Duas explosões atingiram o coração de Damasco neste sábado, matando pelo menos 27 pessoas num ataque a instalações de segurança, cuja autoria foi atribuída pela televisão estatal do país a "terroristas" que buscam prejudicar o presidente sírio, Bashar al-Assad. Carros cheios de explosivos tiveram como alvo a sede da polícia e um centro de inteligência e segurança aérea às 7h30, disse a televisão, destruindo a entrada de uma das construções e fazendo destroços voarem pelas ruas.

Imagens dos locais mostraram cenas da tragédia, com o que pareciam ser corpos queimando em dois veículos diferentes, uma minivan destruída e manchada de sangue. Pelo menos 27 pessoas foram mortas e 140 ficaram feridas, disse o ministério do Interior em nota. "Nós ouvimos uma grande explosão. Nesse momento, as portas em nossa casa explodiram ... apesar de estarmos a uma boa distância do local", disse um idoso, com a cabeça coberta por curativos.

Ninguém assumiu a autoria das explosões, que se seguiram a uma série de ataques suicidas que atingiram Damasco e a segunda maior cidade da Síria, Aleppo, ao longo dos últimos três meses. As explosões acontecem dois dias após o primeiro aniversário da revolta contra o governo, em que mais de 8 mil pessoas perderam a vida e cerca de 230 mil foram forçadas a deixar seus lares, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os ataques também coincidem com uma missão conjunta do governo Sírio, a ONU e a Organização de Cooperação Islâmica que deveria começar a analisar as necessidades humanitárias em cidades em toda a Síria que mais sofreram com os meses de revoltas.

Damasco de Assad desafia oposição, Primavera e Ocidente
Após derrubar os governos de Tunísia e Egito e de sobreviver a uma guerra na Líbia, a Primavera Árabe vive na Síria um de seus episódios mais complexos. Foi em meados do primeiro semestre de 2011 que sírios começaram a sair às ruas para pedir reformas políticas e mesmo a renúncia do presidente Bashar al-Assad, mas, aos poucos, os protestos começaram a ser desafiados por uma repressão crescente que coloca em xeque tanto o governo de Damasco como a própria situação da oposição da Síria.

A partir junho de 2011, a situação síria, mais sinuosa e fechada que as de Tunísia e Egito, começou a ficar exposta. Crise de refugiados na Turquia e ataques às embaixadas dos EUA e França em Damasco expandiram a repercussão e o tom das críticas do Ocidente. Em agosto a situação mudou de perspectiva e, após a Turquia tomar posição, os vizinhos romperam o silêncio. A Liga Árabe, principal representação das nações árabes, manifestou-se sobre a crise e posteriormente decidiu pela suspensão da Síria do grupo, aumentando ainda mais a pressão ocidental, ancorada pela ONU.

Mas Damasco resiste. Observadores árabes foram enviados ao país para investigar o massacre de opositores, sem surtir grandes efeitos. No início de fevereiro de 2012, quando completavam-se 30 anos do massacre de Hama, as forças de Assad iniciaram uma investida contra Homs, reduto da oposição. Pouco depois, a ONU preparou um plano que negociava a saída pacífica de Assad, mas Rússia e China vetaram a resolução, frustrando qualquer chance de intervenção, que já era complicada. Uma ONG ligada à oposição estima que pelo menos 9 mil pessoas já tenham morrido, número superior aos 8 mil calculados pela ONU.