França, 1798, primeira fase da Revolução Francesa. Nessa época surgiram expressões usadas até hoje na política: Direita, Esquerda e Centro. Durante reuniões na Assembleia, os partidários da revolução sentavam-se do lado esquerdo do presidente e eram os que tinham as ideias mais progressistas, os que sentavam à direita eram mais conservadores e os do centro da mesa não tinham um posicionamento definido.

Passados anos e anos, as definições políticas continuam. E em Alagoas, quem senta “à esquerda da mesa”? Diante do cenário atual e do rumo que os movimentos esquerdistas tomaram ao longo dos anos, é possível indagar sobre a sobrevivência, no estado, dos que acreditam nos mesmos princípios defendidos pelos que apoiavam a Revolução Francesa.

Com o passar do tempo, os partidos de esquerda no estado deixaram de lado a face mais radical e buscaram amenizar o discurso para figurar bem nas eleições. No pleito do último dia 07, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores (PT) elegeu dois dos 102 prefeitos de Alagoas e o PSol fez dois vereadores na Câmara Municipal da capital.

Para o cientista político Ranulfo Paranhos, os partidos de esquerda em Alagoas seguem na contramão das mesmas legendas no resto do País. Em outras unidades da federação, alerta ele, muitos desses partidos têm crescido e conseguido vitórias nas urnas. “Aqui o caminho é inversamente proporcional ao de outros lugares. Podemos ver que em outros estados, esses partidos estão conquistando prefeituras, vagas nas câmaras e assembleias”, exemplificou Paranhos.

O especialista disse que o enfraquecimento dos partidos de esquerda também tem ligação com o fato de pessoas que não comungam da ideologia das legendas fazerem parte desses grupos. Ele citou o exemplo da Assembleia Legislativa de Alagoas. “Temos o Judson, que é das bases do PT, mas temos também o Marquinhos Madeira que não tem essa identificação com o partido. Por outro lado, vemos o Ronaldo Medeiros”, colocou.

A entrada de pessoas “sem a cara do partido” é um dos fatores que contribuiu para o enfraquecimento das Esquerdas em Alagoas, de acordo com Paranhos. Ele agrega a isso a pouca representatividade nos cargos políticos e a falta de expressividade dos sindicatos no estado.

“Quando há alguém dentro do partido que não se identifica é chamado de orgânico e isso não é bom para o grupo. Outro fator é a questão do sindical, que é a base da Esquerda, e com sindicatos fracos, a coisa tende a esfriar. Quando pensamos em Alagoas, temos três deputados, mas apenas um com a ideologia do partido. Prefeitos, o PT fez dois nessas eleições. Há vereadores no interior, mas quando você pesa isso, vale mais um deputado estadual que representações em câmaras de pequenas cidades do interior”, explicou.

Sobre o PSol, partido de esquerda que vem crescendo no País, Paranhos afirmou que a legenda usa uma estratégia que pode ajudar a minimizar o enfraquecimento desses grupos. “As pessoas se perguntam porque o PSol lança um candidato a prefeito em Maceió sabendo que não haveria chances reais de vitória. Mas, nas pesquisas era apenas 1% e o Alexandre Fleming teve 5%. Isso ajuda o partido a ficar conhecido, o que é muito bom para o fortalecimento do PSol.

Os primeiros ativistas de esquerda em Alagoas

“A Esquerda em nosso estado vem das lutas operárias, anarquistas. Alagoas sempre esteve muito presente nas manifestações políticas de esquerda. Mesmo aqueles que não eram do Partido Comunista tinham participação ativa nos movimentos políticos. A Aliança Nacional Libertadora, na década de 30, reuniu muitos intelectuais alagoanos e outros brasileiros que aqui estavam, entre eles Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, que inclusive foi preso aqui”, relatou o ex-deputado federal e militante de Esquerda Eduardo Bomfim, ao ser indagado sobre o nascimento da corrente política no estado.

Ao longo da história republicana quem se caracterizava como Esquerda em Alagoas, em 1946, era o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que vivia um momento de efervescência política. No ano seguinte a legenda elegeu três deputados estaduais o ex-cabo do Exército José Maria Cavalcante, que em 1935 participou da insurreição armada, registrada historicamente como Intentona Comunista,Moacir Rodrigues de Andrade, funcionário público, e o jornalista e advogado penedense André Pappini de Góes. Logo depois de os parlamentares assumirem seus postos, o registro do PCB foi cassado acarretando na perda automática dos cargos.

Ainda nos anos 40, a União Democrática Nacional (UDN) elegeu o professor de Português Aurélio Viana, que estava no campo da Esquerda socialista . “Aurélio Viana teve tamanho destaque na vida política estadual e nacional que foi eleito senador pelo estado da Guanabara (Rio de Janeiro). Em 1970, Viana foi candidato ao Senado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Alagoas, quando a ditadura estava em pleno vigor, mas não conseguiu se eleger”, comentou o historiador Geraldo Majella.

A partir da década de 70

As lutas sindicais, camponesas e estudantis sempre tiveram a presença do Partido Comunista, de acordo com Eduardo Bomfim. “Na década de 70, as grandes bandeiras do Comunismo eram anistia, liberdade democrática, convocação da assembleia nacional constituinte e eleições diretas”, relatou.

No final dos anos 70, começava também a trajetória política de Renan Calheiros, atualmente senador pelo PMDB . “Calheiros teve o apoio maciço do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e foi eleito com os votos dos estudantes e da Esquerda. Não existem registros de sua ligação ao partido, pois à época não havia filiação, mas era um ativista do PCdoB”, afirmou Geraldo Majella.

Depois de alguns anos, outros representantes da Esquerda começaram a figurar no cenário político. Bomfim com ideais de cunho marxista foi eleito deputado estadual e nesse pleito, que aconteceu em 1982, foram eleitos também Ronaldo Lessa que tinha militância de Esquerda no Partido Comunista Revolucionário (PCR), Selma Bandeira, uma das fundadoras do PCR, e Mendonça Neto que tinha ideias vinculadas ao campo da Esquerda .

Bomfim conta ainda que no final da década de 80, como deputado federal da Constituinte, viveu intensamente a efervescência contra a ditadura militar. “Foi um momento muito empolgante, as pessoas davam o melhor que tinham nessa luta. A repressão era muito grande”, observou.

Em 1982, a Câmara Municipal de Maceió tinha entre seus vereadores Kátia Born, Freitas Neto, Edberto Ticcianelli, Jarede Viana, Guilherme Falcão e Fernando Costa, todos do PMDB.

“Esse conjunto de parlamentares se elegeu com um discurso de Esquerda. Nas eleições seguintes encontramos Ronaldo Lessa para prefeito e para o governo do Estado, e também Heloísa Helena pelo Partido dos Trabalhadores eleita senadora e sendo efetivamente no momento a única mulher de esquerda a representar Alagoas no senado federal”, lembrou Majella.

Mudança de perfil

O historiador revela que nas atuais conjunturas políticas nacional e local é difícil definir quem é de Esquerda. “Em Alagoas ninguém quer dizer que é de direita. As pessoas entram nos partidos para fazer sindicância outros entram para ser candidatos, tanto faz o partido. É tudo um cálculo matemático. Alianças políticas são circunstanciais. São feitas em favor da eleição, para governar. Alianças estas que podem gerar constrangimento político-público. Os partidos no Brasil sempre foram siglas, ou melhor, legendas que se unem em cima do pragmatismo eleitoral”, colocou.

Já para Eduardo Bomfim, em Alagoas o maior entrave está nas ideias.“A luta eleitoral é essencial, são vicissitudes momentâneas. O momento é decisivo, é preciso encontrar o norte, uma bússola pois há uma campanha muito clara para desconstruir a política e fazer com que a juventude não se mobilize. O bombardeio ideológico é o individualismo. Há uma perda de vontade de conversar. Minha geração viveu grandes momentos de longas discussões de grandes causas. Hoje o que podemos ver é a desconstrução da política para melhor mandar politicamente”, ressaltou Bomfim.

O militante reforçou que a Esquerda passa por um momento de fragilidade e para ganhar força precisa resgatar as grandes bandeiras de luta. “A política é a análise concreta da sociedade. As causas têm que ser reais. É uma luta que precisa ser vencida não pela esquerda, mas pelo povo brasileiro”, complementou.

Majella afirma que a esquerda em Alagoas está dividida. “Não sabe efetivamente que rumo tomar. Mergulhou num pragmatismo e hoje o que prevalece são os pequenos condomínios vinculados aos mandatos. A esquerda enfraqueceu, perdeu sua vitalidade quando esteve no poder e não soube o que fazer. Todos os integrantes da esquerda deveriam fazer uma autocrítica sobre o que fizeram ou não fizeram quando estiveram no poder. Cada partido tem seu cacique e militantes pragmáticos. No momento a Esquerda está passando por uma crise de geração. Pode não mudar a prática, mas serve para modificar os líderes”, concluiu Majella.

O PT, movimentos sociais e nomes em Alagoas

“No meu ponto de vista existe um enfraquecimento no campo político o qual eu reivindico desde quando se perderam duas referências: a queda do Muro de Berlim e a criação do PT”. Essa foi a resposta do professor universitário Alexandre Fleming, filiado ao PSol ao ser indagado pela reportagem do CadaMinuto sobre a perda de força dos partidos de esquerda em Alagoas.

“Com a queda do Muro se passou a ideia que o socialismo, as esquerdas e um projeto diferente de sociedade não passavam de uma utopia, mas eu sou de uma corrente ideológica do campo de esquerda que entende que foi fundamental a queda do muro, que possibilitou a experiência de outras práticas políticas. Em relação ao Brasil a gente viveu outra referência que também se desgastou, no final dos anos 70 criamos um dos maiores partidos políticos, uma das maiores centrais sindicais do mundo, a CUT e o PT”, emendou Fleming, que disputou a Prefeitura de Maceió, nas últimas eleições.

Fleming observa que muitos movimentos sociais, que aparecem como pilares dessas legendas, declinaram e ainda não “viraram a página”. Ele cita, além da criação do PT, o nascimento da Central Única dos Trabalhadores (CUT). “Os principais representantes dessas entidades tiveram papel importante. Muitos movimentos precisam pensar na construção de novas referências. Eu sou de um partido que é a demonstração clara de que as bandeiras que um dia o PT levantou e empunhou com muita força e vem deixando baixar não podem morrer. A gente vem se consolidando nacionalmente”, disse.

 

 

Sobre a atuação dos partidos de esquerda em Alagoas, Fleming afirmou que a representatividade de alguns deles em outros estados é grande, mas que aqui “abriram mão do papel de protagonista”. Ele observa que esses partidos passaram a “coadjuvantes” adotando uma postura de partidos de centro-esquerda e de centro direita. “Eles não apresentam uma combatividade nem grandes projetos de transformação”.

Em relação ao PT, Fleming diz que “apesar das mudanças” na metodologia de desenvolver a política, o partido tem grandes nomes no estado, bem como possuem movimentos sociais ligados a ele. “O PT vem se definhando, perdendo musculatura eleitoral em Alagoas. A atual resposta é a eleição para o Legislativo Municipal. O PT fez um vereador em Maceió e dos políticos mais tradicionais, nenhum deles venceu a eleição. Nos últimos anos o PT passou, perdeu espaço e o PSol está aos poucos, com muita humildade, assumindo esse lugar”, colocou.

Questionado se as alianças políticas ajudaram a enfraquecer a esquerda, o professor universitário diz que sim. “Por conta de espaço em TV, em São Paulo, o PT, o Lula, fez uma aliança com Paulo Maluf”, contou ele acrescentando que isso tem reflexo nas bases partidárias espalhadas pelo País. Fleming colocou ainda que o PT fechou parceiras como Fernando Collor e “outros nomes” que o partido ajudou a derrubar. Mas, mesmo enfraquecido em Alagoas, o PT obteve bons resultados no primeiro turno das eleições em outros estados.

E, mesmo com um desempenho diferente de outras localidades nas eleições, as esquerdas possuem grandes nomes, é o que garante Fleming. Ele cita a vereadora Heloisa Helena (PSol) como a grande representante dos grupos com opiniões diferentes dos que estão no poder. Do PT, ele lembra do deputado Judson Cabral. “Ele incorpora mais aquele PT que a gente conheceu um dia”, colocou. “Acho que o Judson tem mais a cara do PSol que a do PT”, frisou Fleming complementando que há muitas pessoas engajadas na militância de esquerda, muitas delas dentro da universidade, mas poucas figuras públicas.

Sobre o futuro da esquerda e o engajamento dos jovens nesses movimentos, Fleming alerta que o importante é educar a juventude para que ela possa ter capacidade crítica, fugindo assim de um mundo “apenas” consumista. “Hoje vemos reuniões de jovens pelas redes sociais em prol de algum objetivo, isso é muito importante. Naturalmente, eles vão se unir por alguma causa seja por melhorias em algum setor, para manifestar a indignação diante de uma injustiça e até situações mais complexas. Isso depende do nível de consciência de cada um. A juventude ainda é a vanguarda de qualquer transformação social”, finalizou.
 

* As fotos que estão inseridas no texto são do acervo pessoal de Geraldo Majella.

>Foto 1 - Comício do PMDB em 1982. A partir da direita: Aldo Rebelo, conversando com o jornalista Freitas Neto, Eduardo Bomfim, Kátia Born e João Honorato, todos na primeira fila.

>Foto 2 - Campanha por eleições diretas para presidente da República. Sentido horário:Na primeira fila: Milton Canuto, presidente do Sindicato dos Professores de Alagoas, Anivaldo Miranda, dirigente do PSB; Freitas Neto (barba e óculos), vereador pelo PCB de Maceió; segunda fila: José Rinaldo, vice prefeito de São Miguel dos Campos ( AL); Tutmés Airan, presidente do Partido dos Trabalhadores de Alagoas; Réa Sílvia Pedrosa, dirigente do PCB-AL; Geraldo de Majella, falando em nome do PCB; Sérgio Barroso, dirigente do PCdoB. Everaldo Patriota à esquerda e Evaldo Moreira, à direita. Nas escadarias da OAB-AL.