Início dos anos 80.

Na reportagem geral do Jornal de Alagoas, eu fui com o meu companheiro de trabalho, Demétrius, entrevistar o ator Luís Gustavo, que viera a Maceió com uma peça a ser apresentada no Teatro Deodoro.

Entrevista marcada, eu e Demétrius seguimos para o Luxor Hotel, onde o ator estava hospedado.

 Fotógrafo, Demétrius não era de muita conversa.  Na maioria das vezes, no caminho de uma pauta, se eu não puxasse um assunto, nem perceberia que ele estava ali, quieto, ao meu lado. Chegava cedinho na redação. Ou melhor, no bar da dona Nete, na mesma rua do jornal, para o primeiro café do dia.

Na verdade, o bar da dona Nete era um anexo das redações. Entre 1979 e 1982, mais precisamente,  das redações da Tribuna de Alagoas, Jornal Hoje e Jornal de Alagoas. Estávamos sempre lá, como numa grande assembleia, a promover debates políticos, a jogar conversa fora, a abraçar amigos e a fazer fiado na caderneta solidária e generosa da dona do estabelecimento.

Tínhamos grandes tribunos no bar da dona Nete, desde Tobias Granja, a Zito Cabral, Teófilo Lins, Freitas Neto, e tantos outros.

Mas voltando à minha pauta com Demétrius, estávamos na recepção do Luxor Hotel, no aguardo de Luis Gustavo, quando o ator chegou, nos cumprimentou, e nos convidou para ir ao restaurante, que já estava vazio naquela metade da manhã.

Lá, começamos a entrevista e, de repente, Demétrius se aproxima, olha bem para Luís Gustavo e pergunta:

- Você que apresentava o Topo Gigio na TV?

Topo Gigio foi um ratinho que fez sucesso no final dos anos 60, início dos anos 70, em um programa de humor da Rede Globo, apresentado pelo ator Agildo Ribeiro, e que virou febre de consumo entre a criançada e adultos do Brasil inteiro.

Luis Gustavo, gentilmente, explica que era seu colega, Agildo Ribeiro, o “dono” do Topo Gigio na TV.

Continuamos a entrevista, Demétrius fotografando, daqui a pouco, ele nos interrompe novamente:

- O senhor tem certeza de que não apresentava o Topo Gigio?

Luis Gustavo, novamente gentil:

- Absoluta. Era o meu amigo Agildo Ribeiro.

Nem bem o entrevistado respondia a outra pergunta, lá vem de novo o Demétrius:

- Não me conformo. Acho que era o senhor mesmo.

Constrangido, Luis Gustavo olha para mim, para ele, e questiona:

- Mas você gosta tanto assim do Topo Gigio? Quer que eu peça um autógrafo de Agildo para você? Eu consigo e te mando pelos Correios.

E para nossa surpresa, a reação de Demétrius:

- Deus me livre. Não suporto esse rato.

Rimos muitos, eu e Luis Gustavo. A conversa foi levada ao bar da dona Nete e por semanas, o Topo Gigio virou assunto de pauta por lá. 

No carro, de volta ao Jornal de Alagoas, Demétrius ainda cutucou:

- Eliane, eu acho que essa história de Agildo Ribeiro não existe. Era ele mesmo quem apresentava o tal rato. Não sei porque não quis falar. Acho que o rato deu azar pra ele.