por Vanessa Siqueira, Anna Cláudia Almeida e Ludmila Calheiros (colaboradora)
O famoso estereótipo de que a mulher é um sexo frágil caiu por terra há tempos. Nos últimos dez anos, o Brasil registrou um aumento no número de residências em que mulheres são os chefes da família. Em Maceió, 32,3% das residências são comandadas por mulheres. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O CadaMinuto foi em busca de histórias de mulheres alagoanas que reforçam a estatística e mostram que elas atuam em campos onde antes só os homens se arriscavam enveredar.
As barreiras impostas às mulheres nunca foram obstáculos para Noemia Ferreira. Ela casou com 19 anos e a falta de tempo do marido para consertar os problemas que surgiam na estrutura física da casa, levou a dona de casa a se aventurar nos serviços tidos como ‘masculinos’. Mesmo sem experiência ela passou a fazer pequenos consertos e reformas nas paredes, no chão, nas pias e à medida que o tempo passava um desejo crescia dentro dela: o de se aperfeiçoar na área.
Em novembro de 2012, aos 50 anos de idade, dona Noemia se matriculava no curso de pedreiro de alvenaria do Senai. A turma tinha uma média de quinze alunos, entre eles outras mulheres, algumas já estão trabalhando na área, depois de ter concluído o curso em janeiro deste ano.
“Acompanho o trabalho delas. Uma coisa mais linda que a outra. Isso me enche de orgulho. Sempre acreditei que não tinha espaço que a mulher não pudesse conquistar com sabedoria” disse a dona de casa.
Mas ela foi movida pelo desejo e mesmo tendo concluído o curso, não está trabalhando na área. No entanto, ela sempre encontra algo para fazer em sua casa, onde é muito comum ter uma nova reforma. “Às vezes meu marido sai de casa e quando volta encontra uma parede no chão. Sempre tem um problema pra resolver ou um desejo de mudança. Agora não preciso que ninguém faça nada por mim”, ressaltou Noemia.
Ela continua prestando serviço em uma associação no bairro da Santa Lúcia, onde mora. No lugar ela presta serviço em várias áreas, auxilia no reforço ofertado às crianças, cuida de parte da administração do lugar e até dá assistência na cozinha, embora não seja seu lugar preferido.
“Nunca fui uma apaixonada pela cozinha. Eu prefiro fazer misturas na betoneira, um equipamento usado na mistura de materiais de construção, do que na batedeira”, brincou.
A paixão pela área cresceu tanto que Noemia decidiu não parar, se matriculou e já esta tendo aulas no curso de Instalador de Tubulações. Além de se aperfeiçoar na nova área, ela ficou ainda mais feliz ao perceber que iria estudar em uma sala que ela ajudou a construir. “Durante as aulas de pedreiro de alvenaria tínhamos que construir coisas, uma delas salas. Levantei parte das paredes e fiz o contra piso do local onde hoje estou estudando” conclui cheia de orgulho.
Um táxi na vida de Ana
Driblar as dificuldades para sustentar a família. Há nove anos Ana Cristina da Silva, de 36 anos, se tornou taxista para poder manter a casa após o marido sofrer um enfarte. Todos os dias a motorista encara o trânsito da capital com muito bom humor e disposição.

A paixão de Ana por carros começou há alguns anos. Antes de ser taxista, ela foi motorista de ônibus de uma empresa de Maceió e chegou até a dirigir a carreta do marido levando uma carga até o Rio Grande do Sul. Ela contou que desde que aprendeu a dirigir, só trabalhou como motorista. Até o namoro com o marido teve início por conta da profissão.
“Conheci meu marido logo que comecei a dirigir. Ele é caminhoneiro e eu viajava muito com ele na carreta. Eu só parei depois que fiquei grávida. Voltei a trabalhar como motorista quando ele sofreu o enfarte. Durante dois anos sustentei a casa sozinha, além de cuidar dele e do meu filho”, contou.
Motorista experiente, ela afirma que alguns clientes preferem fazer o trajeto de táxi com ela, afirmando ser mais seguro. “Nos finais de semana, as mulheres preferem andar comigo por medo de assaltos, mas tenho clientes que dão preferência e isso é muito bom”, comemora.
O filho, que hoje tem nove anos se orgulha da mãe taxista. “Na escola ele fala todo entusiasmado pra todo mundo que a mãe dele é taxista. Ele acha um máximo. Meu marido não reclama, até porque vive viajando pelo país. Mas ele sempre liga e quando chega de viagem matamos saudades. Gosto muito do que eu faço e não me vejo em outra profissão”, disse.
Giselia, a primeira cinegrafista mulher de Alagoas
Outra mulher que faz acontecer é Giselia Maria, 39 anos. Ela trabalhava como motorista para uma empresa e há três anos foi contratada pela TV Pajuçara, afiliada da Rede Record, para ocupar a função antes desempenhada apenas por homens. O aparente problema em ter uma mulher como motorista das equipes de reportagem é que o trabalho não se resume apenas em conduzir o veículo. Entre as tarefas que tinha que cumprir estava carregar os pesados equipamentos necessários nas gravações.

“Quando cheguei à TV os meninos logo me falaram que só o tripé (equipamento utilizado para apoiar a câmera) pesava mais de 10kg. Mas isso nunca me intimidou”, disse Gisélia.
A desconfiança em ter uma mulher no cargo logo foi superada pelo total comprometimento apresentado pela primeira motorista-auxiliar da emissora. E Giselia não parou. Enquanto desempenhava sua função, ela acompanhava de perto o trabalho dos cinegrafistas. Logo, o desejo de aprender a tocou.
Ela começou pedindo orientação aos companheiros sobre o funcionamento de tudo, queria saber sobre a câmera, enquadramento, iluminação, e assim resolveu apostar no caminho que começava a se apresentar e se profissionalizou.
“Eu não queria continuar para sempre como motorista, pelo desejo que comecei a sentir em trabalhar como cinegrafista e também pelo crescimento salarial. Então procurei o curso na área de TV, estudei um ano e sete meses para aproveitar oportunidades que surgissem”, contou a até então motorista.
E as oportunidades apareceram. Ela começou fazer alguns trabalhos, registros de formaturas e até uma matéria, trabalhos veiculados em um programa da emissora. Logo Giselia ganhou a oportunidade de mostrar o seu talento e acabou contratada também como cinegrafista.
“Agora divido meu tempo. No período da manhã estou nos estúdios, como cinegrafista. A tarde continuo como motorista e auxiliar acompanhando as equipes de reportagem”, finalizou a agora cinegrafista.
Maioria das residências em Alagoas são chefiadas por mulheres
O estudo “Perfil das Mulheres Responsáveis pelos Domicílios no Brasil” mostra uma curva ascendente do número de mulheres que comandam os lares brasileiros, possuem um maior nível educacional e conseguem quebrar as barreiras impostas pela sociedade.
A região Nordeste apresenta a maior proporção de domicílios, cuja pessoa de referência é do sexo feminino, 25,9%, seguida pela Região Sudeste, 25,6%. No caso do Nordeste, deve-se considerar, além das mudanças recentes de âmbito cultural, a intensidade da migração nordestina masculina ocorrida nas últimas décadas e seus padrões diferenciados por gênero.
Em Maceió, 32,3% das residências são comandadas por mulheres. Um ponto que deve ser levado em consideração é o fato de que o número de homens que são assassinados na região é um dos fatores que levam muitas mulheres a assumir a chefia da casa. Em Alagoas, 63,1% das residências são chefiadas por mulheres com rendimento de até dois salários mínimos e com crianças de 0 a 6 anos de idade.
Mais acesso à educação
Desde os primeiros anos do século XX, as mulheres lutam para conseguir espaço dentro da sociedade. Ao longo dos anos e depois de muitas reivindicações, mulheres conseguem ocupar cargos de maior relevância, chegando a ser chefes, em várias empresas de diversos segmentos.
Esse crescimento vem se acentuando na última década, conforme aponta o estudo. Por exemplo, a proporção de responsáveis homens com até 3 anos de estudo, em 2000, era de 33,7%, enquanto das mulheres era mais elevada (37,6%).
As mulheres estão tendo mais acesso à escola do que antigamente e, por sua vez, estão nela permanecendo por mais tempo. Este fenômeno pode ser comprovado ao se analisar a média de anos de estudo entre os responsáveis homens e mulheres. Atualmente, a escolaridade média das mulheres é praticamente igual à dos homens, sendo que para as mulheres o crescimento foi maior no período de 1991-2000. A presença notável das mulheres no atual ensino médio apareceu na década de 1980, mas nos anos de 1970 as mulheres já se faziam notar no ensino superior.
Dia Internacional da Mulher lembra a luta pela igualdade
A data 08 de março foi definida como Dia Internacional da Mulher. No ano de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve.
Essas mulheres realizaram uma ocupação na fábrica com o objetivo de levantar a bandeira da luta por melhores condições de trabalho. Elas queriam redução na carga diária de trabalho para dez horas (na ocasião a exigência das fábricas eram 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.
A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.
Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).





