O ensino público focado em ações integrais tem sido uma promessa por todos os que apostam na educação para retirar das ruas e das situações de risco crianças e adolescentes. Os altos índices de violência em Alagoas, principalmente envolvendo os jovens, fazem com que esses projetos ganhem força no estado, mas parece que apesar dos esforços de diversos profissionais, a boa vontade emperra na falta de responsabilidade.

É o que vem acontecendo na Escola Municipal Nosso Lar, localizada no bairro do Vergel do Lago, em Maceió. Instalada no prédio onde antes funcionava o Colégio Cenecista Élio Lemos, a unidade de ensino é responsável pela educação de mais de mil alunos, distribuídos em turmas do ensino fundamental ao 5º ano e que até o ano passado estavam acalentados com o programa federal Mais Educação Integral.

São mais de R$ 40 mil disponíveis para serem utilizados, de forma consciente, em ações que coloquem as crianças na escola em tempo integral, ou seja, após cumprir as horas/aulas obrigatórias no currículo escolar, elas ainda têm a possibilidade de [no segundo horário] praticar atividades esportivas. A ideia é afastar ainda mais os menores das ruas e do risco de envolvimento com o ilícito.

No entanto, a escola Nosso Lar teve essa verba federal suspensa [pelo menos de forma temporária], até que alguns problemas constatados na prestação de contas feitos pela antiga gestão da Secretaria Municipal de Educação sejam solucionados. Enquanto isso não acontece, as crianças deixaram de ser beneficiadas com as atividades do programa.

A diretora da escola, Sueli Barbosa, explica que no ano passado 250 alunos integravam as ações, mas agora não podem continuar em horário integral na escola por conta do cancelamento. "A escola fez a prestação de contas correta, mas algum problema na Secretaria acarretou com essa suspensão no repasse. Já mantive contato com a atual secretária e sua equipe está resolvendo a questão. Não sei explicar o que houve", disse.

Bastante chateada com a interrupção das atividades, a diretora explica que enquanto a situação não for regularizada, os alunos terão que ir para casa após as aulas pela manhã. Isso porque o recurso repassado à escola serve para o pagamento dos monitores e prestadores de serviço, além da compra de materiais esportivos.

"Eles estão voltando para casa mais cedo, infelizmente. Sabemos que essa região do Vergel é bastante problemática, porque existem muitas pessoas envolvidas com drogas e isso acaba influenciando os menores. É um trabalho bonito realizado aqui, de recuperação. Quanto mais tempo eles continuam na escola, mais tempo ficam livres do mundo do crime", colocou Sueli.

Problemas continuam na escola

Isso é apenas a ponta do iceberg, já que os problemas encontrados na escola são inúmeros. A reportagem do CadaMinuto fez um passeio, na semana passada, pelas instalações e constatou que, apesar das milhares promessas feitas pela última gestão, a unidade só não está totalmente abandonada devido à força de vontade e compromisso da direção, professores e comunidade.

Desde 2001, a antiga Élio Lemos foi adquirida pelo município e funcionava de forma precária, com madeiras podres, paredes sem pintura, cozinha sem condições para o preparo da merenda, falta de equipamentos eletrônicos. Em 2009, ao assumir a direção, Sueli Barbosa começou a dar uma nova cara ao local.

"O caos estava instalado aqui e era difícil conseguir fazer qualquer trabalho pedagógico na escola, sem que antes algo fosse feito na parte estrutural. Não há aquele que queira frequentar uma escola cujas paredes e teto estão caindo, com sujeira. Esse era o retrato do prédio quando assumi", relembra.

Era preciso 'arregaçar as mangas' e buscar no trabalho em equipe a força para prosseguir com o ensino num local esquecido pelos ex-gestores. Para isso, a pouca verba que a escola dispunha mensalmente era insuficiente. Os R$ 3 mil já tinham lugar certo para serem aplicados: compra de materiais escolares e pequenos consertos [como troca de lâmpadas].

A diretora decidiu não interromper as ações e usou recursos próprios para, tentar, reerguer o local. Gastou mais de R$ 2 mil em tintas e deu cara nova à escola, com a ajuda de alunos e professores. Trocou as madeiras nas salas de aula e banheiros, que tinham sério risco de desabamento. Resolveu o problema do esgotamento sanitário de casas que era depositado na escola. As salas da direção, coordenação e dos professores também tiveram reparos, assim como a instalação de novos ventiladores.

Já na cozinha a situação era ainda mais crítica. Já imaginou esse local, que para o preparo dos alimentos precisa ser impecável no quesito limpeza, estar repleto de escorpiões? "Não havia a mínima condição de funcionamento, as paredes não tinham cerâmica e o local para armazenar os alimentos eram de madeira e estavam tomados de cupins. Hoje o retrato é outro. Foram investidos R$ 7 mil para a reforma. Antes não tínhamos um freezer e eu precisei usar meu cartão de crédito para comprá-lo", contou a diretora.

Auditório e espaço destinado à creche seguem desativados

Que mudanças foram realizadas é algo incontestável, mas que ainda existem muitas reformas necessárias é uma realidade vista por qualquer um que visite o espaço. O enorme auditório, que poderia estar sendo bem utilizado para ministrar aulas, está desativado, assim como o espaço que deveria passar por reforma e atender crianças de dois a quatro anos na creche.

A enorme sala, localizada num espaço central da escola, está em destroços. Janelas quebradas, sem vidros e a falta de piso deixam o local com a sensação de abandono. Isso ainda sem levar em conta a falta de aproveitamento do espaço que deveria ser utilizado para a formação do aluno, nas aulas com equipamentos audiovisuais ou pequenas apresentações.

Mas é nos fundos do prédio que conhecemos a 'futura creche', cujo projeto nunca saiu do papel e dos sonhos da comunidade escolar. Não há como visitar a instalação, já que uma porta de ferro com um cadeado impede a passagem, devido ao alto risco de desabamento. Mesmo assim, de longe, é possível perceber o tamanho da estrutura.

A diretora explica que a parte do prédio sem acesso permitido possui oito salas, além de cômodos onde deveriam funcionar banheiros, cozinha, sala de leitura. "Isso daria para receber 550 crianças que ficariam na escola enquanto as mães estivessem trabalhando. Mas infelizmente é essa a situação, o teto pode desabar e não há condições de funcionamento", contou Sueli Barbosa.

Com todos esses problemas, a única alternativa de muitas mães é levar as crianças para o mercado, local onde a maioria dos moradores da região trabalha. Sueli lamenta o fato de muitas crianças ficarem o dia inteiro nas bancas [local usado para comercializar os produtos no mercado] enquanto as mães trabalham, já que poderiam estar bem assistidas na unidade.

"Infelizmente não podemos fazer nada em relação a isso. Cada vez que o ex-prefeito vinha na escola durante alguma comemoração ou evento tinha o discurso de que o projeto já estava pronto e que a escola Nosso Lar seria um pólo educacional, mas tudo ficou na promessa porque nada foi feito aqui", lamentou.

Enorme piscina não é aproveitada na prática esportiva

O discurso de que o esporte é o melhor caminho para retirar crianças e adolescentes do mundo do crime fica ainda mais vazio e não sai do papel na Nosso Lar. A pequena 'vila olímpica' da escola quase não funciona como deveria.

Um ginásio poliesportivo, dois campos de futebol, uma piscina e salas para ginástica e judô. Assim é formado o pólo para as atividades, mas que não apresenta as condições necessárias para que o esporte seja praticado de maneira produtiva pelos alunos. Apesar de estarem funcionando normalmente, o ginásio [que passou por pequenos reparos] ainda tem defeitos a serem corrigidos; apesar de um campo de futebol ser aberto, é possível constatar falhas na grama, já o segundo, segue sem uso.

Mas a situação mais desoladora é quando se depara com a enorme piscina localizada nos fundos da escola. "Ela está desativada há mais de 20 anos, nunca funcionou. Só fica cheia quando a lagoa enche e quando está vazia fica assim, repleta de entulhos. É um desperdício mesmo, porque os alunos poderiam estar aproveitando esse espaço", sonhou.

A sala de ginástica tem boa estrutura, mas ainda é subutilizada. Já a sala de judô está sem uso, isto porque a reforma é imprescindível e poucos se arriscam no local porque a presença de cobras [vindas da lagoa] é algo comum.

Reformas chegariam a R$ 500 mil

O grande espaço estrutural da escola Nosso Lar é de encher os olhos e se comparado a escolas particulares em Maceió é ainda mais surpreendente. Mas para se transformar num polo educacional muito trabalho precisa ser feito, assim como os investimentos do setor público.

Cálculos feitos pela atual direção apontam que para solucionar todos os problemas, o governo deveria desembolsar cerca de R$ 500 mil. "Esse é um valor que transformaria esse espaço num verdadeiro polo educacional. Já somos referência em vários aspectos aqui, mas sem dúvida ainda há muito a ser conquistado", coloca a diretora, que acredita que para disponibilizar a verba a prefeitura dependeria de parceria com o governo federal.

Enquanto o sonho não vira realidade, Sueli Barbosa [que estudou na antiga Élio Lemos] lamenta o cenário atual. "É triste, lamentável ver esse espaço assim, largado. Vivi muitos anos do meu período escolar aqui, fiz o magistério e por isso tenho um enorme carinho por esse local. Acredito que a educação no Brasil só poderá ter um caminho diferente quando os gestores olharem para ela com o verdadeiro olhar", finalizou.

Semed está realizando diagnóstico em escolas municipais

De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Educação (Semed), desde que a nova gestão assumiu [há dois meses] vem realizando um diagnóstico em todas as escolas da rede pública municipal, para saber a real situação de cada uma delas. Sobre a escola Nosso Lar, o órgão já tomou conhecimento dos diversos problemas enfrentados na escola e garantiu que uma equipe estará indo ao local para iniciar as ações de melhorias.

No entanto, para adotar qualquer medida referente a reformas, a Semed aguarda a aprovação do orçamento pela Câmara de Maceió. A expectativa é de que ainda no primeiro semestre a abertura de processo licitatório para reformas em vinte unidades de ensino.

Com relação ao cancelamento do programa Mais Educação Integral na Escola Nosso Lar, a Semed informou que a equipe de gestão irá resolver os problemas na prestação de contas da gestão anterior para que, desta forma, os recursos voltem a ser repassados à unidade o quanto antes.

A Semed lembra ainda que as promessas de transformar a escola num pólo educacional foram da antiga gestão, mas garante que várias ações serão implantadas em Maceió para levar qualidade do ensino e também nas estruturas nas escolas da rede municipal.