A aposentada Marina Santana, 61 anos, foi uma das pessoas que não tiveram dúvidas quando viram o corpo de um homem e reconheceram como se fosse do lavador de carros Gilberto Araújo, 41 anos, seu filho. Na segunda-feira (22) Gilberto interrompeu o velório de um corpo que a familia acreditava ser seu no município de Alagoinhas, distante cerca 100 km de Salvador.
Em entrevista ao G1, Marina afirma que os traços muito parecidos lhe deram a certeza de que o corpo era realmente do seu filho. “No sábado disseram ao meu menino [José Marcos, outro filho] quando ele foi cortar o cabelo, que Gilberto tinha morrido de tiro. Aí meu menino me disse, mas eu não acreditei, porque Gilberto é muito conhecido e não tinha como eu não saber antes. Quando foi mais tarde, a gente recebeu outro telefonema dizendo que tinha sido ele mesmo. Aí meu menino foi no IML com minha outra filha. Aí quando eles olharam eles acharam o homem todo parecido com Gilberto”, relata.
Segundo a aposentada, o homem tem traços muito semelhantes aos do pai do seu filho. “Quando eles chegaram em casa com o corpo eu vi e achei que era ele mesmo. Ele tem o rosto parecido com o de Gilberto, a “bangueleza', o cavanhaque. Meu menino ainda olhou para orelha para ver se tinha algum furo, porque Gilberto não gosta dessas coisas, e não tinha. Também olhou pra ver se tinha tatuagem, e não tinha. O homem é a cara do pai de Gilberto”.
Custos
Marina conta que a chegada do corpo na sua residência e a confirmação, por parte da família, de que se tratava do seu filho deixou todos tristes. Depois ela teve que providenciar o enterro do homem que, segundo ela, custou quase R$ 1 mil. “Na segunda-feira, quando estávamos no cemitério preparando uma tumba pra ele ser enterrado ao lado do pai, minha menina recebeu um telefonema dizendo que era para cancelar tudo porque Gilberto estava vivo. Eu duvidei, disse que era mentira. Mas quando voltei para casa eu o vi e a gente se abraçou. Eu estava triste e alegre. Alegre porque vi ele e triste pelo engano”.
A aposentada, que vive com os cinco filhos e agora também com Gilberto, relata que lamenta não ter conseguido de volta o dinheiro gasto com o enterro. “O caixão custava R$ 900, meu menino deu entrada de R$ 300, mais com papel de obras e tudo, eu nem sei quanto gastei. O dinheiro não foi devolvido. Eu não vou pagar as outras parcelas porque foi algo que eu não usei”.
Mesmo com os problemas causados pelo engano, Mariana acredita que a experiência foi positiva porque aproximou mais o filho da família. “Agora ele reconheceu um pouco mais a família. Toda vida tive carinho por ele e ele era um pouco mais afastado. Agora ele está mais próximo. Estou vendo ele todo dia”.
Fama
O lavador de carros Gilberto Araújo nunca imaginou que a sua rotina iria mudar completamente depois de chegar na casa de seus familiares e perceber que todos estavam velando um corpo, que a família acreditava ser seu. “De segunda pra cá foi uma agonia. É o dia todo falando com televisão, rádio, revista. Já estou cansado desse negócio. Eu não consigo dormir mais. Estou exausto”, relata Gilberto.
O caso foi divulgado por jornais internacionais na quarta-feira (24). “Pra mim está sendo maravilhoso tudo isso. Não é nem pela fama, mas por Jesus ter me enviado e mostrado que tem muito amor e carinho”, completa.
Gilberto estava na casa da namorada quando soube através de um amigo que a sua família estaria "velando seu corpo". De acordo com ele, a fama causada pelo reconhecimento já rendeu uma proposta para trabalhar com carteira assinada.
“Aqui vai ter uma fábrica nova de cerveja e minha vaga já está garantida. Ela [fama] beneficia muitas coisas. Não é que eu esteja me aproveitando, mas consertando algumas coisas que estavam erradas”, disse.
O lavador de carros afirmou que os comentários das pessoas nas ruas também não incomodam. “Tem a 'chacotazinha' na rua. Quando eu passo as pessoas dizem: ‘Ó o morto-vivo’. Mas eu não me importo. Se tá acontecendo isso é porque é uma obra de Deus. Outros falam mal, dizem que a gente está se achando. Mas eu não pedi isso a ninguém”, relatou.
Segundo Gilberto, a experiência de “quase morte” serviu para mostrar o quanto sua família o ama. “Eu estou gostando do carinho que minha família está me tratando. Eu aprendi essa palavra “amor” agora. É uma coisa que estava faltando. É amor demais. Não há dinheiro que pague”, diz o lavador, que decidiu morar com a família, pelo menos, "até que tudo se acalme".
Equívoco
A família de Gilberto reconheceu por engano o corpo de um homem no DPT de Alagoinhas, na manhã de domingo (21). A semelhança entre o morto, que só foi identificado após o velório, com o lavador de carros foi o que provocou o erro dos familiares durante o reconhecimento. Nenhum deles percebeu que o corpo não era de Gilberto.
O corpo chegou a ser velado durante toda a noite de domingo na casa da mãe do lavador de carros.
O enterro estava previsto para o final da manhã de segunda-feira (22). Depois que a situação foi esclarecida, o corpo foi devolvido à Polícia Técnica.
Gilberto disse que ligou para falar com um conhecido que estava no velório, mas quem atendeu achou que era um trote. Então, ele resolveu ir pessoalmente mostrar que estava vivo.
“Um colega me ligou [dizendo] que tinha um caixão, que era eu que estava morto. Aí eu disse ‘gente, mas eu estou vivo, me belisca aí”, afirmou Araújo.
Segundo José Marcos Santana Santos, irmão do lavador de carros, o último encontro da família com Gilberto aconteceu há cerca de quatro meses. "Ele só aparece de ano em ano, a gente fica muito tempo sem encontrar. Ele mora aqui em Alagoinhas, mas cada dia está em um lugar diferente", disse.









