Durante a sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da última terça-feira, que tentou ouvir Carlinhos Cachoeira sobre as supostas ligações dele com políticos, uma das presenças marcantes foi a do ex-ministro da Justiça e hoje advogado do bicheiro Márcio Thomaz Bastos. Sentado ao lado de Cachoeira, Bastos orientou o bicheiro a permanecer calado durante duas horas. A estratégia de Bastos irritou deputados e senadores, travou o andamento da CPMI e, de quebra, criou uma onda de revolta pela internet.
Artistas e anônimos demonstraram indignação essa semana pela virada na carreira de Bastos: de militante de direitos humanos com participação efetiva no processo de redemocratização do Brasil e ministro da Justiça responsável pela reestruturação da Polícia Federal (PF) e reforma do Poder Judiciário, a advogado de um homem acusado de ser o líder de um esquema de exploração de jogos de azar em Goiás e Distrito Federal, com ramificações em outros Estados.
Até o valor dos honorários pagos por Cachoeira a Bastos passou a ser alvo de especulações: cerca de R$ 15 milhões. Ele não confirma nem nega os valores. Alega ser essa uma questão de foro íntimo. “Dizem que o advogado (de Carlinhos Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos) vai ganhar 15 milhões para defender Cachoeira. Essa dinherama, certamente, vem do arrombamento dos cofres públicos e trambiques nas concessões de serviços e obras do governo. Pensem quantas pessoas foram prejudicadas por essas práticas... Honorários pagos com dinheiro desviado, ilustre causídico, não é uma prática ética e moral”, esbravejou essa semana o cantor Alceu Valença em sua página no Facebook.
Thomaz Bastos afirma não se importar com esse tipo de comentário. “São pessoas que tem uma compreensão diferente da minha do Estado de direito democrático, onde a defesa é tão importante quanto a acusação, e existe o princípio da presunção de inocência, do contraditório, do devido processo legal”, afirmou ao iG.
“Eu fui advogado 46 anos, saí da advocacia para ser ministro durante quatro anos. Quando deixei o Ministério da Justiça, fiz uma quarentena espontaneamente e agora voltei a advogar normalmente, voltei a trabalhar. É um direito constitucional”, complementa. Sobre os honorários pagos a Carlinhos Cachoeira, ele desconversa. “Essa é uma questão interna da minha relação com ele e não falo sobre isso. Eu tenho que dar satisfação é para a Receita Federal”.
Nascido em 1935 e formado em direito pela Universidade de São Paulo em 1958, Bastos ficou conhecido pela sua atuação gratuita em Tribunais do Júri para réus que não tinham condições de arcar com honorários advocatícios. Foram mais de 1.000 beneficiados entre as décadas de 1960 e 1980. Ele também deve destaque a sua atuação como advogado de acusação dos assassinos do líder ambiental Chico Mendes.
Presidente da Seccional de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entre 1983 e 1985, teve participação efetiva no movimento Diretas Já. Em 1992, ele também participou da redação da petição que resultou no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.
Mas após fundar seu escritório de advocacia criminal do país, em meados dos anos de 1990, Bastos e sua equipe sempre teve envolvimento com casos polêmicos. Seu time defendeu o médico Roger Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão por crimes sexuais. Pelo menos 60 mulheres afirmaram terem sido violentadas sexualmente por Abdelmassih em sua clínica, até 2009 uma das mais respeitadas em casos de reprodução assistida do país.
A equipe de Bastos também defendeu os estudantes que durante um trote afogaram o estudante de medicina da USP, Edison Tsung Chi Hsueh, em 1999. Recentemente, além de Cachoeira, Bastos passou a atuar na defesa do estudante Thor Batista, filho do empresário Eike Batista, acusado de ter matado um ciclista após um atropelamento na BR-040.