Dois estrangeiros estão há duas semanas isolados em uma ala do aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, sem poder entrar oficialmente no Brasil ou voltar para casa. Eles querem ser aceitos como refugiados, mas a Polícia Federal vê indícios de fraude.

Os homens dizem que chegaram ao aeroporto duas semanas atrás. Por telefone, Bishwas Raj conta que eles são do Butão, um pequeno país da Ásia. Ele contou que vive com a família no Nepal como refugiados de perseguição étnica, e que teria abandonado o país com o tio, Ganesh Raj, com a intenção de seguir para os Estados Unidos. Mas o plano deu errado porque um terceiro homem - que viajava com eles - teria roubado todo o dinheiro e os documentos.

“Ele pegou nossos documentos, nós não temos nenhum documento”, diz Bishwas. Agora, ele e e Ganesh estão numa situação muito parecida com a do personagem que Tom Hanks interpretou no filme “O Terminal”. Um cidadão de um país fictício que ficou retido em um aeroporto americano. Nessa situação, eles podem circular apenas num setor chamado de conector, uma área de transferência para passageiros em trânsito. Não têm como voltar para o país de origem nem como sair para as ruas.

Bishwas afirma que procurou a Polícia Federal imediatamente para pedir ajuda, mas que nem comida recebeu. “Não nos deram nada para comer. Vamos ficar doentes, não temos comida, nem dinheiro para comprar”, diz Bishwas. Ele e o tio pedem ajuda para ficar no Brasil. “Nós queremos ficar aqui como refugiados. Nós gostaríamos de ser refugiados. Aqui é um bom lugar.”

A Polícia Federal afirma que os estrangeiros estão mentindo. “Essas pessoas trazem numerário consigo. Da mesma forma que estão omitindo seus documentos, suas identidades, eles podem estar escondendo dinheiro”, diz o delegado Antonio Wagner Castilho. Ele diz ainda que os estrangeiros não pediram para serem reconhecidos como refugiados. “Eles só disseram que não pretendem voltar ao Nepal porque lá não conseguem emprego e gostariam de trabalhar no Brasil. O pedido de refúgio conforme a lei tem que ser expresso, eles tem que pedir refúgio.”

Antes de decidir o que será feito com os dois homens, a polícia vai investigar quem eles são. O Brasil segue convenções internacionais. O estrangeiro que chega aqui pode pedir o reconhecimento de refugiado à Polícia Federal. Nesse caso, ele é encaminhado a abrigos de entidades vinculadas à ONU, enquanto aguarda o julgamento do pedido no comitê nacional para os refugiados. Todo o processo pode demorar.

Uma funcionária do posto de atendimento ao migrante do aeroporto recebeu comida para ser doada aos dois estrangeiros e conversou com eles. “É um setor que não tem muitas condições para acolher um viajante por muitos dias. Temos algumas cadeiras dispostas, um bebedouro de água, toalete. Hoje tivemos contato com eles que disseram que têm o desejo de ficar no país”, diz Rejane Costa.

A funcionária do posto disse também que Bishwas e Ganesh não são os primeiros a ficarem retidos nessa aera de transferência chamada de conector. Segundo ela, é comum encontrar estrangeiros lá. Alguns ficam por meses. E acabam sem comida.

“Tivemos uma situação anterior envolvendo duas adolescentes que ficaram 10 dias sem alimentação, estavam há 30 dias nesse local. Então, assim, tudo o que foi vivenciado e constatado pela equipe será reportado aos órgãos competentes para as providências”, diz Rejane.

O governo brasileiro assinou convenções internacionais que protegem os refugiados. O estrangeiro que chega ao Brasil pode apresentar o pedido de refúgio aos agentes da Policia Federal. A lei determina que ele seja encaminhado a abrigos, enquanto aguarda o julgamento do pedido no comitê nacional para os refugiados.