Para muitos fiéis, o real pecado de Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, agora excomungado pela Igreja Católica, foi ter dito em voz alta o que muitos pensam, mas não ousam falar. A convite do Terra, padre Beto voltou à choperia em Bauru (SP) onde um de seus vídeos mais polêmicos foi gravado para um bate-papo.

No vídeo divulgado em seu site, o religioso opinava sobre temas como homossexualidade e infidelidade, e contestava a postura conservadora da Igreja. Dono de uma personalidade marcante, padre Beto já não esconde o que viveu dentro da instituição ao longo de 14 anos. Ele entende que pregava normas morais ultrapassadas, que, apesar do ocorrido, continua acreditando veementemente em Jesus Cristos. Também afirma que, embora a Igreja condene a homossexualidade, ela está impregnada entre os religiosos.

Durante quase três horas de entrevista, entre um chopp e outro, padre Beto era assediado por quem passava em frente à choperia. O celular, com pedidos de entrevistas, não parava de tocar. Ele revela que continuará morando em Bauru e atuando como professor universitário, e fala sobre pretensões políticas. Conta que tinha casamentos agendados até 2015, e seu afastamento gerou desespero em muitas noivas.

 

Nascido em uma família tradicional católica da cidade, Beto é formado em Radialismo, Direito, História e Teologia, e tem doutorado em Ética. O ex-sacerdote se dedica agora apenas às suas funções de radialista e cronista, e diz não receber salário da Igreja.

 

Excomunhão
Após um pedido público da diocese local para que ele se retratasse e retirasse da internet todos os vídeos que incomodavam os católicos mais conservadores, padre Beto anunciou o afastamento de suas funções. Ao comunicar oficialmente o bispo dom frei Caetano Ferrari, foi surpreendido e condenado à pena máxima da Igreja Católica: a excomunhão. O bispo alega que o padre traiu o compromisso com a Igreja, à qual jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal.

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Padre excomungado ao defender homossexuais

 

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SP: padre que apoia gays anuncia afastamento da Igreja

Padre Beto não pode mais realizar celebrações como batizados e casamentos em nome da Igreja, e fica impedido de receber qualquer tipo de sacramento. O caso agora tramita no Vaticano e virá da Santa Sé a decisão de acatar e confirmar a excomunhão aplicada pelo bispo local ou de revogá-la.

 

Confira como foi o bate-papo com padre Beto:

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Padre declara apoio a gays e causa polmica na Igreja

 

Terra - O senhor se lembra do exato momento em que decidiu ser padre?
Beto -
 Não me lembro. Foi um processo, vários fatores foram me ajudando. Primeiro a morte de uma pessoa muito querida na família que me fez refletir “poxa, um dia vou morrer”. E aí o que eu quero? Pode ser a qualquer momento. Qual o sentido da minha passagem neste mundo? Foi a morte da minha avó materna. Era uma pessoa que era cega, paralítica. Ela vivia numa cama, mas era uma pessoa de uma sabedoria incrível. E qualquer pessoa da família, da grande família, que estivesse com problemas, até vizinhos mesmo que quisessem algum aconselhamento, procuravam a avó Dolores. Ela tinha uma paciência muito grande, um bom senso incrível. A reflexão sobre a morte... Depois, no meu curso de História, fui muito influenciado do Marx, Karl Marx. Apesar da crítica à religião de Marx, que é uma crítica interessante, boa, não pode ser rejeitada para a própria religião. Mas Marx fala muito sobre o sujeito da história, o ser sujeito da história. Contribuir para a transformação e isso também foi me questionando muito. E a ligação com Deus. Sempre me tocou muito fundo. Com os retiros espirituais, eu me senti cada vez mais próximo dessa vocação, chamado para essa vocação. E aí, com 27 anos, eu entrei para o seminário.

 

Onde fica esse seminário?
Em Marília, na Faculdade João Paulo Segundo. Mas eu não cheguei a ir para lá, porque eu já tinha dois cursos superiores. A princípio gostaria de ter ser jesuíta. Mas quando eu estava propenso a ir para os jesuítas, o bispo de Bauru [dom Cândido Padim] estava para se tornar emérito, iria se aposentar. E estava chegando um bispo novo, que era jesuíta, dom Aloísio Leal Pena. Ele soube sobre a minha pessoa, como eu era atuante na Igreja, e ele me chamou pra conversar. Na conversa ele me propôs ser padre diocesano. E essa conversa me convenceu. Ele até brincou comigo dizendo: “Olha, se você decidir ser padre diocesano, como bispo, vou ficar muito feliz, como jesuíta, vou ficar frustrado. Se você decidir ser jesuíta, como jesuíta, vou ficar feliz e, como bispo, frustrado”. Aí, então, decidi ser diocesano, mas com uma condição: estudar em São Paulo ou em Belo Horizonte. Mas existe uma ética entre os bispos daqui, de mandar os seminaristas para Marília. Então, dom Aloísio pediu um tempo para pensar. Daí, ele me ofereceu uma bolsa de estudos para Roma. E eu acabei aceitando. Fiquei em Bauru, mesmo, para fazer adaptação de matérias, só, que eu precisaria para Filosofia, e estava propenso a ir para Roma, até comecei um curso de italiano. Nesse meio tempo, ele se encontrou, em Cochabamba, na Bolívia, no encontro latino-americano de jovens, com o bispo auxiliar de Munique, na Alemanha, e pediu para ele uma bolsa de estudos. E um mês depois veio a resposta positiva, e eu achei mais interessante a Alemanha, porque eu estudaria em uma universidade estadual, e não numa universidade da Igreja, é uma língua totalmente diferente e seria uma experiência totalmente diferente. Aí, eu estava embarcando em 1991 para um mundo totalmente desconhecido. Fui com a cara e a coragem, porque não falava nada de alemão.

 

O senhor conheceu o papa emérito Bento XVI lá?
Ele não era o Papa ainda. O Ratzinger foi cardeal de Munique, depois ele foi transferido para Roma por João Paulo II. Eu estava na diocese dele. Não só conheci ele, mas eu morei no seminário que ele morou, que era o Georgiano. É um seminário muito tradicional na Alemanha. Um dia, ele foi fazer uma visita e celebrou uma missa na Catedral de Munique. Eles pediram dois seminaristas para serem acólitos [conhecidos como coroinhas], e é claro que eu me ofereci. E, aí, nós nos conhecemos na sacristia. Ele é uma pessoa muito simples, muito humilde, uma pessoa que não tinha formalidade nenhuma. Tive uma boa impressão dele apesar de todo o conservadorismo.

 

Sua família também tem sido assediada pela imprensa?
Não, porque minha família é muito pequena. Meu pai já faleceu, minha mãe estava internada, porque quebrou o colo do fêmur, então ela ficou isolada de tudo isso. Meu irmão mora em Maceió, e, apesar de ter saído na imprensa de lá, ele não é conhecido lá como “irmão do padre Beto”. E meu único sobrinho mora na Itália, em Florença.

 

Em algum momento o senhor pensou em desistir, não se formar padre?
Eu tive várias oportunidades de não ser padre. Quando eu decidi ser padre, o dono do Liceu Noroeste me ofereceu a coordenação-geral, que era uma boa oportunidade. Eu estava terminando Direito. Com o curso de Direito, eu poderia ter prestado um concurso para juiz, promotor. Quando dom Aloísio me enviou para a Alemanha, ele estava enviando um seminarista. Ele foi muito criticado por isso. Na minha ordenação sacerdotal, ele disse isso publicamente. “Quando eu enviei o Beto para a Alemanha, eu fui muito criticado. Muitos disseram assim: ‘esse cara não vai ficar’." Foi o que aconteceu com um amigo indiano. Ele foi pra lá, se formou em Teologia e acabou se casando. Então, eu tive várias oportunidades de não ser padre, mas é minha vocação.

 

O bispo Ferrari afirmou à imprensa que tentou, por diversas vezes, conversar com o senhor por conta de algumas atitudes que não agradavam. Essas conversas aconteceram?
Não. Existiram, sim, mas não foram várias vezes. A primeira vez que nós conversamos, eu que tomei a iniciativa. Por quê? Porque eu fiquei sabendo que alguém ou um grupo de padres tinha ido a Franca [SP, diocese onde o bispo trabalhava] descrever a diocese [de Bauru] e tinha feito “a minha caveira” pra ele. Então ele já tinha chegado à diocese de Bauru com uma má impressão minha. Ele já tinha sido nomeado. Depois da posse dele, eu fiquei esperando ele me chamar. E ele não me chamou. Resolvi marcar uma conversa com ele e me apresentar, e fui. Ele foi receptivo. Depois disso, nós tivemos, nesses quatro anos, talvez umas duas conversas, no máximo.

 

O que a diocese dá a entender é que a sua atenção foi chamada algumas vezes.
De jeito nenhum. Isso não é verdade. Fazia muito tempo que eu não via dom Caetano.

 

Em qual ocasião ele chamou a sua atenção?
A última vez que ele chamou a minha atenção foi sobre uma discussão que eu tive no Facebook sobre a Campanha da Fraternidade, com o coordenador do Conselho de Leigos. Que foi uma discussão que surgiu de uma coisa muito infeliz. A Campanha da Fraternidade era sobre saúde e vida. Quando terminou a campanha, uma pessoa que trabalha na área da saúde postou no meu perfil: “eu gostaria de saber o que a Campanha da Fraternidade trouxe de concreto para a saúde”. Criticando a campanha. Eu achei a crítica conveniente, aí, eu curti, e pensei: "ela veio pra quê? Nós continuamos com um sistema de saúde ruim, faltando postos..." No dia seguinte, eu encontro uma carta enorme do presidente do Conselho dos Leigos me criticando por ter postado aquilo. Quer dizer, ele não entendeu que o post não era meu. Aí, eu vesti a camisa, mesmo o post não sendo meu. E, aí, ele [o bispo] me chamou para conversar sobre isso. Até disse para ele ficar tranquilo, que não teria mais discussões como essa, que ele poderia me esquecer, pois eu iria ficar “no meu canto”. Desde então não conversamos mais. Isso foi em agosto do ano passado.

 

Quando a polêmica ganhou corpo? Foi a partir do vídeo gravado nesta choperia?
Essa é a grande questão. Porque esse vídeo que eu gravei aqui foi feito em janeiro deste ano. Esse vídeo não foi colocado num grande portal, ele foi colocado num portal pequeno, modesto. Depois disso, eu coloquei vários outros vídeos no ar. Alguém pinçou esse vídeo e passou para pessoas conservadoras, de outras dioceses, movimentos conservadores. Alguém fez isso. E daí virou uma “bola de neve”. Alguém fez isso de má fé.

 

O senhor suspeita de alguém?
Eu tenho. Não é uma pessoa próxima a mim, graças a Deus. É alguém do clero, que pode ter feito isso intencionalmente.

 

O que esse vídeo tem que causou toda essa celeuma?
Nada que não seja óbvio e mesmo que não seja para muitas pessoas, são reflexões somente. O que o bispo me chamou, não só a questão da homossexualidade, mas do adultério. Porque eu falo claramente no vídeo que uma pessoa que for casada e tiver uma relação extraconjugal com outra pessoa, mas o seu cônjuge souber e tiver o consentimento, isso não é uma traição, isso não é infidelidade. Eu estou citando, na verdade, a Regina Navarro Lins. Se você ler o livroA cama na varanda, ela tem uma frase fantástica, eu acho. Ela diz assim, "um casal que vai a uma casa de swing e volta para casa junto é um casal extremamente fiel". A maior prova de fidelidade de um casal é essa. O casal sabe distinguir muito bem prazer sexual e compromisso, cumplicidade, companheirismo. E não é só na área sexual. Um casal pode trair o outro de outras formas. Por exemplo, se eu fosse casado e tivesse um dinheiro no banco junto com a minha esposa e emprestasse boa parte do nosso dinheiro para uma pessoa sem que ela consinta, eu estou sendo infiel com a minha esposa.

 

O senhor diz que não é infidelidade, mas é pecado na visão da Igreja? 
Claro. Por isso eu coloco no vídeo muito claro, que a postura da Igreja é essa. Mas nós temos que ver que “será que é pecado mesmo?” Será que é pecado uma pessoa ter uma relação sexual? O que é uma relação sexual? Uma relação sexual é uma necessidade biológica. Setenta e dois por cento dos casos de câncer de próstata é a inatividade sexual. É uma questão de saúde. O sexo é extremamente valorizado, mas não deveria ser. Ele é uma atividade biológica que todo mundo tem e que poderia ser vivenciada sem traumas, sem drama, sem trama, sem estratégia, sem mitificação. Nós mitificamos muito a genitália, e aí vem a noção de pecado. Isso veio do estoicismo. São Paulo tem influência histórica, e para o estoicismo a razão humana é o que nos faz ser gente, ser humano. O resto tem que ser disciplinado, domesticado e até eliminado. Por isso que Paulo toca nessas questões. O Cristo não fala nada sobre sexo, absolutamente nada, não toca nessa questão.

 

A homossexualidade está muito explícita hoje. O senhor acredita que essa questão, que foi tocada no vídeo, pesou mais?
Acho que sim. Um dia nós tivemos uma segunda conversa, quando ele [o bispo] falou sobre a questão dos leigos, o bispo me disse assim: “união homossexual nem pensar”. Respondi que ele poderia pensar assim, mas que estaria fechando os olhos para uma realidade, a Igreja vai ter que abrir para essa realidade uma hora ou outra. “Não, isso é inaceitável”, ele respondeu. Eles queriam que eu tirasse os vídeos da internet, principalmente o que tratava da sexualidade, e eu tratei da homossexualidade. A Igreja continua com normas morais da antiguidade. Isso é ir contra séculos da humanidade e ir contra o conhecimento humano.

 

A homossexualidade é uma realidade entre os padres? Existem padres homossexuais?
Claro que tem. Tenho muitos colegas padres homossexuais, e não são poucos, não. Não se fala abertamente. A gente acaba sabendo de histórias, de relações. E tem, é claro, o homossexual que é afeminado. Existe o homossexual não-afeminado e os que são afeminados, com traços mais femininos. É claro que tem heterossexuais que tem um jeito mais feminino, que foram criados assim. Mas é inegável que tem padres homossexuais que são afeminados.

 

Os bispos não enxergam isso ou não querem enxergar?
Não querem enxergar. Claro que eles sabem.

 

O senhor se sente um herege?
De jeito nenhum. Eu me sinto em sintonia com Deus de uma forma profunda.

 

O senhor continua acreditando em Deus?
Nossa! Totalmente.

 

O senhor tem algum contato com os movimentos LGBT?
Não tenho nenhum contato com eles. E tenho até algumas restrições. Por exemplo, no início, a parada da diversidade foi legítima. Hoje, ela virou um show e até denigre o homossexual. Nunca estive numa parada da diversidade, mas me disseram que o pessoal chega quase a transar em meio às pessoas. Então, isso denigre o homossexual. É como eu ver um casal heterossexual, aqui numa outra mesa, se amassando. Não é por aí. Eu não sou moralista, mas é uma coisa que incomoda. Vai para um motel e tenha relações amorosas à vontade. O Caetano [Veloso] disse uma coisa muito interessante, que ele admira muito o Ney Matogrosso, porque ele é uma pessoa que não deixa que as pessoas entrem na sua intimidade. Isso é verdade.

 

O que o senhor acha sobre as pessoas terem necessidade de saber sobre a sexualidade do outro?
Isso é problema de cada um, ninguém precisa saber. Eu aprendi isso na Alemanha. Aquele é um país muito interessante. Quando a Alemanha era nazista, a individualidade foi eliminada. O Estado nazista estava presente em todos os lugares. E o alemão, como indivíduo, ficou anulado. Hoje, nós temos uma Alemanha onde a individualidade é muito respeitada. Tanto é que lá você pode fazer nudismo tranquilamente. Existe um parque em Munique, tal qual o Central Park de Nova York, e lá existe a prática do nudismo. E é no centro da cidade. Eu também vou, tiro a roupa e fico lá lendo o meu livro. Lá eu posso fazer isso por quê? Porque passam pessoas que não estão nem aí com o meu corpo. Então não existe uma cultura erótica, entendeu? A pessoa está fazendo nudismo não porque ela quer mostrar o corpo, mas porque quer tomar sol.