Há alguns meses li o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, de Pondé, e fiquei horrorizada com várias passagens totalitaristas, superficiais e de intransigência pura relatadas por Pondé para defender sua opinião, que não pode ser contraditada, sob pena de o oponente ser considerado desprezivelmente politicamente correto.
Pondé, a meu ver, está errado em vários momentos – aliás, está com sua verdade –, principalmente nos exageros e generalizações próprias dos que pouco querem aprofundar-se sobre temas que têm muito mais nuanças do que visões rasteiras podem alcançar, o que facilita muito o convencimento de quem se satisfaz com análises rasas.
Mas o que é importante do que Pondé escreveu é que a mitificação em torno do politicamente correto emburreceu uma parcela significativa da sociedade. A ditadura do politicamente correto que vivemos hoje bem poderia ser a “ditadura do proselitismo”, pois é exatamente isso o que nos é imposto diariamente por militantes cheios de suas próprias verdades e incapazes de manter o debate no nível das ideias, sendo recorrente a utilização da baixa estratégia de desacreditar o crítico.
Assim, caro leitor, sabe quem é você? Você é “as ideias” que exprime. E sabe quem é você se não exprime suas ideias? Um alienado, cúmplice dos piores seres preconceituosos da sociedade brasileira. Agora imagine só quem é você se não defender as ideias consideradas politicamente corretas?
Pois bem, caros leitores. Muito tem me preocupado a produção legiferante de nosso Congresso, o mesmo Congresso que é composto pelos políticos que os brasileiros adoram “esculhambar” e, diante dessa minha preocupação, expressar opiniões a respeito não é de se estranhar, mas não posso exigir que todos tenham a mesma opinião ou, sequer, que tenham alguma opinião.
“O meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”, teria dito um Albert Einstein que merece ser venerado, mas ele está coberto de razão. Homens, ideias, posições, ideologias e fé não devem ser venerados, mitificados. Há muito que o maniqueísmo próprio da Idade Média já não reflete o emaranhado complexo comportamental que envolve os interesses particulares e coletivos numa sociedade.
Características nobres como idoneidade, bom caráter, honestidade, solidariedade, bondade e fidelidade já não ocupam o mesmo espaço que as opiniões politicamente corretas. Você não poder descriminar os negros é importante, mas é porque não podemos descriminar NINGUÉM por razão alguma, não só negros, gays, religiosos ou mulheres.
As pessoas andam tão apressadas e atarefadas que já não querem mais cansar raciocinando, preferem reverberar ideias massificadas e aceitas pelos “pobrezinhos” militantes. As minorias devem ser respeitadas como todos, não consigo entender como pode haver pessoas que defendam tanto os direitos das minorias – minorias em representação política – e defendam, por exemplo, que menores sejam julgados como maiores.
Temos uma das Constituições Federais mais avançadas do mundo. Avançada demais para os padrões brasileiros, mas que não pode ser reformada como tem sido, sem discussões mais profundas e abertas. Ela é garantista – garante os direitos individuais frente aos possíveis abusos estatais – e isso é importantíssimo, principalmente em tempos em que a emissão de uma opinião que não seja da maioria que se julga certa e dona verdade pode acabar levando-o a ser considerado criminoso.
Todos nós precisamos entender que não podemos e não devemos comparar o Brasil e os brasileiros com nenhum outro país, as condições são diferentes, há diferenças em todas as dimensões. Não podemos querer leis de primeiro mundo nem país com problemas históricos que nos amarram a estruturas de quinta categoria. A reforma não deve ser da Constituição, mas da educação, das prioridades de investimento.
Aqui mesmo, neste espaço, há pouco tempo, escrevi sobre a Lei Seca, e quem tiver a curiosidade de ler os comentários verá bem o quão democrático é o espaço, mas não o comportamento de alguns leitores. E isso não é “culpa” desses leitores, mas quando a pessoa crê, ou é levada a crer, que está correta não admite opinião diversa, e é aí onde é dado o primeiro passo para uma ditadura.
As liberdades individuais, em especial as de expressão e de produção de provas contra si mesmo, são as primeiras vítimas de regimes ditatoriais, e por mais que eu prefira uma posição mais positiva e otimista sobre o futuro, o que se tem visto no Brasil é preocupante, muito preocupante.
“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. (Churchill)