A assessoria de comunicação do governador do Tocantins negou neste sábado que Siqueira Campos (PSDB) tinha conhecimento da ligação entre Carlinhos Cachoeira e empresários que doaram dinheiro à sua campanha em 2010. As informações foram divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo, baseadas em investigações da Polícia Federal.
Segundo a nota divulgada pela assessoria, a relação dos doadores com Cachoeira foi conhecida apenas após deflagrada a Operação Monte Carlo. A nota ainda destacou que as doações arrecadadas durante o pleito serviram para pagar despesas decorrentes do processo eleitoral do então candidato a governador. O comitê não era responsável e nem teria condições de investigar a vida dos doadores de campanha, informou a nota.
Outro político suspeito de envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira está sendo investigado no Tocantins. Na terça-feira, o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), deve ser ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Mista do Cachoeira. Ele aparece em um vídeo gravado em 2004 supostamente negociando recursos com o bicheiro em troca de vantagens na administração municipal da capital do Tocantins.
Prestação de contas
Conforme o jornal, de R$ 10,5 milhões de receita declarada à Justiça Eleitoral, R$ 4,3 milhões (41%) foram doados por pessoas citadas na investigação da operação Monte Carlo.
Dentro da prestação de campanha de Siqueira, foi declarado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que R$ 189,1 mil eram provenientes de bens estimáveis e em torno de R$ 12 mil de arrecadações em dinheiro. Conforme a prestação, R$ 2,5 mil, em dinheiro, foram doados pelo próprio Siqueira para sua campanha e R$ 9,5 mil foram arrecadados através de outros candidatos/comitês.
Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.