Em um momento de reflexão sobre sua atuação política, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), 81, afirmou nesta quinta-feira na tribuna da Casa que a "a paixão pela vida pública é mais forte que a paixão da vida". Sarney disse ter visto ontem que, mesmo diante de "tensões e emoções", estava cumprindo seu dever.

A reflexão, disse, ocorreu após a votação da nova distribuição das receitas de petróleo, que durou mais de cinco horas.

"Senadores, ontem à noite, umas 11 horas [da noite], quando eu presidia a sessão, eu me perguntei a mim mesmo, na minha idade, depois de tanto tempo, eu ali estava debaixo de tensões, emoções, mas procurando cumprir com o meu dever. Então, a minha reflexão foi uma só: a de que a paixão pela vida pública é mais forte do que a paixão da vida." A fala do senador foi a introdução de um discurso para defender a revisão do código penal e questionar a violência e a impunidade no país. Nesta semana, o peemedebista instalou uma comissão de notáveis para analisar propostas que vão discutir a legislação penal do país. O trabalho deverá ser concluído em 180 dias.

Dizendo que se sentia falando como um jovem deputado, Sarney disse que a violência é uma preocupação para todos os brasileiros. Ele lembrou que o Código Penal é de 1940.

O peemedebista disse que o país conta com 117 Leis Penais em vigor, com 1.757 crimes e contravenções. "Ora, meu Deus, com 117 Leis Penais e com 1.757 tipos de crimes, vamos verificar o que pode ocorrer dentro do universo dessa natureza. Talvez aconteça aquilo que Montesquieu dizia: 'muitas leis, nenhuma lei.'"

Sarney disse que ficou "chocado" ao ver o mapa da violência do país de 2008. "Os números de violência no Brasil são profundamente alarmantes. Calculem que, com 3% da população mundial, o Brasil tem 12% dos homicídios do mundo.

O presidente do Senado disse que há uma banalização do crime hediondo e que esse problema na legislação penal tem efeito na violência em todo o país.

"Com a minha experiência de vida pública, eu quero apontar para a reflexão do país que isso é responsável, em grande parte pelo número que nós temos hoje nas estatísticas de crime no Brasil. Isso está na base da violência e quando se fala em impunidade nós devemos colocar em primeiro lugar que a nossa Lei Penal coloca isto dentro da sociedade brasileira."

E completou : "Os criminosos são soltos. Condenado a 30 anos sai para se defender, como se não tivesse nada com ele."

O discurso de Sarney mobilizou o plenário por quase uma hora. Vários senadores parabenizaram o presidente da Casa após sua fala.

Sarney, que está na carreira política há mais de cinquenta anos, já admitiu que não concorrerá mais a cargos eletivos após o fim do seu mandato, em 2014.