A primeira e tênue lembrança que tenho de uma Copa do Mundo é a de 70. Uma TV com imagens em preto e branco colocada numa loja de produtos agrícolas em Mata Grande. Um monte de gente ao redor. Por ser bem pequeno, alguém segurava na minha mão. Um muro de pessoas impedia que eu pudesse ver algo. Mas sentia muita emoção entre as pessoas reunidas. Televisão era artigo raríssimo em Mata Grande.
Mas a Copa daquele ano ficou na memória. Nós, crianças, tínhamos uma bola de futebol com as imagens e os nomes dos jogadores. Carlos Alberto, Piazza, Félix, Gerson, Pelé, Jairzinho, Rivelino, entre outros. Lembro até que tinha o nome de Garrincha, que não participava daquela Copa. Na hora de formar os times, disputávamos quem queríamos do nosso lado e os nomes dos jogadores da seleção.
Um dos meninos chamado Neném, era Rivelino. Ele tinha o chute mais forte, um bicudo com o dedão do pé que raramente acertava o alvo. Eu era Garrincha, sem motivo algum. O nome apenas lembrava garrancho, ou galhos de árvores, sem jamais imaginar que Garrincha – um pássaro lá do Sudeste - era o sensacional Mané.
Outra lembrança é a Copa de 1986. Estudando em Maceió, tínhamos um time de futebol chamado Vira Copo. O terno era verde, o escudo era um copo e um limão colocado na borda pingando dentro do copo. Ficou claro o porquê do escudo, não é mesmo? Bom, antes dos jogos dos campeonatos que participávamos aos sábados, nos encontrávamos no bar Grutinha, na Gruta. Era nossa concentração. Adolescentes, tomávamos uma, de leve, para esquentar.
O restante da bebida era levado para o jogo. Antes do apito final acabava tudo. O consumo ficava por conta do técnico, Elbinho, e dos reservas. Era um time só de amigos. O nosso goleiro era um frangueiro, Fernando Pariça. Fazia raiva em todos os jogos, mas depois a decepção passava, pois era um ótimo companheiro além do futebol.
Numa decisão de um campeonato, jogávamos contra o time da Salgema no campo deles que fica (ficava?) por trás da fábrica. Jogo duro. Se desse empate decisão seria na prorrogação e nos pênaltis. Tempo normal terminou empatado em dois a dois. O nosso goleiro, sempre ele, tomou dois frangos absurdos. Estávamos todos putos com o cara, reclamando dele e com vontade de..., deixa pra lá.
Prorrogação sem gols. Decisão nos pênaltis. Com aquele goleiro, meu Deus, estávamos perdidos. E não é que numa das cobranças do time adversário ele faz uma defesa sensacional. A bola foi pro alto. Ele se esquece de fazer a segunda defesa, corre pra gente comemorando, gritando e dizendo: “tão vendo, defendi, ganhamos”.
Enquanto nós gritávamos: “pega a bola seu @#$%¨, filho *&$@#. Como ele tinha abandonado o gol emocionado pra se vingar dos xingamentos que sofrera, não percebeu que após a defesa, a bola subiu e desceu dentro do campo, então estava em jogo. Pois bem, a bola bateu no chão uma três vezes antes de entrar no gol lentamente. Ou seja, além de ruim o nosso arqueiro era burro.
Fernando ficou pálido. Baixou a cabeça. Só não apanhou...Deus sabe lá. Decisão continua. Cada equipe tendo direto a um chute direto. Quem errar é tchau e benção. Fernando Pariça não fez nenhuma defesa. Mas um jogador do time adversário chutou pra fora. Éramos campeões. Comemoração no Grutinha, alegria e perdão pra Fernando. Afinal era nosso amigo. Mas era um frangueiro.
E assim continuamos jogando. Vendo os jogos das Copas juntos, na maior alegria e consumação. Amigos. Até que o tempo, o trabalho, casamentos, filhos e outras coisas nos separaram.