Padilha entra na casa do velho Zuza, desembrulha do papel de pão uma faca de oito polegadas e pede que o velho faça uma bainha. Mestre na arte de fazer selas e arreios, o artesão também se esmerava em produzir bainhas para facas e punhais de todos os tipos. O ateliê era a própria residência dele, na Travessa São José.

Na época, meados dos anos 60, era comum os homens carregarem suas armas na cintura pelas ruas de Paulo Jacinto.

Acontece que Padilha não tinha esse hábito. O ramo dele era a música. O cara tocava trompete nas bandas de bailes, da própria cidade, em Viçosa e Quebrangulo. Sabendo disso, Zuza, do alto dos seus 68 anos, questionou:
– Mas para que você quer essa faca?
– Todo mudo tem uma e eu também quero – rebateu o rapaz.
Depois de refletir, o artesão prometeu:
– Segunda-feira você vem pegar.

Era sexta-feira e o jovem, recém-saindo da adolescência, exigiu:
– Eu quero para hoje à tarde.

Em silêncio, o homem voltou a colocar os óculos e retomou o serviço de decoração de uma cela. Padilha então foi embora, deixando a faca para receber a bainha.

Mal o rapaz saiu e entra na casa Galego Fifita, o filho do velho. A pergunta do pai foi inevitável:
– O que está acontecendo que esse menino veio aqui com essa faca...?
Galego era da mesma turma de Padilha, gostava de tocar clarinete. Diante do questionamento, esclareceu:
– Ele brigou com Vilelinha do Eutrópio, levou a pior e disse que ia matá-lo.

O artesão levantou da cadeira pegou a faca de Padilha, foi à casa de Vilelinha e contou a história para Dona Hermé, a mãe de Hermes Brandão Vilela, o jovem que havia trocado socos com o músico. Ela tranquilizou o artesão, disse que não se preocupasse que a briga teria um final feliz. O velho voltou para casa e à tarde, quando a bainha foi procurada, alegou que não dera tempo fazer. Antes que seu Zuza desse conta, o rapaz pegou a faca que estava sobre uma mesa de canto e saiu às pressas.

Da janela de casa, dona Hermé monitorava os passos de Vilelinha. O rapaz era um jovem louro, paquerador, exímio dançarino e simbolizava bem a juventude rebelde da época.

Vilelinha já havia marcado nova contenda com Padilha para o final da tarde em plena praça. Quando os dois se encontram novamente, a mãe zelosa chega em seguida com um balaio na mão. Puxou o filho pelo braço e disse:
– O meu filho vai receber o castigo que merece quando Eutrópio chegar. Pode ter certeza. Quanto a você, me entregue essa faca para guardá-la que eu vou levá-lo em casa.
Padilha não queria saber de muita conversa, ela então colocou o balaio no chão e disse com firmeza:
– Se você quiser se transformar em um monstro, então mate meu filho, corte ele em pedaços, coloque no balaio, que eu vou levar tudo para seu pai. É isso mesmo que você quer?

Padilha tremeu, começou a chorar... Ela abraçou o garoto, pegou a faca, guardou-a e reatou a paz entre eles. Tudo se resolveu ali. Eram outros tempos, outros valores...
Hoje, assusta a onda de violência que se abateu sobre Paulo Jacinto. Pessoas sendo mortas a tiros no meio da rua. Valentões, vindos não se sabe de onde, estão impondo toque de recolher na cidade, sem que as autoridades locais se mobilizem contra a barbárie. E virou terra sem lei, terra de ninguém?

Os acontecimentos estúpidos dos últimos dias exigem uma união de esforços de toda a sociedade local para restabelecer a paz. E nesse caso, é preciso envolver todos os segmentos, todas as instâncias de poder, sem exceção. Omitir-se nesse processo é fortalecer o crime, a impunidade.

Uma cidade pequena, com um povo bom, não merece esse sofrimento. Que venha a paz, nem que seja no balaio.

* Marcelo Firmino é jornalista, paulo-jacintense e Secretário Municipal de Comunicação de Maceió.