Mesmo estando atrelado, no Brasil, à internet e aos softwares, o conceito de usabilidade extrapola as fronteiras do campo da tecnologia e está em todos os lugares: dos carros aos utensílios domésticos. E é pela tamanha importância da usabilidade que Renato Rosa, CEO da RED - empresa que criou para atuar com experiência de usuários -, acredita que ela já é uma commodity, uma característica básica de um produto, não um diferencial. Mesmo assim, o empresário diz que o Dia Mundial da Usabilidade, celebrado nesta quinta-feira, permanece sendo um bom motivo para reunir interessados no assunto por tudo que a usabilidade carrega consigo e pela necessidade de aculturar o mercado, isto é, re-educá-lo para que assimile o conceito de outra forma.
"A usabilidade não é mais um diferencial, mesmo. É o mínimo. Tu entrar em um site e ele ser acessível, fácil de usar, com uma boa usabilidade, uma boa arquitetura de informação, é o mínimo. Daí sim eu vou partir para uma briga que é: qual o benefício que eu vou entregar para enfrentar meus concorrentes?", acredita Renato Rosa. Há 15 anos no mercado e nome frequente em palestras e cursos sobre usabilidade, arquitetura de informação e design de interação - conceitos que estão ligados à melhor forma de criar um produto pensando na necessidade do usuário - Renato brinca e diz, citando um colega de profissão, que usabilidade é um prato limpo em um restaurante.
Mais voltado para a área acadêmica, o professor e mestrando pela Universidade Metodista de São Paulo, bolsista do CNPQ, Fabio Palamedi, concorda que o conceito de usabilidade é mais amplo do que aquilo que é aplicado à tecnologia e está mais presente na vida das pessoas do que elas imaginam. Ainda assim, ele não acredita que o termo usabilidade possa fazer parte do vocabulário popular, mas a ideia do que é usabilidade certamente já faz parte do dia a dia da população. "As pessoas querem um celular mais simples, os usuários demandam dispositivos multitarefas que sejam fáceis de operar", exemplificou.
A capacidade das empresas de facilitar a vida do usuário, do cliente, no entanto, ainda está em desenvolvimento segundo eles. Conceito relativamente novo no Brasil, do início dos anos 2000, a usabilidade, a experiência do usuário (user experience, em inglês), ainda não faz parte dos processos de produção das indústrias e empresas em geral. Para Fabio, esse é um dos principais obstáculos do campo hoje, pois muitas vezes a usabilidade só aparece no final da concepção e, ao fazer um teste de usabilidade, descobre-se que não era nada daquilo que o cliente esperava.
Rosa também acredita que ainda há atraso em relação ao papel e ao lugar da usabilidade na criação de novos produtos. Em sua opinião, a usabilidade, atribuição de um arquiteto da informação na maioria das vezes, permeia todo o processo. Citando um colega de profissão, ele diz que o arquiteto da informação é o "guardião da experiência". E por isso, explica o empresário, ele devia estar lá no início da produção, ao lado do analista de negócio, pois ele vai ser importante para a confecção dos códigos, no caso dos sites, do design.
Segundo Rosa, o arquiteto de informação, o designer de interação, tem que validar as etapas posteriores ao seu trabalho de pesquisa, de fechar escopo de projeto. "Ele defende a proposta junto do atendimento para o futuro cliente, ele acompanha etapa de direção de arte, ele é o guardião de uma experiência em que qualquer fator que é inerente ao seu trabalho, que pode estar em outras etapas, que for mal projetado, impacta no que ele havia pensando. Hoje ele tem uma importância muito mais estratégica do que pragmática", conta.
"Existe uma regra, do 1:10:100. Se tu investe em usabilidade, tu investe R$ 1 antes de começar o projeto, R$ 10 no meio, na mesma coisa, ou R$ 100 depois de concluído." O erro das marcas, segundo ele, é que elas se posicionam na internet como elas se enxergam, e não como o consumidor as vê. "A internet não é mais proprietária e corporativa, mas social e colaborativa", explica o CEO da RED.
Educação e aculturação
Em consonância com o tema do Dia Mundial da Usabilidade (WUD, na sigla em inglês), a Educação, ambos os profissionais acreditam que a distância entre o mercado e a academia atrapalha essa incorporação e um melhor entendimento da importância da usabilidade por parte das empresas e até mesmo das agências digitais, em se tratando de sites, softwares e etc.
Para Palamedi, os dois se beneficiariam com uma maior interação, mais proximidade. "A academia ganharia cases reais para suas pesquisas, testes de usabilidade, e a indústria teria acesso às pesquisas mais em conta."
"Hoje observo que as pesquisas acadêmicas são conduzidas com fortes bases teóricas e pouca prática laboratorial, enquanto o mercado 'bate cabeça' tentando encontrar formas de tornar os produtos mais competitivos. O maior desafio é que o mercado possa oferecer insumos de pesquisa de caráter prático e experimental, e a academia por sua vez, possa se beneficiar com o crescimento dos seus pesquisadores com estudos de caráter inovador e investigativo", afirma o pesquisador.
Renato Rosa, que atua no mercado, mas frequenta a academia e se considera bastante acadêmico, diz que não existe um buraco, mas um cânion entre academia e mercado. "Sendo bem agressivo com o mercado, vão estudar, né? Falta muito essa capacidade do mercado de parar e falar que vai estudar um pouco, vou pegar um livro e ler um livro. E quando eu chego mostrando para o meu cliente o resultado, um 'calinho' nas vendas dele, ele fala 'nossa, que legal, que bacana, mas como tu conseguiu isso?' Desta forma aqui, eu digo. 'Nossa, como tu é acadêmico', diz ele. E às vezes quando ele diz 'como tu é acadêmico', soa de forma pejorativa, quando deveria ser um elogio. Essa é uma questão do brasileiro, cultural, de achar que a gente não precisa aprender", exemplificou Renato Rosa.
O CEO da RED vai além, na mesma direção de Fabio Palamedi, ao dizer que o problema, neste caso, não é só da usabilidade, mas do Brasil, da falta de educação que fomenta a cultura do improviso. Para Renato Rosa, os insights não existem, uma ideia genial não brota do nada, é preciso pesquisa. Um exemplo citado por ele é o do Twitter, que nasceu pelas mãos de Jack Dorsey, entre outros, depois deste ter passado dois anos observando sua lista de MSN para que finalmente ele pensasse em algo em que as pessoas pudessem falar o que estavam fazendo, como faziam com a frase ao lado do nome no comunicador instantâneo. A ideia de seguir alguém vem da tecnologia RSS, de assinar feeds, e os 140 caracteres dos SMS que só podem ter 160 caracteres.
Com a ausência de uma graduação em arquiteto de informação, ou de design de interação, a área da usabilidade sofre ainda com a dependência, às vezes em excesso, do conhecimento do profissional que aplica um teste de usabilidade. Essa é a opinião de Palamedi, que aponta a necessidade de trabalhar melhor a formação dos novos profissionais. "A usabilidade é uma pesquisa qualitativa dada através da observação. E essa habilidade demanda certo tempo de prática para acontecer", ressalta o pesquisador.
Rosa concorda com o colega, e acrescenta que o que falta hoje é uma entrega premium, séria, de qualidade. "Eu não vi, até hoje, um sitemap (mapa do site) gerado no Rio Grande do Sul nos formatos reconhecidos internacionalmente, do IAI ( Information Architecture Institute). E por quê? Porque as pessoas não precisam fazer na melhor forma possível, fazem como o cliente vai aprovar".
Steve Jobs e a usabilidade
Neste ano, Steve Jobs é o grande homenageado do Dia Mundial da Usabilidade. Conhecido por uma declaração que parece não estar ligada à usabilidade, de que o "cliente não sabe o que quer", ele era, para Renato Rosa, um grande conhecedor do usuário.
"Ele ia à ponta correta. O que existe é um investimento em pesquisa e desenvolvimento nas grandes empresas que parte do aprimoramento de produtos que já existem. Steve Jobs quebrava o que chamamos de modelos mentais. Ele não parte do princípio de uma solução que já existe para aprimorar essa solução, ele esquece isso, vai lá atrás, na necessidade do público. Ele reinventou algumas coisas com base em pessoas, não com base em produtos que já existem. Ele esqueceu regra, plataformas, paradigmas que já existiam e foi lá falar com pessoas", acredita Rosa, que cita o iPhone como o resultado desse processo de Jobs, responsável por uma Era iPhone, de smartphones que seguem o caminho do smartphone da Apple.
No entanto, de acordo com ele, não existe cópia, é normal que os concorrentes corram atrás daquele que se destaca. E cada vez que os produtos são nivelados, alguém novamente investe e se sobressai. "O legal do Steve Jobs é que ele era sempre a crista da onda. O Kindle já existe há muito tempo. A Apple fez o iPad e a Amazon pensou: tenho que fazer uma versão do iPad do Kindle", explicou Renato Rosa.
"Ele tinha a humildade de entender que ele não era usuário, que ele não sabe das coisas, nem a Apple, nem ninguém. Quem sabe das coisas é quem vai usar. Então o que ele fazia? Ele levantava sonhos, aspirações, necessidades, e inventava plataformas que as pessoas não sabiam que podiam existir, mas que facilitavam a vida delas".
Mercado precisa adquirir cultura da usabilidade, dizem analistas
11/11/2011, 04:39 - Brasil/Mundo
Por Redação
Comentários
Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Carregando comentários..