Atualizada às 00h15

O julgamento do assassinato do professor Paulo Bandeira, ocorrido em 2003 no município de Satuba, superou as expectativas do Juiz John Silas da Silva, que presidiu o júri, e chegou ao seu quarto dia.  A previsão era que a sentença fosse lida no terceiro dia de julgamento, composto por quatro réus, 12 testemunhas de defesa e uma de acusação, que não compareceu ao júri. 

Por voltas das 22h, o John Silas deu início à leitura da sentença que condenou o réu Adalberon de Moraes a 34 anos e 4 meses de prisão em regime fechado. Os militares Geraldo Augusto e Ananias de Lima foram condenados a 28 anos e 8 meses,  e 31 anos, respectivamente. Eles cumprirão a pena em liberdade por já terem ficando cerca de oito anos presos no Presídio Militar, durante a fase de investigação. Já o ex-motorista da Prefeitura de Satuba, Marcelo José dos Santos foi absolvido.

Família da vítima

No final do julgamento, a viúva do professor Paulo Bandeira, Cilene Bandeira, afirmou que a pena aplicada ao ex-prefeito de Satuba foi justa e que “a Justiça demorou, mas foi feita nesta noite aqui”.  Rayssa Bandeira, filha da vítima, lamentou pela pena aplicada. “Não é justo ficar dez anos sem o pai e quando sair à sentença somente um ficar preso e outros em liberdade”, disse Rayssa.

Indignado

Ao ouvir a condenação de 34 anos de prisão em regime fechado, o ex-prefeito de Satuba, Adalberon de Morais, disse indignado que foi condenado devido o sensacionalismo da imprensa. “Não culpo o senhor juiz, nem o júri pela minha condenação, mas sim a imprensa”, afirmou.

O julgamento

Desde segunda-feira (19), testemunhas, réus, advogados de defesa e a promotoria revelaram fatos marcantes sobre o caso.  A primeira testemunha ouvida pelo juiz John Silas foi a esposa do professor, Cilene Bandeira. Mostrando bastante revolta, a viúva não titubeou em apontar para o ex-prefeito como mandante do assassinato de Paulo Bandeira. “Não tenho dúvidas que o mandante de bárbaro assassinato de meu marido foi esse tal Adalberon de Moraes”. 

Ainda durante o depoimento, a viúva relatou que todas as noites o professor chegava por volta da meia noite em casa. “Na noite do crime eu dormi e quando acordei por volta das 5 horas e vi que ele não estava em casa fui com meu cunhado a Satuba. Desde então começou o desespero. Quando estive na escola achei estranho quando até o porteiro se referia a meu esposo como alguém que trabalhou na escola, se referindo sempre no passado. Parecia que toda a cidade sabia do acontecido”, afirmou Cilene.  


O irmão da vítima, João Bosco Bandeira, foi a segunda testemunha a ser ouvida.  Em sua fala, por diversas vezes citou o nome da ex-diretora da Escola Josefa da Silva Costa, onde o professor Paulo Bandeira lecionava na época do crime. Ao descobrir o desaparecimento do irmão, João Bosco chegou a ir à escola, mas foi informado pela diretora que Paulo Bandeira não havia trabalhado no dia anterior.

No entanto, o fato que mais chamou atenção foi quando a família do professor se dirigiu à delegacia da cidade para prestar queixa do desaparecimento. Para surpresa de todos, a diretora Nancy Pimentel também apareceu no local com a ‘desculpa’ de querer prestar queixa sobre o roubo de um aparelho eletrônico. “Naquela hora eu tive a certeza de que ela estava ali para saber sobre o que a gente estava falando do desaparecimento do meu irmão”.

No depoimento, Bosco ainda afirmou que a garrafa de álcool encontrada próximo ao corpo da vítima era do mesmo lote comprado pela prefeitura. “A Polícia comprovou pelo código de barras que a garrafa foi comprada pela prefeitura e que tinha sido distribuída para a escola Josefa da Silva Costa”, completou.

O segundo dia foi marcado pelos depoimentos de Nancy Lopes Pimentel e do ex-vice-prefeito e ex-secretário de educação da cidade de Satuba, José Zezito Costa. Nancy foi a testemunha mais aguardada durante o julgamento. Ela confirmou que antes do assassinato do professor, o ex-prefeito de Satuba, Adalberon de Morais, pediu que o ex-chefe de gabinete, Marcelo José dos Santos, fosse à escola buscar os horários de trabalho do docente, que estaria sendo um ‘problema’ na vida do gestor.

 “Ele disse que quem mandou pegar foi o prefeito Adalberon. Pediu o novo horário do professor, sem dizer a finalidade”, colocou. Ela negou ter conhecimento de que Marcelo andasse armado e confirmou que ele trabalhava diretamente com o ex-prefeito. A educadora também confirmou que Paulo Bandeira repudiava a maneira com que o gestor administrava o município e que chegou a fincar cartazes na escola onde lecionava mostrando aos colegas de profissão os supostos desvios de Adalberon com recursos públicos que deveriam ser destinados à educação.

Antes de ela ser ouvida, o advogado Welton Roberto, que atuou na defesa dos policiais militares Ananias Lima e Geraldo Augusto Santos da Silva, tentou impedir o depoimento de Nancy Pimentel, alegando que a professora havia sido pronunciada no processo e não poderia testemunhar. 

Quem também prestou depoimento foi o ex-vice-prefeito e ex-secretário de educação da cidade de Satuba, José Zezito Costa. Ele afirmou que tudo levava a crer que Adalberon tinha mesmo mandado assassinar o professor.

Apesar de Adalberon andar sempre na companhia dos seguranças, Adalberon e Zezito foram em um veículo da prefeitura até a Fazenda Primavera, local onde se encontrava o corpo da vítima já carbonizado. “Ao ver o corpo que parecia um carvão grande, o então prefeito disse que estava satisfeito”, declarou  Zezito Costa.

Ainda no local do crime Zezito disse que o corpo estava com as mãos acorrentadas ao volante de veículo e que era impossível reconhecê-lo. Na parte de trás do carro se encontravam dois recipientes de álcool.

Depoimento dos réus 
Adalberon de Morais foi o primeiro réu a prestar depoimento no Fórum do Barro Duro, no terceiro dia de julgamento. O ex-prefeito negou sua participação e afirmou que o crime foi bárbaro e monstruoso. Sobre as provas que pesam contra ele, Adalberon disse que ‘ouviu dizer’, afirmando que foi preso e não sabe do que se tratam. “Apenas ouvi falar da garrafa de álcool e que o professor foi morto queimado e acorrentado”.

O ex-prefeito disse que não tinha motivos e nem receberia nenhuma vantagem mandando assassinar Paulo Bandeira. “Hoje sou um zumbi. Ninguém sabe o sofrimento que é ficar preso, ainda mais em um cubículo. Quero dizer a realidade aqui”, disse. “Estou calado esses anos todos e vou aqui tudo o que sei. Deus é a prova de que estou falando a verdade e não matei Paulo Bandeira”, colocou o ex-prefeito de Satuba. 


Ainda durante o depoimento Adalberon chegou a insinuar que a vítima teria cometido suicídio.   No final, ele se emociou e chegou a passar mal e teve que tomar um remédio. 
O ex-motorista da Prefeitura de Satuba, Marcelo José dos Santos, se entregou à Justiça no segundo dia de julgamento. Marcelo desmentiu o ex-prefeito Adalberon de Morais no início do seu depoimento quando afirmou que entrego ao então prefeito os horários do professor Paulo Bandeira. 

O réu disse ainda que trabalhou como chefe de gabinete e desmentiu novamente o depoimento dado pelo ex-prefeito. Marcelo negou participação no assassinato e afirmou não saber quem poderia ter cometido o crime. “Eu procurei a Nancy, ela me mostrou onde ficava a máquina de ponto e me entregou os horários do professor. Eu cheguei na Prefeitura, bati na porta do gabinete e entreguei o material ao prefeito”, relatou Marcelo que, ao ser indagado pelo juiz se tinha medo de Adalberon, respondeu que não. 

Os militares Ananias de Lima e Geraldo Augusto, apontados como os executores, negaram ter praticado o crime e afirmaram que foram vítimas de armação. Ananias, conhecido como cabo Lima, relatou que foi acusado a mando do delegado Cícero Lima, que na época conduzia as investigações, e que no dia do crime não estava a serviço do ex-prefeito Adalberon de Morais. 

Ele afirmou que foi incriminado e preso injustamente durante sete anos após as declarações do agente da PC Eraldo Henrique. “Fiquei sete anos preso por uma acusação leviana e irresponsável do Eraldo”, completou. Sobre as investigações, o militar afirmou que o delegado Cícero Lima, “foi um grande covarde”.  

As versões dadas pelos militares sobre o que faziam no dia do crime foram as mesmas. Os réus afirmaram que no dia do desaparecimento do professor passaram a tarde no posto de combustível, de propriedade do ex-prefeito. Após ser citado pelos acusados, o policial civil Eraldo Henrique foi intimado a depor no caso. Henrique desmentiu a versão dos militares e afirmou que os viu no posto de combustível no dia 02 junho de 2003.