O terceiro dia de julgamento do ex-seminarista Gil Rugai começou por volta das 10h48 com o depoimento do contador Edson Tadeu de Moura, que prestou serviço para a Referência Filmes, empresa de Luis Rugai. Ele falou por quase uma hora e declarou que desconhece a acusação de que Gil Rugai desfalcou financeiramente a produtora do pai.
“A contabilidade estava em ordem como é até hoje”, disse Edson Tadeu de Moura ao ser questionado pela defesa do réu, que responde em liberdade pelo assassinato do seu pai e da madrastra, Alessandra Troitino, em 2004.
A Promotoria sustenta que os supostos desfalques na Referência teriam sido praticados por Gil Rugai e estão relacionados ao crime. Por isso, o réu também é julgado por estelionato. Segundo a tese da acusação, o ex-seminarista matou o casal após seu pai descobrir que ele desviou dinheiro da empresa, falsificando cheques. Ele teria receio de ser preso por conta do rombo de mais de R$ 100 mil que teria sido aplicado nos caixas da produtora.

Por causa do suposto desfalque, Luís Rugai teria expulsado o filho de casa e o afastado da função de contabilista da Referência. A defesa contesta essa versão de que o crime foi cometido por Gil Rugai após a descoberta do desfaque. Os defensores alegam que até agora a acusação não tem provas de que esse desvio de dinheiro.
Questionado pelos advogados Marcelo Feller e Thiago Anastácio, que defendem Gil Rugai, Edson Moura respondeu que também não teve conhecimento se cheques foram falsificados na empresa. “Não sei se algo foi falsificado ou não”, disse o contador.

Segundo Moura, “é quase uma praxe” em empresas que assinaturas do dono sejam falsificadas por terceiros autorizados pelo proprietário. Apesar disso, afirmou não ser de seu conhecimento de que Gil Rugai assinasse cheques pelo pai na empresa Referência Filmes.
Indagado pelo promotor Rogério Leão Zagallo, Moura disse que era possível descobrir um desfalque se fosse feita uma "perícia contábil", o que não ocorreu.“A questão da causa da morte não foi o desfalque financeiro, foi o contador”, retrucou Zagallo após encerrar às perguntas a Moura.
Para o advogado Ubirajara Pereira, assistente da acusação, Moura respondeu que é possível perceber o desfalque financeiro em qualquer empresa anos depois. Edson afirmou ainda que Gil era o filho do dono, e não registrado na empresa. Advogados de defesa apresentaram um documento que teria duas assinaturas de Rugai, uma verdadadeira, e outra falsificada. O contador avaliou que provavelmente o pai do réu assinou o documento com a outra assinatura, o que indicaria que isso seria uma prática comum na empresa.
Sobre o comportamento de Gil Rugai, Edson Moura falou que nas duas vezes em que conversou com Luis Rugai percebeu que seu filho o chamava de “papai”. A defesa também abriu mão de ouvir o depoimento de José Eugênio Moura, irmão de Edson Moura, que atuava ao seu lado como contador da Referência. Por volta das 12h começou o depoimento de Ana Lúcia Pastore Scheitzmeyer, antropóloga arrolada pela defesa.
Na dúvida, absolve-se o réu
A professora e advogada Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, do Departamento de Antropologia da USP, especialista em antropologia jurídica, foi a segunda a depor nesta quarta-feira, como testemunha de defesa. Em menos de uma hora de depoimento, ela afirmou que estudos mostram que, “na dúvida”, o aconselhado é “sempre absolver o réu”.
A declaração da antropóloga reforça a tática da defesa do réu, que desde o início do julgamento tenta mostrar para os jurados que Gil é inocente e que as provas apresentadas deixam várias dúvidas.
Ana Lúcia afirma ter lido um trabalho acadêmico que mostra que o caso de Gil é pautado em “estereótipos.” Ela foi questionada pelos advogados de defesa sobre objetos que foram encontrados no quarto de Gil, como um vídeo de um trabalho de escola sobre o nazismo. E ainda uma carta que ele recebeu de uma amiga e que teria a informação de que Gil é homossexual, o que segundo a defesa foi até temas de reportagens à época. Ela afirma que questões morais têm influenciado júris no Brasil e prevalecido sobre o princípio do “in dubio pro reo”. “Considerado homossexual, pode ter sido relevante. Pode ser usado como algo politicamente incorreto”.
A participação da antropóloga irritou o promotor Rogério Leão Zagallo, que perguntou se ela conhecia alguma prova do caso. Ela disse que não. Zagallo perguntou ainda se ela havia lido as 6 mil páginas dos autos do processo, e ela também respondeu que não, mas completou. “Os jurados também não leram.”
A terceira testemunha que seria ouvida nesta quarta, José Eugênio Moura, foi dispensada pela defesa. Ele é irmão da primeira testemunha ouvida na segunda-feira (18), Edson Tadeu de Moura, contador que prestava serviços para a Referência Filmes, empresa de Luis Rugai.

Reportagem
O terceiro a ser ouvido foi o jornalista Valmir Salaro, repórter do programa Fantástico, da TV Globo, que participou como testemunha de defesa. Pouco após o crime, Salaro fez reportagem informando que a Corregedoria da Polícia Civil abriria uma sindicância para apurar se policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) haviam queimado a guarita do vigia que é a principal testemunha do caso. O vigia afirma ter visto Gil saindo da casa do pai momentos após o crime.
A defesa procurou destacar a reportagem de Salaro e as credenciais do repórter, perguntando até mesmo sobre seus prêmios jornalísticos. Salaro informou que duas fontes passaram a informação sobre a possível participação da polícia no incêndio à guarita, mas exerceu o direito de não revelar o nome dos informantes. Já a Promotoria mostrou um depoimento da mulher do vigilante feito à Justiça, no qual confirma que o vigia lhe confessou que havia visto Gil Rugai saindo de casa. O depoimento foi mostrado porque na reportagem à época, a mulher disse que a acusação feita pelo marido não tinha fundamento.
Durante o depoimento, acusação e defesa discutiram inúmeras vezes. A defesa afirmou que a advogada que acompanhou o vigia em seu depoimento à polícia é mulher de investigador do DHPP.
Outro vigia
Quarta testemunha a ser ouvida no dia, o vigia Valeriano Rodrigues dos Santos afirmou ter ouvido o som dos disparados que mataram Luis Rugai e sua mulher. “Pensei que tivesse sido bomba, foguete. Bombinha que solta em festa”, disse.

Santos trabalhava na Rua Atibaia, via oposta onde outro vigia, cujo nome não foi divulgado, estava no dia do crime. Ao contrário da outra testemunha, Santos não viu ninguém sair da casa após os tiros.

Ao advogado Marcelo Feller, contou que um delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi agressivo ao colher seu testemunho. “A conversa foi bem pesada. Ele queria que eu dissesse que tinha visto alguém sair. Ele insistiu, bateu na mesa, apontou para mim e disse: ‘você viu’”, afirmou. Ele não especificou, porém, qual policial fez tal comentário.

Apesar da maneira como o vigilante foi questionado, ele disse não ter cedido à pressão. Questionado se se sentiu intimidado, disse: “Olha, para falar a verdade, não me senti, não. [...] Se não vi, por que diria que vi?”, questionou. Outra testemunha da defesa também foi liberada após esse depoimento: a perita Cristina Gonzalez.
Terceiro dia
O julgamento de Gil Rugai está no terceiro dia nesta quarta-feira e recomeçou por volta das 10h48. O júri vai ouvir as testemunhas chamadas pela defesa do réu. Por volta das 9h50, Gil já estava no plenário do júri. Ele driblou a imprensa nesta quarta e entrou por um outro acesso do Fórum da Barra Funda.
O advogado de defesa do réu, Thiago Anastácio, afirmou nesta manhã, pouco antes do início do julgamento, que "o nome do suspeito de assassinar o casal será revelado pela defesa durante os debates". Segundo ele, por causa de uma mentira contada por essa pessoa, Gil passou a ser investigado.
Na terça-feira (19), o júri foi encerrado por volta das 21h30. Ao término deste segundo dia de julgamento, tanto acusação quanto a defesa de Gil Rugai deixaram o Fórum da Barra Funda comemorando os depoimentos prestados pelas testemunhas, duas de acusação e uma de defesa, nesta terça-feira.
O julgamento
Desde segunda até a noite desta terça-feira, foram ouvidas testemunhas de acusação e uma de defesa. A previsão do juiz Adilson Paukoski Simoni é que o julgamento termine até sexta-feira (22).
Caberá a sete jurados – cinco homens e duas mulheres, escolhidos por sorteio - decidirem, a partir das provas da acusação e da defesa, se Gil Rugai matou ou não pai, Luiz Carlos Rugai, e a madrasta Alessandra de Fátima Troitino. Além do homicídio, o réu também é acusado de estelionato.
O réu, que atualmente tem 29 anos de idade, responde ao processo em liberdade, mas já chegou a ficar preso por dois anos.
Crime
O casal foi morto com 11 tiros na residência em que morava na Rua Atibaia, em Perdizes, na Zona Oeste da cidade. No mesmo processo pelo homicídio, Gil Rugai responde ainda a acusação de ter dado um desfalque de mais de R$ 25 mil, em valores da época, à empresa do pai. Razão pela qual havia sido expulso do imóvel cinco dias antes do crime. Ele cuidava da contabilidade da ‘Referência Filmes’.
Contra o réu, a Promotoria diz ter como provas: a arma do crime, achada no prédio onde Gil Rugai mantinha um escritório e uma pegada na porta da casa das vítimas que foi arrombada pelo assassino. Quem acusa é o promotor do caso, Rogério Leão Zagallo.