“Minha Filha, não vá mais pra lá não que é arriscado você cair ladeira abaixo”. Foi esta a recomendação do morador Severino Alves da Silva à reportagem do CadaMinuto ao se referir às casas localizadas nas regiões mais críticas da encosta onde vive, localizada no bairro do Cambona. A preocupação de Severino, que vive no local há 22 anos, é comum a muitos moradores da região. A fragilidade e a proximidade das edificações somadas aos efeitos da chuva preocupam os moradores que têm as áreas de risco como o único local para moradia.

Percorrendo as encostas é possível perceber o crescimento de imóveis na região. Com algumas áreas calçadas, fixam-se casas, pequenos estabelecimentos comerciais e escolares. Para muitos moradores a área é segura. Segundo eles, o medo existe apenas aos que vivem nas barreiras, dizem, se referindo às regiões em que não há calçamento, onde as casas estão instaladas no barro e próximas à vegetação.

Lúcia Maria da Conceição mora há seis anos em uma casa alugada por R$ 150, nas encostas do bairro do Cambona. No local vivem os netos Lara Beatriz e José Taiwan, além do filho José Alípio.

“Teve um tempo que caiu uma barreira aqui em frente a minha casa. Nesse tempo eu não dormi, aliás, quando começa a chover eu não durmo. Morro de medo que esse muro daqui caia e derrube essas casas. Tenho medo de morrer. Moro aqui porque é o jeito”, disse Lúcia.

A moradora colocou ainda que quando ocorrem acidentes em regiões próximas, o medo aumenta ainda mais. “Teve um ano que choveu muito, a água ficou empoçada e invadiu a casa da vizinha da minha mãe. Por causa disso, o muro caiu e a vizinha foi soterrada. Ela só sobreviveu porque meu irmão ajudou.”, contou ela. Além do risco de acidentes, Lúcia diz ter medo da violência.

“Aqui é local de turista”

Nas regiões de encosta no bairro do Mutange, o CadaMinuto conversou com Maria Aparecida que mora no local há 20 anos com o esposo Francisco Santana.  Para Maria, o lugar que mora é para turista. “Olhe a vista que esse lugar dá para a lagoa! É lindo! Os turistas não vêm aqui porque não conhecem. Aqui não tem lixo nem água de esgoto. Como é ladeirado, quando chove, a água leva. É bom morar aqui, graças a Deus.”, afirmou.

Quando perguntada sobre os riscos de morar numa encosta, Maria foi enfática ao dizer que não tem medo. “Essa barreira está aqui há muito tempo. Esse medo de morrer debaixo de barreira e afogada eu não tenho”, afirmou.

A mesma visão é compartilhada por Renata Soares, que vive com esposo e filha. “Aqui é seguro. O perigo que a gente passa é só da violência”, garantiu.

Violência

As chuvas não são o maior medo dos moradores da região de encosta da Cambona, mas sim o aumento da criminalidade. A dificuldade de acesso às casas e a falta de iluminação são alguns dos fatores que favorecem o aumento dos índices de criminalidade nas regiões de encostas.

“Minha filha, a chuva forte vem mais numa época certa, já a violência aqui é sempre. De noite dá até medo. Está vendo esse corredor aqui? (diz, apontando pra o local) ele fica cheio de gente fumando e usando drogas. De vez em quando matam um. Faz medo.”, disse Lúcia Maria.

Severino vive com a esposa na Cambona há 22 anos. Para o casal, o imóvel onde reside está seguro das chuvas. “Não, a gente não tem medo da chuva não, nosso medo é da violência que é grande. A violência está em todo canto, mas aqui, a segurança que temos é só de Deus”, diz ele , explicando que sua casa, diferente das outras, está localizada em um local seguro, pois está em uma área ‘calçada’. Há poucos metros de distância da casa de Severino, uma barreira despencou em anos anteriores.

Defesa Civil

Durante o período chuvoso a Coordenadoria municipal de Defesa Civil (Comdec) está intensificando o monitoramento das áreas de risco de Maceió. O órgão conta com informações repassadas pela Secretaria estadual de Meio ambiente e recursos hídricos (Semarh), que dispõe da Sala de situação, onde é feito o acompanhamento da previsão do tempo.

Dinário Lemos, coordenador da Comdec, explica que a sala de monitoramento permite que as informações sejam recebidas em tempo real. “A sala de monitoramento vai nos ajudar a tomar medidas para atender as famílias que estão em situação de risco. Aqui na Comdec, temos o Centro de gerenciamento de emergência, que coordena as nossas ações”, disse.

Lemos explica ainda que 37 colaboradores voluntários dos Núcleos comunitários de Defesa Civil (Nudecs) têm a função repassar à Comdec as informações sobre a situação nas áreas de risco. O Centro de gerenciamento de emergência faz parte do Conselho municipal de Defesa Civil. O objetivo do Conselho é definir ações e agir junto aos moradores das áreas de risco em caso de chuvas intensas.