A rotina do pedestre paulistano tem se tornado mais difícil nos últimos meses. Além de lidar com calçadas irregulares e buracos, surge um novo obstáculo diante das obras e intervenções – muitas vezes realizadas simultaneamente em ruas e avenidas – que dificultam e colocam em risco a passagem. O iG visitou vias das regiões norte, oeste e sul de São Paulo e encontrou obras que inviabilizam uma passagem segura e confortável.
O cenário mais problemático e desigual foi verificado na avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul da capital. Ao caminhar entre o trecho da av. Eusébio Matoso e a rua Campo Verde, o pedestre irá encontrar a calçada classificada como a melhor do País, segundo relatório da campanha “Calçadas do Brasil”, divulgado na semana passada . Porém, já no próximo quarteirão, na rua Gabriel Monteiro da Silva, a calçada plana e espaçosa é logo substituída por um canteiro de obras com pedregulhos e tapumes distorcidos.
O desconforto e presença das armadilhas – como buracos sem total proteção, desnível do solo e passarelas improvisadas – são constantes e podem ser um problema para o pedestre desatento. Karen Tavori, de 27 anos, trabalha há um mês como secretária-executiva e se considera uma malabarista em suas caminhadas pela Faria Lima. “Cada dia provo um tipo de salto para caminhar aqui. Evito os tapumes, eles são mais instáveis que as pedras”, diz a jovem.
O risco só aumenta quando os pedestres desistem de caminhar pelas passarelas e pelas calçadas ainda não concluídas. A reportagem flagrou, por exemplo, uma gestante optando por caminhar com um carrinho de bebê pela rua, na faixa utilizada por ônibus e carros (veja a galeria de fotos). “Acho errado abrir a avenida toda de uma vez, é muito transtorno. Com chuva, isso aqui vira um caos com toda a lama e sujeira. Por isso, a gente acaba passando alguns riscos”, explica a mulher que não quis ser identificada.
Com as obras na região, paradas de ônibus foram deslocadas e houve estreitamento de calçadas. Idelina Assunção, de 69 anos, caminhava pela primeira vez na avenida e se surpreendeu com as atuais condições. “Está muito ruim, quase derrapei e só consegui pensar: ‘Deus me ajude’. Não critico as obras, mas sim como são executadas. Parecem que esquecem os idosos e pessoas que trabalham aqui.”
O bairro de Pinheiros, na zona oeste, também tem sido alvo de intervenções há pelo menos dois meses, dizem moradores e comerciantes. Segundo eles, além das obras “intermináveis” do acesso à Estação Pinheiros do Metrô e da revitalização do largo da Batata, o bairro tem sido “retalhado” por empresas de telecomunicações e energia elétrica.
Comerciantes sentem uma redução expressiva dos clientes já que eles evitam caminhar por áreas com barro e lidar com o pó que as obras produzem. O proprietário do restaurante D’Gosto, Antônio dos Santos, de 54 anos, diz que a falta de informação tem irritado os comerciantes. “Um dia eu cheguei e tinha uma cratera na porta do meu restaurante. Além da sujeira, tinha o perigo de alguém cair ali. Só tinha uma faixa amarela sinalizando o buraco.” Segundo Santos, depois de muito reclamar com os trabalhadores, tapumes e redes foram colocados para interditar o local. “Minha fachada quase sumiu e a calçada tem um espaço mínimo agora, mas pelo menos ninguém corre perigo.”
Na mesma quadra, a rua Gilberto Sabino já registrava a presença de tratores e operários devido as obras do Metrô. Porém, na última semana, a transversal Conselheiro Pereira Pinto desapareceu dentro de um imenso buraco. Quando a reportagem chegou ao local, no início da tarde de sexta-feira (4), não havia sinalização e pedestres estavam perdidos pedindo orientações aos próprios operários. “Parece que estou trabalhando na obra. Desvio dos tratores, disputo espaço com funcionários e ainda tenho de ter cuidado para não cair nesse buraco enorme”, diz o auxiliar de administração Tiago Martins, de 25 anos.
Descaso
Em algumas regiões de São Paulo, o transtorno não acaba quando as concessionárias finalizam a intervenção. O iG encontrou casos de buracos que foram ‘esquecidos’ pelas empresas e, ao acionar a prefeitura, os moradores são obrigados a esperar o prazo mínimo de 20 dias úteis. Esse cenário foi encontrado no bairro Jardins, zona sul, e região da Freguesia do Ó, na zona norte.
Segundo a empresária Heleni Karala, de 68 anos, no cruzamento das ruas Honduras e Chiaferelli, na região sul, o asfalto está cedendo há três meses. “Cada dia está maior e foram os moradores que providenciaram um cone para sinalizar o buraco. A prefeitura disse que precisaria verificar de qual empresa era a obra e até hoje não tive retorno”. Na última semana, Heleni conta que um motoqueiro chegou a se acidentar no local. “Pagamos um IPTU de pelo menos R$ 1 mil e ainda temos que zelar pelas condições das nossas ruas já que a poder público não consegue.”
Ramón Florentino, de 52 anos, tinha um buraco ‘abandonado’ pela Sabesp em frente à sua casa, na rua Cachoeira Alegre, há pelo menos dois meses, segundo ele. “Expliquei o problema durante o atendimento por telefone e me colocaram na espera por 25 minutos. Achei um absurdo”. Florentino decidiu então que a medida mais rápida seria ele mesmo arrumar o “trabalho mal feito” pela concessionária. “Não ficou perfeito, mas fiz por mim e pela vizinhança.”
Outro lado
Procurada pela reportagem, a AES Eletropaulo informou que atua na região da av. Faria Lima, entre a av. Cidade Jardim e largo da Batata, em obras de conversão da rede aérea para a rede subterrânea. “As obras contemplam o enterramento de 1,35 km da rede e devem ser concluídas este ano", disse em nota. A empresa não quis comentar as possíveis falhas de segurança.
Já a Sabesp informou que executa também na região da Faria Lima a terceira etapa do projeto de despoluição do rio Tietê. A tubulação para a coleta de esgotos está sendo ampliada e a previsão de conclusão é o fim de 2013. “A obra é feita em pequenos trechos com o objetivo de causar a mínima interferência no dia a dia da população”, afirmou a assessoria da companhia.
A Prefeitura de São Paulo foi procurada para se pronunciar sobre a fiscalização e a quantidade de obras em andamento na capital. A Coordenação de Subprefeituras e a Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), no entanto, não possuíam um balanço sobre as obras ou buracos presentes na capital.
Segundo a assessoria da Siurb, a quantidade de alvarás ou Termo de Permissão de Uso do Subsolo (TPU) aprovada pela prefeitura para as concessionárias não condiz com o número de obras em andamento já que “cabe a cada empresa decidir quando deverá iniciar uma intervenção”. Elas poderiam atuar dentro do prazo de vencimento do documento, que pode variar de dias ou até anos.