O novo poder da Líbia conta com poucas mulheres, muito menos do que no regime de Muammar Kadafi, e em um país tradicionalmente conservador, algumas moradoras de Trípoli estão preocupadas com esta situação. "Estou preocupada, os Irmãos Muçulmanos podem vir de Benghazi e decidir que as mulheres devem usar o hidjab" (véu islâmico), declarou Faten Mohammad al-Nabi, uma estudante de comércio exterior de 20 anos de idade.

Os líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT) minimizaram a presença de islamitas no poder. Eles afirmam que alguns membros do CNT são, como muito líbios, muçulmanos praticantes e conservadores. Faten ressaltou que Benghazi, sede do CNT desde o início da revolução na Líbia, sempre foi uma cidade mais conservadora do que a capital, onde as mulheres se vestiam como queriam nos tempos do governo de Kadafi.

"Trípoli sempre foi mais liberal", afirmou. As mulheres nunca foram obrigadas a usar o véu, tinham total liberdade de locomoção e participavam da vida política e econômica. "Na realidade, Kadafi preferia as mulheres aos homens", disse a estudante. O ex-presidente do país sempre confiou sua segurança a mulheres, que constituíam inclusive sua guarda pessoal.

Entre as figuras do antigo regime havia muitas mulheres como Hala Misrati, jornalista e apresentadora de televisão que com uma pistola prometeu diante das câmeras defender o governo, e Huda Ben Amer, conhecida por seu papel no enforcamento de opositores. Centenas de mulheres se formavam todos os anos na academia militar.

"Nós tínhamos direitos nos tempos de Kadafi e ganhamos mais liberdade nos últimos anos", afirmou Hanán Mohamad Ali Abusah, 29 anos, que figura entre os primeiros oficiais que retomaram seus postos de trabalho depois da tomada da capital pelas forças do CNT. Hanán declarou que não está preocupada com a possibilidade de um avanço do islã conservador, e considera que as mulheres "terão mais oportunidades a partir de agora".

Outras reclamam do fato de apenas uma mulher fazer parte da liderança do CNT e nenhuma entre os ministros do poder executivo. "Eu critico a ausência das mulheres no Conselho", afimou Samia Shamaq, que organizou na segunda-feira uma reunião de amigos para discutir o papel das mulheres na nova Líbia.

"Deveria haver mulheres no CNT porque elas formam o vínculo fundamental da sociedade", sustenta Aya Diribubri, jovem de 26 anos que trabalha em uma loja de vestidos de noiva e não utiliza o véu mesmo com uma clientela conservadora. Aya afirmou que não hesitará em usar o véu se o governo e a sociedade se tornarem mais conservadores. "No final das contas, a Líbia é um país muçulmano, e a segurança é mais importante do que a liberdade", afirmou.

Aqueles que falam em fundamentalismo tentam aterrorizar e dividir a sociedade, acredita Rayan Diab, estudante de 20 anos. "É apenas uma tática para dividir nossos homens", disse.

Líbia: da guerra entre Kadafi e rebeldes à batalha por Trípoli
Motivados pelos protestos que derrubaram os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em fevereiro para contestar o coronel Muammar Kadafi, no comando desde a revolução de 1969. Rapidamente, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas de leste a oeste.

A violência dos confrontos gerou reação do Conselho de Segurança da ONU, que, após uma série de medidas simbólicas, aprovou uma polêmica intervenção internacional, atualmente liderada pela Otan, em nome da proteção dos civis. No dia 20 de agosto, após quase sete meses de combates, bombardeios, avanços e recuos, os rebeldes iniciaram a tomada de Trípoli, colocando Kadafi, seu governo e sua era em xeque. Na dia 23 de agosto, os rebeldes invadiram e tomaram o complexo de Bab al-Aziziya, em que acreditava-se que Kadafi e seus filhos estariam se refugiando, mas não encontraram sinais de seu paradeiro. De acordo com o CNT, mais de 20 mil pessoas morreram desde o início da insurreição.