Coordenadores do “Cinema no Balanço das Águas – Segunda Edição”, os artistas visuais Dalton Costa e Maria Amélia Vieira, estiveram em Pão de Açúcar e Piranhas, na última quinta(22) e sexta-feira(23), para conferir as inscrições de jovens e crianças às oficinas propostas pelo projeto, além de inspecionar a reforma e pintura do barco Santa Maria, de propriedade do museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea. Este ano, as oficinas de vídeo e cinema, fotografia, artes e cinema de animação acontecerão em dezembro, nos dias 7, 8 e 9, no povoado Ilha do Ferro (Pão de Açúcar), e nos dias 10, 11 e 12 em Entremontes (Piranhas).
Iniciado como “Museu no Balanço das Águas” em 2008, com uma segunda edição realizada em 2010, o projeto contemplado pelo edital “Programa BNB de Cultura/ Parceria BNDES” foi reformulado em 2011, tornando-se “Cinema no Balanço das Águas”. Foram introduzidas aí as oficinas de fotografia, cinema e vídeo. No ano passado, o grafiteiro Zezão, de São Paulo, trouxe uma informação mais urbana a essa bem-sucedida ação de arte-educativa. Este ano, o casal Dalton e Maria Amélia convidou o diretor de curtas de animação, da Anima Escola (Rio), Ricardo Elia, que monitorará uma oficina de stop motion – pra quem não sabe, é a técnica que permite o movimento nos filmes de animação.
A reforma e pintura do barco, que fica atracado no cais da cidade de Pão de Açúcar, a 30 km do povoado Ilha do Ferro, já foram concluídas, faltando apenas a colocação de uma escultura em tronco de madeira, “A Gata Borralheira”, do artista popular José de Tertulina, da Ilha do Ferro. A peça fará companhia às outras esculturas do barco, instaladas à época da compra da embarcação em 2010: “O Marinheiro”, de Resêndio, e a “Carranca” do Véio.
"O nosso piloto Valdik fez toda a inspeção do barco, restaurando corrosões que a ação do tempo provocou no casco, nas laterais e na pintura”, informa Maria Amélia. Segundo ela, a primeira providência foi preencher as cicatrizes na madeira. “Os materiais são diversos, entre colas especiais, óleo de mamona, cal, tintas, esmaltes sintéticos brilhantes, lixas. O barco Museu no Balanço das Águas se prepara para mais uma empreitada cultural, com uma equipe competente e coesa e a participação de monitores e prestadores de serviços locais, como artesãos, guias, motoristas, artistas e cozinheiras, além de um publico diversificado, com crianças, jovens e adultos".
Cultura, tradição, arte-educação
Os dois povoados-alvos do projeto são localidades de muita riqueza e tradição cultural. A Ilha do Ferro, é bom dizer, não é uma ilha, assim como Entremontes em Piranhas. São comunidades situadas às margens do rio São Francisco, onde nasceram artistas e artesãos que fizeram a fama de todo esse sertão do baixo São Francisco – Resêndio é de Porto Real do Colégio; Cícero Alves dos Santos, o Véio, é de Nossa Senhora da Glória, já do outro lado do rio, em Sergipe. A Ilha do Ferro se notabilizou por uma exuberante arte popular e um originalíssimo desenho de móveis e objetos utilitários – como cadeiras, bancos e copos –, criados por esses artistas geniais; o povoado também é reconhecido pelo delicado bordado de suas senhoras, o ‘boa noite’, reminiscência da colonização portuguesa.
O famoso passeio do imperador D. Pedro II pelas águas do São Francisco em 1858 alavancou a navegação e o comércio em Piranhas; depois veio a estrada de ferro. O município preservou sua arquitetura do séc. 18, tornando-se destino turístico do sertão alagoano. O povoado Entremontes ficou conhecido por sua inscrição na rota do cangaço e, assim como na Ilha do Ferro, suas mulheres se dedicam a um minucioso bordado, mas com estilos diferentes: redendê, ponto de cruz, labirinto.
“Nessa última visita nossa à Ilha do Ferro e Entremontes, levamos também os cartazes de divulgação do evento. Checamos os nomes dos participantes, credenciamos todo pessoal que vai estar nas oficinas, conversamos com os moradores, que são nossos amigos, enfim, pedimos licença para navegar, para atracar, para chegar”, relata Maria Amélia. O projeto tem o apoio local das duas prefeituras municipais, além do Sebrae-AL, do Museu da Imagem e do Som (que fez a doação de filmes clássicos nacionais para serem exibidos durante três meses nos dois povoados) e da galeria Karandash.
“É sempre bom retornar, retomando o rumo que deixamos no ano passado”, diz a artista. “Certamente encontraremos surpresas. Quem sabe uma flor nasceu – o tempo percebeu ventos bons, vindos do Velho Chico... É sempre bom chegar trazendo um pouco mais, cada vez um pouco mais.”
Trazer e levar conhecimentos: a interação entre arte erudita e popular. “São diversos conhecimentos técnicos que estamos levando. E há os momentos mágicos, convivências felizes, alegres – é um intercâmbio maravilhoso de artistas, instrutores, trocando ideias e assuntos que falam de muitos mundos dentro de um mesmo país. É uma grande troca de experiências”, comemora a coordenadora do núcleo Barco Museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea.
As oficinas, os professores
A edição 2012 do “Cinema no Balanço das Águas” dispôs de 24 vagas para as oficinas de Fotografia (para um público entre 16 e 45 anos); de 24 vagas para as oficinas de Cinema (idade entre 16 e 29 anos) e mais 30 vagas para as oficinas de Animação (de 13 a 20 anos, com duas vagas especiais para professores e produtores de arte-educação).
Há ainda as oficinas de Arte, com técnicas de desenho, pintura e escultura, destinadas às crianças e pré-adolescentes até 15 anos – essas terão uma média de 100 participantes. “Os adultos idosos também participarão do projeto, assistindo aos filmes e documentários, juntamente com todos os participantes”, acrescenta Maria Amélia.
A equipe de professores é formada por Juarez Cavalcanti (fotografia), Pedro Octávio Brandão (cinema), Rejeny Rocha (artes), Maria Amélia Vieira (artes). Participam ainda do projeto o diretor de cinema Glauber Xavier, o desenhista Jorge Santos, o fotógrafo Pablo de Luca, o designer gráfico Daniel Macedo, o diretor do Museu do Sertão, Antônio Jackson, o assistente de arte Eduardo Faustino e o assistente de produção Elson Madureira – além do incansável capitão Dalton Costa.
“Um projeto desse nível movimenta mais de 80 pessoas para que seja possível desenvolver algo interessante, algo que fique amorosamente nas vidas de quem oferece e de quem recebe. Quem oferece? Quem recebe? Nós recebemos muito”, finaliza a mentora desse já tornado imprescindível “Cinema no Balanço das Águas”.




