O esporte sempre andou emparelhado na vida com Luciana, conhecida entre os amigos como Lua Beserra. A professora universitária e designer guarda em um passado não muito distante vitórias conquistadas em campeonatos de fisiculturismo, uma modalidade de esporte que ainda não possui muito destaque no estado.

Em um cantinho na sala de sua casa, uma prateleira abarrotada de troféus, medalhas, recortes de jornal e fotografias ajudam a contar um pouco da trajetória que ela percorreu dentro do esporte.

Durante alguns anos, Lua foi referência em Alagoas na modalidade. Entre as conquistas estão o campeonato alagoano de fisiculturismo por dois anos seguidos, além da participação em uma etapa nacional. O caminho trilhado ainda inclui troféus de um campeonato de futebol de salão da época da escola. Apesar de ter um caminho repleto de conquistas, as dificuldades sempre apareceram em algum momento.

Hoje, com outra perspectiva das dificuldades e das conquistas obtidas, ela conversou com o Cada Minuto e contou um pouco da sua história como atleta. Confira o bate papo:

Cada Minuto – Como o fisiculturismo entrou na sua vida?

Lua Beserra - Começou para manter a forma. Certa vez entrei na academia e vi o cartaz da primeira copa alagoana de fisiculturismo. Na hora eu olhei pra foto da menina, que depois virou minha amiga, e disse: vou fazer.Comecei a me preparar durante três meses e não foi difícil. Como eu já tinha um biotipo bacana foi só a questão de crescer a musculatura. Eu já havia praticado futebol de salão, futebol de campo, capoeira, que eram esportes que me deixavam com a musculatura fortalecida. Em seguida, disputei a II Copa Alagoana de Fisiculturismo e ganhei. Dali em diante, me apaixonei pelo esporte.

Foram aproximadamente cinco anos. Disputei diversas competições em Alagoas e fora do estado, além de um campeonato brasileiro. Fui por dois anos consecutivos destaque na categoria e recebi homenagem do governo do estado. Foram troféus e participação. Em 2006 eu encerrei a breve carreira. Comecei em 2003 até quase o final de 2007.

CM - Antes do fisiculturismo você disse que praticava outros esportes. Quantas modalidades esportivas você praticou?

LB – Desde criança eu praticava esporte. Fiz voleibol na época do colégio. Depois eu fui morar fora um tempo. Nesse tempo que passei fora, em uma brincadeira com o pessoal da faculdade eu me apaixonei pelo futebol de salão, que pratiquei por quatro anos. Depois durante um tempo eu joguei futebol de campo e em seguida, fui fazer outro esporte que eu também gostava, que era a capoeira. Ainda pratiquei por um curto tempo jiu jitsu, mas decidi parar.

CM – Sua família sempre lhe apoiou na prática dos esportes?

LB – No fisiculturismo não. Sempre fiz atividade física, mas ninguém nunca se importou muito. Existia uma rejeição muito grande da família por conta do futebol, que é visto como um esporte voltado para os homens. Eles também não gostavam que eu praticasse capoeira, que também é um esporte que nem sempre é bem interpretado. E o fisiculturismo tem todo esse estigma de anabolizante, de masculinização, então não tive muito apoio. A única pessoa que me apoiou integralmente foi meu marido.

CM – Seu marido pratica esportes?

LB – Na época que eu praticava fisiculturismo, ele passou uma época me acompanhando na academia, mas ele foi mais brincadeira.

CM – Lua, você chegou a ganhar quantos títulos entre estaduais e brasileiros?

LB – Eu disputei somente um brasileiro porque o campeonato daqui ele era passagem para o nacional. Mas eu tinha dificuldades por que o regulamento da federação que eu era filiada dizia que os competidores seriam divididos pela altura. Mas essa regra não levava em conta se tinham novatos ou veteranos. Foi a minha primeira competição nesse porte e junto comigo tinham oito campeãs mundiais. Era sem sentido. A presença de palco, a habilidade para  fazer as poses eram diferentes e como eu era atleta iniciante, fui prejudicada.

CM – E você tinha patrocínios? Onde treinava?

LB – Eu treinava na academia de um grande amigo que foi meu preparador por muito tempo. Eu não tinha patrocínio e quem custeava tudo era meu marido, inclusive a dieta, que era muito cara. Era frango, suplemento, 24 claras de ovos por dia. Não é brincadeira. Apesar de eu ter sido vista nessa proporção de atleta, de ter recebido homenagens, era muito difícil conseguir patrocínio. Somente quando fui disputar uma competição em Natal, a Secretaria Estadual de Educação e Esporte nos ajudou com uma van.

CM – Quando você competia, já tinha muitos casos de pessoas que buscavam o corpo perfeito com anabolizantes?

LB - Sim. O que acontece, inclusive para a mulher, é que temos uma quantidade de testosterona menor que a dos homens, por mais intenso que seja o treinamento, tem uma hora que o corpo para de responder. Aí é nesse momento que se recorre ao anabolizante. Num campeonato que não tem anti doping você faz o possível para se manter na linha e já vi competidores que antes de entrar no palco eles desrespeitavam as regras.

CM  - Depois que deixou de ser atleta, você ainda continua praticando alguma atividade física?

LB – Eu tenho atividade física até hoje. Tenho uma personal trainer que me acompanha. É um treinamento funcional por conta de um processo inflamatório na musculatura e na coluna. É mais uma questão de saúde mesmo. Nada com o objetivo de voltar a competir, já que acabei perdendo o encanto pelo esporte. Aqui em Alagoas, o esporte amador é muito difícil. Vemos a dificuldade que é para o pessoal que pratica futebol, imagine outras modalidades esportivas. Além de tudo, o fisiculturismo é um esporte que não tem fiscalização quanto ao uso de substâncias e isso me desmotivou bastante. O atleta passa três meses em uma dieta rigorosíssima. No meu caso nunca consegui patrocínio para a dieta, que é cara. Quando você chega a uma competição, você vê que um atleta usou anabolizante, aquilo te desestimula por conta da diferença discrepante de potencial.

No esporte que eu fui referência, não sou lembrada mais. Não adianta muito se esforçar porque você acaba esquecido. O que me magoa mais, é que pessoas que nunca me ajudaram com nada, agora me cobram por eu não estar no esporte. Hoje tenho minhas contas para pagar, mas infelizmente o esporte não dá para me manter. 

Confira o vídeo da entrevista: