Pouca coisa mudou desde o dia 18 de abril. Os cartazes dos filmes exibidos continuam colado nas paredes, as fotografias da última mostra ainda estão expostas no corredor da galeria, o piano de cauda está lá no seu cantinho. A marca do Sesi já foi retirada da entrada e apenas um vigilante está no local para garantir que nada seja removido sem autorização. O vazio maior está dentro das centenas de pessoas que frequentavam o Centro Cultural do Sesi, no bairro da Pajuçara, e que foram pegas de surpresa com o anúncio do fechamento do local.
Tradicional ponto de encontro de produtores e consumidores de cultura alternativa na capital, o espaço anunciou esta semana o encerramento das atividades por falta de verba para custear as reformas e adequações exigidas pelo Corpo de Bombeiros. O local foi vistoriado em abril e interditado por apresentar falhas nos equipamentos para coibir incêndios e na estrutura do prédio.
Os dez funcionários foram comunicados oficialmente do encerramento das atividades na última segunda-feira (24). Marcos Sampaio, o Marcão, gestor cultural e ex-administrador do espaço, contou que assim que houve a interdição, o Sesi iniciou um processo para cumprir as exigências solicitadas. Porém, a equipe do Corpo de Bombeiros que foi fazer o laudo acabou por fazer novas exigências, que demandariam mais tempo. Com isso, mais investimentos deveriam ser feitos, o que acabou culminando com a decisão da direção em fechar em definitivo.

“Segundo a avaliação deles, seria um investimento alto para readequar ao projeto do Corpo de Bombeiros. Entre as exigências estavam aumentar a altura do pé direito, [distância do piso ao teto] em algumas áreas, uma onde as pessoas ficam sentadas e outra perto das portas de acesso. Estamos tentando contato com os Bombeiros para ter acesso ao processo e realizar os serviços”, disse.
O diálogo com o Sesi continuou, no sentido de viabilizar uma alternativa que evitasse o fechamento, mas segundo Marcão, a única saída será recorrer a empresas e outros parceiros para reativar o espaço com outro nome.
“O espaço virou um aglutinador de ideias e também é um patrimônio da cidade. Não podemos deixar a sala se extinguir”, afirmou.
A segunda casa fechou
A informação sobre o fechamento do espaço começou a pipocar nas redes sociais. As postagens seguiam o mesmo tom de tristeza. Artistas, produtores culturais e frequentadores do espaço lamentavam e afirmavam que Maceió tinha perdido o maior ponto de cultura local.
Ler os relatos evidencia que para tantas pessoas, o encerramento das atividades do espaço representa também uma perda pessoal. Para Henrique Oliveira, o Centro Cultural era uma segunda casa.
Frequentador assíduo, ele conta que foi a todos as sessões do corujão, várias peças de teatro, mostras de música e tantos outros eventos que aconteciam lá. Mas além da diversão, o espaço foi seu local de trabalho durante um ano. E foi lá também um dos primeiros lugares onde ele, que é documentarista e presidente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas em Alagoas (ABDC-AL), apresentou um de seus trabalhos, o longa ‘Farpa’, durante a Mostra Sururu de cinema alagoano.
“Ali naquele espaço eu vi e vivi muita coisa. Tive acesso a grandes mestres do cinema brasileiro e considero o único local onde o pessoal tem acesso ao cinema alagoano. Era bonito ver o público nas sessões do Corujão debatendo o filme com diretores. Muitas amizades que tenho atualmente foram feitas lá durante as madrugadas conversando sobre filmes, cultura e música”, conta.
Ele também lembra que teve a oportunidade de conhecer os cineastas Luiz Fernando Carvalho e Walter Coimbra durante dois eventos no local.
“Na edição especial de 10 anos do Cine Sesi, o diretor convidado foi o Luiz Fernando. E coincidentemente o filme dele ‘Lavoura Arcaica’ estava completando 10 anos. Então foi suspensa a programação oficial e o bate papo com ele durou até o amanhecer. Para mim como profissional foi um contato muito importante. Outro momento que não vou esquecer foi quando conheci o diretor Walter Carvalho. Era a Mostra de Cinema Brasileiro e foi exibido o filme dele ‘Lança Raul’. Depois do evento, acabei ficando amigo dele”, relembra.

Ele comenta também que o fechamento deixa a cidade carente de um espaço para mostrar produções locais e dar a oportunidade das pessoas terem acesso a filmes e espetáculos que dificilmente iriam estar em cartaz em alguma sala de cinema comercial ou outro teatro.
“Muitos espetáculos e filmes só vieram para Maceió para passar exclusivamente no Sesi. A cidade já é carente de espaços que abram as portas para produtores de cultura alternativa e agora a situação será complicada. É diferente de fechar uma sala comercial. Dessas temos várias na cidade. Perdemos um espaço de criação de memórias”, afirma.
A relação de Marcão com o espaço não parou na administração. Ela foi além e começou bem antes do Sesi assumir o Centro Cultural. Apaixonado por cinema, ele trabalha no local desde 1990, quando a empresa Art Filmes assumiu o comando do espaço. Foi programador, trabalhou engajado em vários projetos voltados para a cultura e foi uma das pessoas que nos momentos de crise buscou alternativas para não deixar o espaço morrer.
“Quando a Art Filmes deixou a direção, procurei o Milton Pradines, que na época era o diretor de marketing do Sesi. Mostrei a ele o projeto e unimos forças para que a empresa apostasse na abertura do espaço. Quando os equipamentos foram comprados, fui convidado para gerenciar a casa e acabou sendo mais do que um trabalho. Foi um casamento entre um projeto pessoal com a proposta do Sesi em tornar aqui um centro cultural”, destacou.
Do escurinho do cinema para os downloads
Conversando um pouco com quem frequentou o local, não é difícil encontrar relatos de quem fez amigos, arrumou namorado, se apaixonou ainda mais por cinema, teatro ou mantinha uma relação forte com o espaço cultural do Sesi. Teve gente, assim como a estudante de Letras, Eduarda Rocha, que cresceu indo ao local e foi aprimorando ainda mais o gosto pelo cinema fora do eixo comercial.
“Eu comecei a frequentar o Cine Sesi quando ainda estava no ensino médio, em 2006. Comecei a ir lá por me interessar por outro tipo de filmes, gosto muito de cinema europeu e esses filmes não entravam em cartaz nos outros cinemas. Já fui a vários corujões. Era o meu cinema favorito. Agora não há mais nenhuma opção de cinema que atenda ao tipo de filme que eu gosto de ver”, lamenta.
Eduarda diz que o Centro Cultural proporcionava uma troca de experiências, fossem elas nas sessões onde produtores e diretores conversavam com o público, ou nas conversas entre amigos pelos corredores da galeria na Pajuçara.

“O clima lá era amigável. Sempre via rostos conhecidos e meus amigos mais íntimos também frequentavam. Fora que tinha a oportunidade de conversar com diretores, saber um pouco da experiência deles por trás das câmeras e isso era muito legal. Agora que fechou, vai ser o jeito recorrer à internet e se mobilizar pra lutar pela reabertura do espaço”, comentou.
Assim como a maioria dos frequentadores do espaço cultural, Nathália Nascimento possui uma relação que foi fortalecida com o passar dos anos. Natural do Rio de Janeiro, ela frequenta o local desde que mora em Maceió, cerca de sete anos. Neste tempo, além de filmes, peças teatrais e conversas com produtores, a estudante de engenharia ambiental também fez amigos e teve o espaço como pano de fundo para paqueras e namoros.
“Foi um dos primeiros locais que comecei a frequentar quando cheguei para morar em Maceió. Pelo fato de morar perto, tinha dias que eu ia com R$ 10 no bolso e assistia vários filmes. Passava a tarde lá. Fiz amizade com os seguranças, o pessoal que trabalhava na bilheteria e outros tantos que sempre esbarrava vez ou outra durante as sessões de cinema, corujões ou peças de teatro”, relembrou.
Uma coisa em comum nos relatos lamentando o fechamento do espaço é o fato de Maceió ter perdido o único local onde era possível assistir filmes voltados para um cinema que segue uma linha alternativa, assim como os demais eventos que eram realizados no espaço cultural. Nathália e Eduarda são unânimes ao afirmar que com o fechamento, a única alternativa para alguns filmes será fazer download pela internet.
“Ou você vai pra Recife assistir alguma coisa interessante lá, ou agora vai baixar pela internet, só que não é a mesma sensação de estar em uma sala escura com o telão na sua frente vendo a história passar”, disse Eduarda. “Maceió não tem outro cinema que traga filmes do porte que o Cine Sesi costumava trazer”, lamenta Nathália.
Cinema alternativo desde 1980
Lá pelos idos de 1980 o cinema mundial já conhecia a escola americana de cinema, que acabou virando espelho para boa parte dos cineastas que vieram posteriormente. Nessa mesma época, Maceió passava por um momento onde boa parte dos cinemas de bairro entrava em crise e fechavam suas portas. Após décadas de prestígio e boas histórias para contar os cinemas Lux, Rex, Plaza, Ideal e São Luiz começavam a perder espaço para as salas comerciais que chegavam na cidade.
Foi também na década de 80 que foi aberto em uma galeria da Pajuçara um espaço de entretenimento que tinham esse clima mais intimista e tentava levar ao público um conteúdo cultural diferenciado. O espaço é tido por muitos até hoje como ponto de encontro, um local onde amigos se reuniam para debater projetos, assistir espetáculos e filmes. A característica foi preservada dos cinemas de bairro que hoje figuram apenas na memória dos moradores mais antigos da cidade.
De início uma empresa de cinemas de Aracaju administrou o espaço durante nove anos. Depois, a carioca Art Filmes ficou na administração por quase dez anos. Durante este tempo, o espaço mudou o nome para Art Pajuçara, mas após problemas na administração, o espaço passou um tempo fechado até que em 2004 o Sesi assumiu o arrendamento das salas. Inicialmente foram abertas apenas as salas de teatro e somente em 2006 o cinema começou a funcionar, até o fechamento no dia 18 de abril deste ano.
“Nesses sete anos, o Centro Cultural Sesi contribuiu para a formação de uma plateia de jovens que se interessaram por esse tipo de cinema, chamado cinema alternativo. Por outro lado, pessoas que sempre gostaram dessa vertente e que não tinham espaço, encontraram aqui esse abrigo. Existe uma parcela muito grande que é fiel, que criou essa relação. Por não ser um cinema grande, você tem uma relação com o porteiro e com os demais funcionários. Essa proximidade foi muito produtiva. As pessoas tinham prazer em frequentar, mesmo com a concorrência dos shoppings com salas mais modernas”, comenta Marcão.
Por lá passaram companhias de teatro nacionais, mostras de cinema da Petrobras, a de cinema francês Varilux, além de mostras locais, como a Sururu de Cinema. Bandas alagoanas de vários estilos também tiveram espaço, como foi o caso da banda Interrompidos.

Em uma das apresentações, a banda foi convidada para tocar na I Mostra Alagoana de Clipes. O evento levou algumas bandas do cenário alternativo para mostrar seu trabalho ao público da casa ano passado. Lucas Veloso, guitarrista e vocalista da banda, conta que a casa estava cheia e o momento marcou a banda.
“Fiquei impressionado ao ver um espaço tão bacana com aquele cheio de gente interessada em conhecer o trabalho dos artistas locais. Naquele dia todas as bandas eram muito boas e o clima era muito agradável. É uma pena que um espaço assim feche as portas”, afirmou.
Mesmo com o anúncio do encerramento das atividades, frequentadores, ex-funcionários e outros simpatizantes estão se mobilizando para tentar encontrar uma forma de reabrir o centro cultural. Pelas redes sociais, um grupo de pessoas está se mobilizando para ajudar no que for preciso a fim de conseguir a reativação do espaço.
“Não sou só eu que possuo uma relação forte com o Centro Cultural. Todos os frequentadores compartilham do mesmo sentimento. Após 14 anos ali, essa relação só me dá mais forças para lutar pela reabertura. Conseguimos um avanço no campo cultural muito grande nos últimos anos e não podemos retroceder. São filmes alagoanos e artistas que estão tendo destaque. Estamos dialogando com o Sesi para tentar ficar com os equipamentos no regime de comodato. O prédio será devolvido à construtora e nossa expectativa é que o mais breve possível possamos comunicar a reabertura do espaço”, afirma com otimismo Marcão.







