias a debater, a interpretação equivocada e míope do que está escrito nestes planos no âmbito nacional, estadual e municipal conduziu o debate para um rumo em que a hipocrisia e o exagero pisoteiam um documento fundamental para o resgate do Estado de Alagoas do vergonhoso índice de 21,6% de analfabetos com 15 anos de idade ou mais.
A tal “Ideologia de gênero”, que foi alçada a ponto central dos planos de educação, cegou o importante debate sobre educação na Alagoas, campeã de analfabetismo com situação quase três vezes mais grave que a média nacional, cujo índice de analfabetismo é 8,5%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada em setembro de 2014 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Entre as cenas patéticas já produzidas, pode-se destacar a indignação do deputado estadual Dudu Hollanda (PSD), quando discursou, em plenário da Assembleia Legislativa, contra uma notícia falsa de site de humor, que falava sobre o uso de banheiro feminino por um estudante gay, na “Escola Belzebu”.
Outro espetáculo ocorreu na última sexta-feira (19), quando a Câmara e Vereadores de Maceió foi arena de embate entre uma vertente fundamentalista religiosa e outra formada por uma minoria que quer impor o respeito de uma forma tão exagerada quanto a intolerância de que é alvo. Público tão grande e tão engajado não se via há um bom tempo por lá, em uma audiência pública.
Cartilhas apócrifas e não adotadas pelo Ministério da Educação (MEC), nem por nenhuma secretaria de educação de Alagoas, estão sendo usadas como armas neste embate. Mas o que está, por exemplo, no Plano Estadual de Educação são orientações sobre o respeito e o tratamento inclusivo que deve ser dado a todos estudantes, que são iguais perante a Constituição, com diferenças a serem respeitadas.
Mas fazer alunos da rede pública de ensino em Alagoas aprender a ler e a escrever parece ter se tornado um objetivo secundário ou até terciário, diante do debate sobre a inclusão de uma pauta que visa decidir se é ou não correto fazer os estudantes entenderam que há comportamentos diferentes, no aspecto da diversidade sexual.
Nenhum deputado, vereador ou líder religioso ou do movimento LGBT tem debatido o analfabetismo. Mas a alfabetização e outros aspectos fundamentais e básicos da educação precisam de maior atenção e não ocupam espaço significativo neste debate e nos documentos dos planos. Alguns exemplos são as seguintes metas, constantes no Plano Estadual de Educação (PEE):
- Meta 5: alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º (terceiro) ano do ensino fundamental.
- Meta 9: elevar a taxa de alfabetização da população alagoana com 15 (quinze) anos ou mais para 100%, até o final da vigência deste PEE e reduzir em 50% (cinquenta por cento) a taxa de analfabetismo funcional no estado de Alagoas.
Eis alguns pontos centrais do plano, que ocupam muito mais espaço no PEE do que as cinco páginas que tratam da necessidade de respeito e responsabilidade, no tratamento de temas como a diversidade em geral, de raça, gênero e condição humana. Mas uma manada de ignorantes tem espezinhado esses aspectos, infelizmente.
A raiz do problema
Compreender a tal “ideologia de gênero” parece ter se tornado um novo desafio de uma sociedade que ainda não compreende que negros, pobres, prostitutas e outros cidadãos marginalizados também têm os mesmos direitos que os religiosos, políticos ou integrantes da falsa elite alagoana (intelectual e financeira).
Algumas vozes sensatas se fizeram ouvir, em meio à barulhenta horda de militantes que ocuparam esta “tribuna”. A vereadora Heloísa Helena foi uma delas, que disse o seguinte, durante a audiência pública sobre o Plano Municipal de Educação de Maceió: “Eu aprendi a ler e aqui [no plano] não tem ‘ideologia’. Vamos acabar com isso. Vamos estudar e ler. Gênero só tem dois: masculino e feminino. Identidade e papel de gênero são outra coisa, e orientação sexual é outra. Só uma mente sórdida colocaria na imprensa que o plano vai ensinar crianças de três, quatro, cinco anos a saberem práticas sexuais. Isso é uma mentira vulgar. O que o plano está falando é que todos os trabalhadores da educação têm que ser preparados para não intensificar os preconceitos”.
Outro serviço público importante foi prestado pela professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Elvira Simões Barreto. Ela falou sobre a degeneração do debate sobre “ideologia de gênero” no ensino público. Além disso, o Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal) tomou a iniciativa para que o Ministério Público Federal (MPF) investigue a origem dos boatos sobre cartilhas falsas. E tais fatos tentam resgatar a lucidez para a histeria causada pelo tema, também entre pais e em uma classe política conservadora e oportunista.
Neste aspecto, políticos alagoanos se envolveram tanto com este debate, que até surgiu uma campanha: “Eu voto não para ideologia de gêneros”. A euforia em busca do aplauso fácil da população sem formação é tamanha, que até parece que está extinto o analfabetismo, a evasão escolar e outros problemas que impedem o avanço do ensino público ao encontro de uma verdadeira proteção das famílias em Alagoas.
As famílias mais pobres precisam que os enérgicos discursos contra “absurdos” se voltem contra ameaças reais. Além do analfabetismo que exclui as oportunidades de sobrevivência digna, as famílias precisam que sejam preservados e melhorados os programas de assistência social, de geração de emprego e renda, suspensos ou tratados com descaso desde janeiro de 2015, em Alagoas.
O resto é jogo de cena num espetáculo vergonhoso que somente servirá para arregimentar seguidores para igrejas, bases eleitorais ou associações que não podem esquecer que a falta do básico na educação é a raiz do problema. E o que mais ameaça a pureza das crianças é essa hipocrisia de debatedores privilegiados por saberem ler em Alagoas, mas escolhem a ignorância útil aos seus interesses sórdidos e mesquinhos.
