Um dos depoimentos mais esperados no júri da morte de Paulo Bandeira foi o da professora e ex-diretora da escola José da Silva Costa, Nanci Lopes Pimentel. Ela confirmou que antes do assassinato do professor, o ex-prefeito de Satuba, Adalberon de Morais, pediu que o ex-chefe de gabinete fosse à escola buscar os horários de trabalho do docente, que estaria sendo um ‘problema’ na vida do gestor.
Segundo Nanci Lopes, a pedido de Adalberon, Marcelo José esteve na escola solicitando a carga horária do professor, mas pediu que não comentasse nada com ninguém. “Eles disse que quem mandou pegar foi o prefeito Adalberon. Pediu o novo horário do professor, sem dizer a finalidade”, colocou. Ela negou ter conhecimento de que Marcelo andasse armado e confirmou que ele trabalhava diretamente com o ex-prefeito.
Marcelo era temido em Satuba porque contava tudo o que acontecia nos órgãos públicos ao prefeito, segundo a depoente. “Ele tinha a fama de levar todas as informações ao prefeito. Isso era o comentário na cidade, justamente por ele ser muito ligado ao gestor. Quando chegava à escola para levar algum oficio, todos tinham medo dele. Se estivessem parados, começavam a trabalhar temendo que algo fosse levado ao prefeito”, relatou.
Ao ser ouvida no Fórum do Barro Duro, em Maceió, a educadora também confirmou que Paulo Bandeira repudiava a maneira que o gestor administrava o município e que chegou a fincar cartazes na escola onde lecionava mostrando aos colegas de profissão os supostos desvio de Adalberon com recursos públicos que deveriam ser destinados à educação.
Nanci Lopes disse, ao juiz John Silas, que trabalhou com o professor durante um ano e cinco meses e que nunca tiveram problemas pessoas. “Nossas divergências eram no cunho profissional. Tínhamos discórdia de questões de trabalho”, relatou ao ser interrogada logo após a leitura dos depoimentos dados à polícia durante o período de investigação.
A educadora também relatou que soube do desaparecimento de Paulo Bandeira através da esposa da vítima que esteve na escola. No entanto, o que causou estranheza foi o fato de que, ao ir à secretaria de Educação, encontrou com o prefeito que já tratava o caso como morte.
“Estive na Secretaria de educação com o vice-diretor, na época, e encontrei com o prefeito que me chamou para conversar. O Marcelo estava com ele, mas se afastou. O Adalberon perguntou o porquê de eu estar preocupada. ‘Foi a senhora que matou o professor? Esfrie a cabeça e vá trabalhar’”.
Sobre o assassinato de Paulo Bandeira, Nanci Lopes disse que soube do envolvimento de Adalberon de Morais através da imprensa e garantiu que não tinha conhecimento desse plano de morte contra o professor. “Eu respeitava o prefeito, mas não éramos amigos”.
Nanci Lopes disse ainda que após o crime, Adalberon e Lima (o policial Ananias) estiveram em sua casa. “Estava no sofá, abatida, adoentada e vi parar um carro. O prefeito entrou e disse que eu levantasse a cabeça. Ainda perguntou se eu estava adoentada. O ‘Lima’ entrou, olhou pra mim, para o Adalberon e balançou afirmativamente a cabeça para o prefeito. Depois saiu”, acrescentou.
A ex-diretora disse ao promotor que Adalberon chegou a dizer que foi ver o corpo do professor Paulo Bandeira e que "o corpo estava desta tamaninho", referindo-se, segundo relatou a testemunha, ao tamanho do corpo da vítima após carbonizado. "Ele falou isso fazendo o gesto com a mão e depois rindo sarcasticamente", revelou Nancy.
Impedir depoimento
Antes de ser ouvida, o advogado Welton Roberto, que atua na defesa dos policiais militares Ananias Lima e Geraldo Augusto Santos da Silva, tentou impedir o depoimento de Nancy Pimentel, alegando que a professora havia sido pronunciada no processo e não poderia testemunhar.
No entanto, de acordo com o Ministério Público, não havia provas quanto à participação de Nancy Pimentel e como ela havia sido ‘despronunciada’ no processo, poderia ter ouvida no caso. E mesmo sob o protesto da defesa, o juiz John Silas indeferiu o pedido.




