Sem pão na mesa. Uma cervejinha na praia? Jamais! Aquele achocolatado antes de ir para a escola pode ser perigoso. E os xampus e sabonetes provocando dores de barriga, quem já ouviu falar? Para a maioria das pessoas essas ações parecem incabíveis, mas não para os celíacos – pessoas geneticamente predispostas com intolerância permanente ao Glúten, substância presente em boa parte dos produtos que consumimos no dia a dia.
A estudante Ana Carolina Guimarães, de 17 anos, convive com esta limitação desde o primeiro ano de vida, quando seus pais observaram a primeira reação. “O diagnóstico inicial foi lactose, mas minha mãe queria certificar e procurou outros profissionais, que atestaram ser doença celíaca”, explica. A dieta teve de ser adaptada. Cortaram todo e qualquer alimento que possuísse a proteína, a exemplo do trigo, centeio, aveia e cevada. Ana comenta que não passa fome nem sente falta de saborear certos alimentos, afinal, algumas marcas substituem o Glúten por outros produtos.
“É preciso apenas cuidado na hora de fazer compras. Procuro sempre a informação sobre o Glúten no rótulo, é importante, pois a maior prejudicada na compra de um produto errado sou eu”, conta. A estudante não fala apenas de alimentos. Existem xampus, sabonetes e maquiagens com adição de Glúten na composição e também podem agredir o organismo do celíaco. “Há alguns anos, eu e minha família nos mudamos e no terreno ao lado tinha um moinho, que todo fim de semana entrava em atividade. Só em respirar o trigo moído eu passava mal. Nós já temos dificuldade em ganhar peso, e essa experiência apenas reforçou a condição, até que fui considerada com anemia e tivemos de trocar de casa outra vez”, ela lembra.
No Brasil, de acordo com o Conselho Nacional de Saúde, a doença celíaca afeta em torno de 2 milhões de pessoas, mas grande parte delas sequer sabe a existência de uma patologia relacionada ao Glúten. Ainda segundo a fonte do Governo Federal, a cada 400 brasileiros um é celíaco, e apenas um em cada oito portadores possui diagnóstico. A predominância é de 3:1 em mulheres, com predisposição genética.
Gastroenterologista do Hapvida Saúde, Karine Caldas explica que a doença celíaca tem o intestino delgado como campo, dificultando o organismo de absorver nutrientes dos alimentos, vitaminas, sais minerais e água. “O diagnóstico é obtido através de exame de sangue e endoscopia com biópsia do intestino delgado. A biópsia de controle não deve ser feita antes de 2 anos. O processo de regeneração da mucosa é lento e pode levar até 3 anos para haver recuperação total”, descreve ela.
“A dieta é o único tratamento eficaz até o momento. As melhoras na qualidade de vida começam a aparecer após alguns dias, a contar do início da dieta. O intestino delgado normalmente leva algum tempo para estar completamente recuperado, mas a alimentação regrada deve ser seguida por toda a vida, para garantir a plena saúde do paciente”, orienta a médica. Para os não-celíacos, ingerir alimentos sem Glúten não fazem qualquer mal. A recíproca não acontece. Karine alerta para a observação atenta aos rótulos de produtos industrializados. “Existe uma Lei Federal (nº 10.674/2003) que determina a obrigatoriedade de constar nas embalagens as inscrições ‘Contém Glúten’ ou ‘Não contém Glúten’, conforme o caso, visando garantir o direito à saúde do cidadão celíaco”, completa.
E como fica na gravidez?
Cristiane Simões, bancária, 38 anos, apresentou os sintomas da doença celíaca em 2010. Dois anos depois, engravidou de sua primogênita. Acostumada com o ritmo de uma alimentação regrada, não teve grandes problemas nutricionais, embora a dificuldade para ganho de peso seja uma realidade constante ao quadro. “Engordei 12 quilos durante a gestação, quantidade considerada normal”, comemora. A preocupação surgiu apenas quando seu médico lhe receitou alguns medicamentos e complementos vitamínicos. “Na embalagem não consta se a fórmula dos remédios utiliza algum ingrediente com Glúten, e eu ficava receosa em consumir, mas como era recomendação do profissional que me acompanhava, eu acabava consumindo”. O bebê nasceu em perfeito estado, sem sequelas, e Cristiane não apresentou qualquer tipo de mal estar durante o período.
Por ser uma doença que pode apresentar desenvolvimento por caráter genético, a bancária decidiu precaver e excluiu das refeições de sua filha qualquer alimento com a proteína, até o primeiro ano de vida. Após esse período, passou a introduzir pequenas quantidades de Glúten na alimentação. “Notei que ela sempre coçava o braço e levei à pediatra, que identificou ser reação alérgica. No entanto, não sabemos se é relacionada ao Glúten. Estou para realizar os exames com ela”, relata Cristiane.
Comida caseira
Quando descobriu ter a doença celíaca, a nutricionista Gabriela Quintella de Arroxelas estava no segundo ano da faculdade. Não contente em ter de cortar algumas guloseimas de sua alimentação, devido à presença de Glúten na composição, decidiu utilizar os ensinamentos absorvidos em sala de aula para produzir, ela mesma, suas sobremesas. “A iniciativa veio quando percebi a dificuldade de encontrar no mercado alimentos que se encaixassem no perfil. Além da baixa variedade, o preço costuma ser bem mais alto e o sabor não satisfaz”, diz. “Pesquisei na internet algumas receitas e comecei a preparar, substituindo ingredientes como farinha de trigo por farinha de arroz ou de nenê, ou por amido de milho, que têm mesma textura e gosto semelhante”, revela a nutricionista.
Por sua qualificação profissional, adicionou alguns truques que deixam os alimentos ainda mais saudáveis. Ela observou que os produtos sem Glúten utilizam muito óleo para ter consistência, por isso, acrescenta farinha de linhaça à receita, para diminuir a absorção de gordura, tornando as comidas mais funcionais. O empenho não se resume à saciação.
A ideia foi bem sucedida, e Gabriela alcançou conquistas que nem pretendia: iniciou uma loja virtual para comercializar os alimentos. “Comecei a divulgar minhas aventuras culinárias nas redes sociais e as pessoas perguntavam, procuravam saber o valor”, conta. Hoje, são dez produzidos por ela, dentre eles pãozinho de queijo, Lolita (salgadinho de goiabada), pizzas e cupcakes.









