Estive ontem (20) acompanhando o protesto organizado pela meninada. Claramente eram, em sua maioria, jovens da classe média. Alguns, poucos, foram acompanhados pelos pais, mais preocupados com a questão da segurança. Era gente demais, jovem demais. Avalia-se entre 10 e quinze mil participantes. PMs discretamente presentes no solo e o helicóptero sobrevoando a praça do Centenário. Tudo tranquilo, a não ser pela irritante explosão de bombas comercializadas nas festas juninas.
Encontrei um experiente ativista político. Com mais de 50 anos. Sempre militou em movimentos políticos desde quando descobriu o que é consciência política e social. O bom e agradável Juca Carvalho. Sempre atento, de forma questionadora avaliava pra onde iria o movimento e o que conseguiria conquistar. Uma das suas preocupações era a questão da legalidade. E com razão. Os políticos que nos representam e que não trabalham em prol do povo foram eleitos de forma livre e democrática.
Bom, deixando essa questão de lado, quero contar o que vi e senti. Havia um clima de emoção e alegria. Pela idade da maioria dos milhares de presentes, lembrei-me da primeira eleição direta para Presidente da República em 1989 depois dos governos militares. Ano marcante na vida de muita gente. Botafogo campeão carioca depois de 21 anos. Pense na festa! Eleição vai pro segundo turno. Disputa entre Lula e Collor. Muita emoção e participação popular. O Brasil dividido. A gente reiniciando e vivenciando momentos de democracia. Sonhando em mudar o mundo, em fazer a diferença.
Pois bem, foi o que senti na meninada. Mas havia também beleza, paquera, alegria e criatividade. Vi uma menina, morena, alta, bonita, cerca de 16 anos, com uma blusa bem acima do umbigo e uma calça jeans muito abaixo do umbigo. Nesse espaço descoberto e provocativo estava escrito: Ônibus a 2,30; maconha a 4,50; melhor viajar em casa.
Vi também um garoto carregando dois cigarros de maconha. Depois senti o cheiro da erva queimando. Vi garotos e garotas, na concentração, tomando cerveja. Muita gente bonita. Uns mais ativos outros menos. Se eles sabem o querem? Talvez não. Mas não importa.
O certo é que estão descobrindo que têm força suficiente para transformar as suas certezas em realizações concretas, mas, desde que atuem de forma coletiva. Pena que os partidos políticos não estão sendo aceitos no meio da garotada. Na democracia e no mundo real ainda é a melhor forma de transformar o satus quo. Afinal de contas, o movimento não propõe nenhuma revolução.
Pra onde vamos, não sei nem posso afirmar. Mas sei que há uma insatisfação com as prioridades definidas pela classe política dominante. Algo está em transformação. Talvez até o enfraquecimento do partido mais poderoso dos últimos 11 anos, o PT.
O Brasil avançou e melhorou muito desde a redemocratização.
Mas, quase tudo muda, assim como dia sempre encontra à noite.
Sem saber onde nem quando vamos parar, estamos indo para algum lugar, empurrados pela garotada que está fazendo tremer os poderosos do país.