A família de Isaque Boschini, que morreu emBrasília após ser espancado por reclamar do uso de drogas na porta de casa na última semana, decidiu doar as córneas dele. A cirurgia para extração dos órgãos ocorreu pouco depois que a morte dele foi anunciada no Hospital de Base, na última quarta-feira (10).
"Quando os médicos falaram que ele tinha falecido, meu tio quis doar os órgãos, mas tudo que conseguiram salvar foram as córneas. Todos os órgãos estavam destruídos", explica a jornalista Márcia Néri, prima da vítima.
Na manhã deste domingo (14), familiares e amigos do homem fizeram uma passeata para pedir paz e justiça. A concentração aconteceu em frente ao prédio, na QE 40 do Guará. A caminhada durou cerca de uma hora e meia.
"Ainda estamos chocados, procurando entender o que leva um ser humano a agir com tanta brutalidade e estupidez. A pessoa que o matou não precisou de um motivo para fazer o que fez. Esperamos conseguir superar a dor da perda, mas sabemos que será impossível esquecer o que fizeram com o Isaque porque ele foi vítima de uma violência que simplesmente não se explica", disse Márcia.
Durante o percurso, de um quilômetro, o grupo passou pela avenida que controla o Guará com faixas e cartazes. Todos os participantes usaram branco. No final, os familiares e amigos deram as mãos e fizeram uma oração.
Também primo da vítima, Fabiano Boschini disse ao G1 que Isaque chegou a ir à imobiliária no dia anterior ao crime para entregar as chaves do apartamento. Ele morava no prédio com a filha e a mulher há seis meses, mas estava cansado do tráfico de drogas na região.
“O Isaque era pessoa super tranquila, trabalhadora. Para a família, foi um baque mesmo. A mulher e a filha estão muito arrasadas. Ele era muito na dele. Quem o conhecia sabia que ele era uma pessoa muito família, fazia tudo pela filha”, disse o primo.
O corpo da vítima foi enterrado na tarde de quarta no Cemitério Campo da Esperança. A Polícia Civil continua procurando o terceiro suspeito de agredir o homem. Os outros dois, um ex-lutador e professor de muay thai e um jovem de 19 anos, foram reconhecidos por uma testemunha na delegacia. Eles ficaram em silêncio durante o depoimento.
Responsável pelas investigações, o delegado Jeferson Lisboa afirmou que um dos suspeitos tentou atropelar a vítima antes de espancá-la. Eles serão indiciados por homicídio qualificado por motivo fútil e podem ficar até 30 anos presos. De acordo com odelegado, a tentativa de atropelamento foi feita pelo jovem.
Lisboa disse ainda que o ex-lutador tem três passagens pela polícia – por ameaça, desacato e porte de arma branca. O jovem que também foi preso tinha uma passagem de quando ainda era menor de idade, por porte de arma de fogo.
A vítima chegou a ser socorrida, mas morreu no Hospital de Base. Segundo uma vizinha do rapaz, que não quis se identificar, o espancamento durou cerca de cinco minutos. Ela disse ter visto três homens agredindo o rapaz.
Também segundo a vizinha, a mulher da vítima viu o marido sendo espancado. “Ouvi a gritaria e fui para a sacada. A mulher dele estava gritando pela janela para não machucarem ele”, afirmou.
Outra testemunha ouvida pelo G1disse que conhecia o lutador. “Sou praticante de artes marciais, conheço ele [o suspeito] desse meio”, disse um rapaz que não quis se identificar. “Tirou uma vida de um cara que não sabia lutar, de um cara pequeno. Ele bateu até a morte.”
O suspeito caminhava por uma rua a algumas quadras do local do crime quando foi abordado pela polícia. Ele e outro homem foram reconhecidos por uma testemunha na delegacia. O segundo estava em um carro, que pode ter sido furtado há três meses.









