O Brasil reinicia o caminho rumo à volta ao Grupo Mundial da Copa Davis a partir desta sexta-feira jogando em casa e contra um velho "freguês". Nada disso, porém, coloca a equipe verde e amarela como favorita em São José do Rio Preto. Pelo menos é essa a visão da equipe colombiana, que diz ter uma "carta" para confiar nas chances de bater o rival de forma inédita - a vantagem "mental" de Santiago Giraldo contra o tenista número um do País, Thomaz Bellucci.

Durante o Aberto do Brasil, torneio realizado em São Paulo em fevereiro, o Terra entrevistou três dos quatro jogadores convocados para defender a Colômbia no interior de São Paulo entre a próxima sexta e domingo. O confronto é válido pela segunda rodada do Zonal Americano da Davis e classificará o vencedor para disputar em setembro a repescagem do Grupo Mundial.

As conversas foram separadas: primeiro com os duplistas Robert Farah e Juan Sebastián Cabal e depois com Giraldo. Bem-humorado, o segundo brincou diante da pergunta sobre o que pensam os colombianos do retrospecto de sete derrotas e nenhuma vitória diante do Brasil pela competição.

"Pensamos que eles ganham de nós sempre", disse Cabal, rindo. Logo na sequência, Farah adotou um tom mais sério e disse: "pensamos que viemos mais bem preparados que as vezes passadas. Creio que é um momento melhor para confrontá-los e que temos boas chances de ganhar".

"Fregueses" do Brasil, colombianos evoluem no ranking
Farah e Cabal coincidiram na maioria dos pontos citados para defenderem a possibilidade de bater o Brasil. O primeiro aponta que Giraldo e Alejandro Falla, jogadores de simples, "estão no seu melhor nível". "Simplesmente de ver o ranking já sabemos que estamos melhor que antes", reforçaria, depois, Santiago.

A última das sete derrotas da Colômbia no duelo sul-americano veio em 2009 em Tunja, onde nem a altitude de quase 2.800 m serviu para impedir a vitória dos visitantes por 4 a 1. Na época, Bellucci (então o 96 do mundo) venceu Falla (172), Franco Ferreiro (168) venceu Giraldo (129) e Marcelo Melo/Bruno Soares venceram Cabal/Falla - esses resultados, sempre por 3 sets a 1, levaram o Brasil a fechar o confronto melhor de cinco já no sábado.

Três anos depois, a evolução colombiana no ranking mundial é realmente visível. Giraldo ocupa a 55ª posição em simples e Falla, a 56ª. Nas duplas, não haverá mais um improviso, já que Farah e Cabal têm atuado regularmente no circuito profissional e formam a 29ª melhor parceria do ano. Juan Sebastián, inclusive, foi vice-campeão de Roland Garros em 2011, atuando ao lado do argentino Eduardo Schwank.

O Brasil, por sua vez, segue sendo liderado por Bellucci, 45º melhor tenista do planeta, e nas simples terá ainda o estreante em Davis João Souza, o Feijão, 102º. A dupla continua a mesma, porém, Melo e Soares encerraram no fim de 2011 a parceria que havia começado em 2010 e rendeu três títulos de ATP. Nesta temporada, Bruno forma, com o americano Eric Butorac, a 12ª melhor dupla de 2012. Já Marcelo não tem parceiro fixo e voltará a atuar com o colega especialmente para a Davis.

"Temos uma boa dupla, agora é uma novidade, antes não a tínhamos. Creio que é uma equipe mais competitiva, não?", analisou Giraldo. "Sempre que enfrentamos o Brasil eles tinham uma equipe muito completa. Agora temos um time bastante sólido: bons na simples, bons nas duplas", opinou Cabal.

Retrospecto contra Bellucci dá "tranquilidade extra" a Giraldo
Mas não é apenas nessa "novidade" que os colombianos apostam para superar o Brasil. O fato de Bellucci ser o único jogador do confronto com algum título da ATP em simples - conquistou Gstaad em 2009 e Santiago em 2010 - está longe de assustar. É por isso que Cabal não concordou muito quando questionado se o fato de os donos da casa não terem um segundo atleta no top 100 do ranking individual seria a grande oportunidade para ganhar dois pontos e colocar pressão em Thomaz.

"Pode ser que sim, porém de toda maneira Bellucci... é, temos uma carta para ele: Santiago (Giraldo)", disse ele. "Creio que Santiago ganhou dele várias vezes já e, bom, ele já terá suficiente pressão contra essas coisas. (Isso) é importante, sempre há algo mental, ou isso pode por mais pressão em Santiago, não sabemos como será. Essa partida vai ser bastante competitiva".

Avisado, em sua entrevista separada, sobre a opinião de Cabal, Giraldo procurou minimizar o retrospecto. "Thomaz eu conheço desde que temos 13 anos, sempre jogamos contra. Jogamos algumas vezes e foram partidas muito difíceis, porém consegui ganhar, creio que isso é interessante e espero dar os dois pontos meus. Thomaz é um grande jogador, igual a João e os duplistas. Cada ponto é 50% a 50% para cada (tenista)".

O colombiano bateu Bellucci, inclusive, no Brasil pela Davis. Foi por 3 sets a 2 em um confronto do Zonal Americano disputado em Sorocaba, em 2008, e vencido pelos mandantes por 4 a 1. Questionado se essa vitória dá uma "confiança extra", Giraldo mudou um pouco de postura e confirmou.

"Creio que não foi somente essa vez, senão depois. No ano passado pude ganhar duas partidas: as quartas de final de Auckland e a segunda rodada de Barcelona", afirmou, citando espontaneamente as fases dos torneios em que superou Bellucci - na verdade, na Catalunha o duelo se deu na primeira rodada.

Contando nível ATP e Davis, os rivais se enfrentaram três vezes, sempre com vitória de Giraldo. Bellucci, por outro lado, conseguiu um êxito sobre o rival em um evento de segundo nível, no Challenger de Bogotá, em 2007, e perdeu também no Future de Sorocaba, em 2006.

"Sim, te dá uma tranquilidade que o nível é parecido e que possa ganhar dele perfeitamente. Porém sempre foram partidas muito duras. A Davis em casa influi, vamos ver o que acontece, não? Porém sim, me dá uma tranquilidade extra", emendou o colombiano.

Brasil aposta em "altitude" paulista e sonha com retorno à elite
O fato de jogar em casa, realmente, é citado como "uma vantagem grande" brasileira também por Farah. Por ter viajado à Colômbia no embate mais recente, o time do capitão João Zwetsch contará com o apoio da torcida desta vez e teve direito a escolher o piso (saibro) e a sede do duelo.

O técnico queria uma cidade com "um pouco de altitude" para tornar o jogo ligeiramente mais rápido e, por fim, escolheu-se São José do Rio Preto, a uma altura média de 489 m acima do nível do mar.

"As condições de jogo favorecem quem saca bem. O Thomaz tem um saque potente e pode levar vantagem, assim como o Feijão. Os colombianos não têm um serviço tão bom; eles são fortes nas devoluções", disse Zwetsch na última quarta. Bellucci, inclusive, alcançou os melhores resultados da carreira em altitudes ligeiras: foi campeão dos ATPs 250 de Gstaad em 2009 e do de Santiago em 2010 e semifinalista do Masters 1000 de Madri do ano passado.

No interior de São Paulo, o Brasil reabre a tentativa de voltar ao Grupo Mundial pela primeira vez desde 2003. Nos últimos seis anos, o time, que foi semifinalista da Davis em 1992 e 2000, sempre passou pelo Zonal Americano, caindo na repescagem e ficando a uma vitória da elite do tênis - foi derrotado, pela ordem, por Rússia, Índia, Equador, Croácia, Áustria e Suécia.

A Colômbia, por sua vez, não luta apenas contra o tabu diante do Brasil. O país jamais nem sequer participou do Grupo Mundial - a única classificação à repescagem foi em 2010, quando uma derrota por 3 a 1 em Bogotá para os Estados Unidos estragou o sonho dos anfitriões. Giraldo, Falla e Farah participaram daquele duelo, no qual Santiago, então o 61 do mundo, surpreendeu em sets diretos o rival Sam Querrey (o 21), mas perdeu para Mardy Fish (o 19), por 8/6 na quinta parcial.

"Sempre há uma primeira vez e creio que estamos prontos para que seja agora", discursou o "ás na manga" dos visitantes, citando especificamente o retrospecto negativo frente aos brasileiros - a declaração, porém, poderia valer para os dois jejuns colombianos.

Confira todos os confrontos entre Brasil e Colômbia pela Copa Davis:
2009: Colômbia 1 x 4 Brasil - Semifinal do Grupo 1 do Zonal Americano - saibro de Tunja, Colômbia - 8 a 10 de maio
2008: Brasil 4 x 1 Colômbia - Semifinal do Grupo 1 do Zonal Americano - saibro de Sorocaba, Brasil - 11 a 13 de abril
2005: Colômbia 0 x 5 Brasil - Primeira Rodada do Grupo 2 do Zonal Americano - saibro de Bogotá, Colômbia - 4 a 6 de março
1985: Brasil 4 x 1 Colômbia - Semifinal do Zonal Americano - saibro de Porto Alegre, Brasil - 2 a 4 de agosto
1983: Colômbia 0 x 5 Brasil - Quartas de final do Zonal Americano - saibro de Bogotá, Colômbia - 4 a 6 de março
1970: Brasil 3 x 2 Colômbia - Final do Zonal Sul-Americano - São Paulo, Brasil (piso não disponível no site da Davis) - 14 a 16 de junho
1969: Colômbia 2 x 3 Brasil - Semifinal do Zonal Sul-Americano - Bogotá, Colômbia (piso não disponível no site da Davis) - 15 a 18 de maio