A Comissão Eleitoral do Egito anunciou nesta terça-feira o triunfo do "sim" com 63,8% dos votos no referendo sobre a nova Constituição, três dias depois da realização da segunda fase da consulta popular.
Em entrevista coletiva, o presidente da comissão, Samir Abu al Maati, tornou público o resultado definitivo da votação após revisar as denúncias apresentadas por irregularidades, confirmando os dados oficiosos divulgados no domingo passado pela Irmandade Muçulmana.
Durante a segunda rodada do plebiscito, tanto Irmandade Muçulmana como a Frente de Salvação Nacional (FSN), que reúne grande parte da oposição não islamita, denunciaram irregularidades. O FSN solicitou o "não" ao considerar que a redação da minuta da Constituição foi monopolizada pelos islamitas e que o texto corta direitos e liberdades, além de abrir a porta para uma interpretação islamita da lei, entre outras críticas.
A FSN anunciou no domingo que os resultados eram conquistados com base em fraudes e violações. A FSN "irá recorrer do resultado deste referendo", declarou um dos principais líderes opositores, Hamdeen Sabbahi. Várias queixas já haviam sido depositadas na justiça.
"Nossa luta é pacífica, queremos derrubar uma Constituição inválida marcada por irregularidades e uma fraca taxa de participação", declarou outro opositor, Amr Hamzawv. A Frente acrescentou em um comunicado que este referendo "não é o fim do caminho", mas "apenas uma batalha" na luta contra o poder do presidente Mursi.
O movimento de oposição composto principalmente por grupos liberais e de esquerda consideram que o texto da Constituição abre caminho para interpretações rigorosas do Islã e oferece poucas garantias para certas liberdades. A Frente, que exigia a anulação do referendo, tentou pressionar Mursi com manifestações em massa, antes de lançar uma campanha feroz, mas de última hora, em favor do "não".
Nos Estados Unidos, a republicana Ileana Ros-Lehtinen, presidente do Comitê dos Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes, caracterizou a votação como "uma derrota para o povo egípcio". "Nós não podemos comemorar o fato de se trocar um regime autoritário por uma ditadura islâmica", disse ela em um comunicado antes do anúncio dos resultados.
Votação
As longas filas de eleitores nos centros eleitorais do Egito também chamaram a atenção durante a votação da segunda fase do referendo, a qual foi realizada em 17 províncias do país. Em dois centros eleitorais do Cairo, homens e mulheres, literalmente, se amontoavam para tentar participar da decisão sobre o futuro da Carta Magna do país. Neste local, além da grande quantidade de eleitores, outro fator também chamava a atenção: a opinião dividida entre os eleitores.
Mohammed, porteiro de um edifício, apontou que a melhor opção era o "sim": "A Constituição é boa e honorável porque permite que gente pobre como eu que tenha seus direitos defendidos", afirmou. Por causa dessa divisão entre os eleitores, as denúncias de supostas irregularidades eram registradas durante a votação.
Renúncia do vice
Poucas horas antes do fechamento dos colégios eleitorais, o vice-presidente Mahmoud Meki apresentou sua renúncia ao considerar que "sua missão de serviço à pátria terminou". Ainda não estão claras as causas exatas da renúncia de Meki, já que, apesar da nova Carta Magna não assegurar a existência de uma Vice-Presidência, o próprio político, que é juiz de profissão, já havia tentado renunciar no último dia 7 de novembro, uma decisão que não foi aceita por causa do "período de instabilidade do país na ocasião".
Nessa última carta, Meki lembrou as difíceis circunstâncias pelas quais o país passou nos últimos meses e seus esforços para que Mursi publicasse uma emenda constitucional capaz de anular a medida anunciada no último dia 22 de novembro, a qual blindou seus poderes perante a Justiça e desencadeou uma onda de protestos.