Famosos na política passaram de exceções a figurinhas carimbadas nas disputas eleitorais nos últimos anos. Estilistas, cantores, palhaços, ex-jogadores de futebol ou ex- participantes de reality show povoaram o horário eleitoral gratuito em busca da preferência de eleitores, até então acostumados a candidatos tradicionais e desconhecidos. Na tentativa de explicar essa tendência, especialistas afirmam que a política no Brasil tornou-se um "grande negócio", principalmente para personalidades que perderam sua projeção na mídia ou aqueles que conquistaram fama rápida e não querem largar o osso.
"A entrada na política é uma oportunidade de resgatar ou retomar a sua vida pública", afirma Ana Simão, professora de Ciências Políticas e Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). "A política tornou-se um grande empreendimento, tornou-se um negócio. Essas celebridades estão vivenciando momentos críticos em suas carreiras", explica o consultor político Gaudêncio Torquato, professor titular da Universidade de São Paulo (USP).
A conquista do eleitor, segundo Ana Simão, torna-se mais fácil devido à falta de identidade partidária existente no cenário político no País. "No Brasil, existe uma concepção da política que não é uma concepção partidária. O Voto do brasileiro não é um voto do partido, o que favorece que pessoas se candidatem, por diferentes partidos, sabendo que o voto nela não será um voto partidário, mas um voto pessoal. Isso propicia pessoas sem relação com a política a entrar muito bem na vida pública, conseguindo uma grande votação", afirma.
O consultor Gaudêncio Torquato compartilha a análise e acredita, saturados da política tradicional, buscam candidatos diferentes, independente de sua experiência parlamentar. "Como os tradicionais não trouxeram respostas positivas, o eleitor muda o patamar. É uma busca de inovação, de um novo perfil, em torno de uma nova mensagem. É claro que o risco é muito grande. O artista pode ser bom em sua carreira, mas pode ser um mau político. Porém, as celebridades são consequência de um processo de incultura política. O erro não está neles. Eles são apenas utilizados como meio para os partidos melhorarem suas performances. O erro é da própria política. Uma política paternalista, patrimonialista, fisiológica e com todas as suas mazelas clássicas", afirma Torquato.
Já para o professor Pedro Paulo Funari, docente titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Estudos Avançados na mesma instituição, a candidatura de "famosos" é negativa para o processo eleitoral do Brasil. "Pessoas famosas não são mais aptas para representar as pessoas do que as outras. Ao contrário, com o nosso sistema eleitoral, um famoso pode eleger um grande número de desconhecidos e, em potencial, com dívidas na Justiça", diz ele, ponderando que a eleição de celebridades ou subcelebridades não pode ser considerada uma tendência momentânea. "Não é periférica, pois elegem, no nosso sistema, diversos obscuros perigosos. Famosos sempre foram eleitos, apenas hoje isso se tornou mais evidente e ampliado".
A sociedade do espetáculo
Funari acredita ainda que essas figuras conhecidas são motivadas a disputar uma eleição por três fatores: psicológicos, tecnológicos e históricos e sociais. "Para o indivíduo, em uma sociedade de massa, sair da mídia é morrer. Por isso, a política é uma via para continuar em evidência. Em termos tecnológicos, isso é o resultado da sociedade de mídia, da comunicação, que permite e fomenta a fama e a efemeridade. Em termos históricos e sociais, isso resulta e testemunha a espetacularização da política e seu esvaziamento de conteúdo. Espetáculo, pois é um entretenimento. Esvaziamento, pois o que importa não é o tema, mas aparecer".
Ana Simão reforça essa tese e acredita que a motivação de celebridades e subcelebridades, bem como sua eleição, são orientadas pela atual "espetacularização" do cotidiano. "Há muitas análises que mostram a sociedade contemporânea como a sociedade do espetáculo. Saímos um pouco das características do Estado brasileiro, com suas complexidades, e entramos uma leitura de outra ordem, que é a espetacularização do cotidiano. Seria outra resposta, outro debate", afirma.
Ela defende, no entanto, que o brasileiro sabe votar, independentemente de uma oferta de candidatos sem qualquer ligação com a política ou atividades legislativas. Para a professora Ana Simão, a urna segue como a melhor resposta para candidatos considerados "duvidosos", independente se o voto é de protesto ou de deboche.
"Brasileiro acho que sabe votar, sim. Não me filio àquela tese que o brasileiro não sabe votar sim. Se analisarmos as últimas eleições, me parece que esse voto é racional. O Congresso tem muito da nossa cara. Encontramos pessoas como o Tiririca e pessoas com um trabalho muito sério", afirma.
Torquato segue a mesma linha. "A cada eleição existe um pequeno avanço. O eleitor procura escolher melhor, fazer uma distinção entre os perfis. Tiririca teve um pouco de protesto, gozação, houve uma junção de fatores. Não acredito que tenha sido só voto de protesto, não", afirma.
Soninha disputará prefeitura pela 2ª vez
Ex-vereadora pelo PT, Soninha Francine, 44 anos, lançou neste sábado, em evento na Câmara Municipal de São Paulo, a sua pré-candidatura à prefeitura pelo PPS. Polêmica por defender o uso e a descriminalização da maconha, por revelar ter feito um aborto e posar seminua para uma revista masculina, a jornalista ficou conhecida como VJ do canal MTV Brasil e sempre demonstrou interesse maior na política. Em 2004, se candidatou pela primeira vez e foi eleita vereadora, com quase 51 mil votos.
Em 2006, disputou uma vaga na Câmara Federal, ainda pelo PT, mas não teve o mesmo sucesso nas urnas. Dois anos depois, em 2008, concorreu pela primeira vez à prefeitura de São Paulo, agora filiada ao PPS. Um ano depois foi nomeada subprefeita da Lapa por Gilberto Kassab (atual PSD), sucessor de José Serra na gestão municipal, onde ficou até 2010.
Fora da disputa ao governo do Estado paulista por decisão de seu partido, o PPS, que na ocasião oficializou apoio à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), Soninha Francine assumiu a coordenação na internet da campanha de José Serra à Presidência. O tucano perdeu as eleições para a petista Dilma Rousseff, que teve Marcelo Branco, ex-diretor da Campus Party Brasil, como o coordenador na web. A disputa de 2012 será uma nova tentativa de Soninha de voltar a um cargo eletivo.
Famosos eleitos e subcelebridades candidatas
O polêmico estilista Clodovil Hernandes foi eleito deputado federal em 2006 com a terceira maior votação do Estado de São Paulo. De quebra, arrastou para o Congresso o coronel Paes Lira, seu colega no nanico Partido Trabalhista Cristão (PTC). No mesmo ano, o cantor Frank Aguiar, conhecido como o "cãozinho dos teclados", também chegou à Câmara Federal para representar São Paulo. Em 2010, o palhaço Tiririca teve a preferência de mais de um milhão de eleitores. Flertando com o deboche, sua campanha utilizava slogans como "vote em Tiririca. Pior que tá não fica" ou "Você sabe o que faz um deputado federal? Eu também não sei. Vote em mim que eu conto depois".
Recentemente, para a disputa das eleições municipais, em 2012, foram anunciados como pré-candidatas a vereadora a ex-BBB Priscila Pires, em Campo Grande, e a cantora Rosanah, no Rio de Janeiro. Nos anos 80, ela ficou conhecida pelo hit O Amor e o Poder, com os versos "Como uma deusa, você me mantém...". O palhaço Tirulipa, filho do deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR), o Tiririca, também será candidato à Câmara Municipal, em Fortaleza (CE).