As dificuldades enfrentadas por Felipe Monteiro por causa de uma doença degenerativa que o impede de se locomover, viraram arte. O autor da performance “Kahlo em Mim Eu E(m) Kahlo”, tema da sua tese de mestrado sobre corpos diferenciados na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mostra que é possível fazer arte independentemente da mobilidade do corpo físico. A apresentação acontece nesta quinta-feira (12), às 16h30, no Teatro Linda Mascarenhas.

Felipe tem 24 anos e é portador de amiotrofia espinhal progressiva, uma doença hereditária que enfraquece os ossos, impossibilitando-o de se locomover. Segundo ele, desde bebê sua mãe já percebia as limitações. “Quando eu era pequeno, minha mãe, me dando banho, viu que eu não conseguia bater as perninhas como as crianças da minha idade. Fui a diversos médicos e, aos 4 anos, descobriram que eu tinha uma doença degenerativa”, conta.

Em sua vida colegial, Felipe sempre foi querido pelos colegas de turma, embora conte que sofreu preconceito por parte de professores e diretores da escola onde estudou. “Quando mais novo, sofria muito de pneumonia. Lembro que uma vez, passei um mês internado, e quando minha mãe foi pegar as matérias para que eu estudasse em casa, a diretora disse a ela que não era necessário, pois eu não entraria na universidade por conta das minhas limitações”, disse o ator.

Em 2007, Felipe Monteiro entrou na graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ele conta que cunhou, junto à professora Nara Salles, a expressão “corpos diferenciados”, que passou a ser seu objeto de estudo para o trabalho de conclusão de curso. “Fui bolsista de projetos coordenados pela professora Nara. Sem dúvida, ela foi uma das pessoas que mais apostou em mim. Como bolsista, cheguei a dar aula de expressão corporal na Escola de Cegos Cyro Accioly por mais de um ano”, disse.

A performance

Ainda na universidade, Felipe passou no mestrado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Por causa de suas limitações, ele só viajava para assistir às aulas uma vez por mês. “Durante a semana, assistia às aulas via internet. Fiquei muito feliz quando a universidade e os outros alunos aceitaram me ajudar dessa forma. As viagens para Natal duravam quase 10h, e eu precisava ir acompanhado da minha mãe”, explicou.

Em março, o ator defendeu sua dissertação de mestrado, com a performance “Kahlo em Mim Eu E(m) Kahlo”. A pintora Frida Kahlo serviu como inspiração para Felipe por conta do seu corpo diferenciado, assim como o dele. “Frida Kahlo tinha uma frustração na vida: não podia ser mãe. Durante minha performance, faço referências a ela, borrifando lavanda de bebê e entregando lanternas aos espectadores com as cores que a pintora utilizava em suas obras”, disse.

Felipe no palco entra em sua cadeira de rodas e fala sobre a vida. A cena se completa na interação com o público. “A plateia é coautora da minha performance. Faço-a sair da zona de conforto e participar comigo. Eles tiram minhas vestes e escrevem no meu corpo o que sentem naquele momento”, explicou o performer. “O que acho mais interessante é o medo que eles têm de me segurar e me tocar. Muitos não têm coragem de chegar perto, ficam em estado de choque”, ressaltou.

Felipe foi chamado para apresentar sua performance no Escena Mazatlan, festival internacional de cinema que acontece no México de 7 a 10 de outubro. Suas apresentações contêm cenas de nudez, sendo proibida a entrada de crianças.