Apesar do histórico de violência da organização terrorista ETA, o maior atentado na Espanha é da autoria da Al-Qaeda. O dia 11 de março de 2004 era uma quinta-feira normal de trabalho para muitos cidadãos e de expectativa para os políticos, uma vez que as eleições gerais aconteceriam no domingo seguinte.
Foi bem cedo que a rotina na capital espanhola se rompeu, no horário de pico de trabalhadores e estudantes. Às 7h37 da manhã três bombas explodiram num dos vagões de trem da estação central de Atocha. No minuto seguinte duas bombas explodiram na estação de trem El Pozo del Tío Raimundo e outra na estação Santa Eugênia. Depois dessas seis bombas que explodiram na mesma linha que leva os trabalhadores da periferia de Madri até o centro da cidade, ainda viriam mais quatro que explodiram alguns segundos depois na rua de Téllez, matando 64 pessoas a 500 metros da estação de Atocha.
Num primeiro momento foi divulgado o número de 202 mortos e os feridos, levados a vários hospitais da cidade. Próximo a Rua Téllez, num centro esportivo, foi instalado um centro de emergência para atender os feridos. Neste dia morreram 191 pessoas, 177 morreram na mesma hora da explosão, e outras 1847 ficaram feridas. O caos e o pânico invadiam as plataformas das estações a cada nova bomba que explodia e se instalaram em todo sistema de transporte da capital espanhola. A polícia bloqueou as ruas próximas à estação onde os feridos esperavam para serem atendidos.
Umas das pessoas gravemente atingidas pelas três primeiras bombas foi Monica Sanchez García, que estava na plataforma de Atocha esperando o trem para ir ao trabalho. A explosão a deixou em coma instantaneamente, além de provocar lesões em diferentes partes de seu corpo. Monica só acordou um mês e meio depois, sem parte da audição em um dos ouvidos e surda do outro. Além disso, ela, mãe de uma menina, estava grávida e perdeu o bebê pelo impacto da explosão. Foram 4 anos até a sua recuperação, mas como trabalhava no departamento de atenção ao cliente de uma multinacional e passava todo o expediente ao telefone, perdeu o emprego e ainda não conseguiu uma empresa que aceitasse sua deficiência auditiva. "Além das sequelas físicas, tenho que estar à margem da sociedade por algo que não tive culpa", conta Monica.
A sexta bomba matou Jorge, filho de Isabel Casanova Ortega, que tinha 22 anos e estava no trem indo para a faculdade. Ele cursava manutenção de empresas no Colégio Salesiano quando foi atingido na estação Santa Eugênia. "Passei todo o dia 11 procurando meu filho e o encontrei somente dia 12, no pavilhão 6 do IFEMA (pavilhão de exposições de Madri para onde foram transportados os corpos das vítimas mortais)", explica Isabel entre lágrimas.
Primeiras notícias e ação policial
As transmissões nas rádios e as primeiras imagens invadiam as emissoras e a internet, fazendo com que mais gente se apavorasse. "Foi uma angústia sem limite, o caos e a desorganização. E a culpa não foi da polícia, nem dos bombeiros, nem dos serviços de emergência e sim de quem não soube coordená-los", explica Pilar Manjón, presidente da Associação 11-M Afetados pelo Terrorismo e mãe de Daniel Paz Manjón, que morreu em 2004 aos 20 anos após a explosão na estação de El Pozo.
Num primeiro momento foi divulgado o número de 202 mortos e os feridos, levados a vários hospitais da cidade. Próximo a Rua Téllez, num centro esportivo, foi instalado um centro de emergência para atender os feridos. Em vários hospitais e nas unidades móveis da Cruz Vermelha as pessoas entraram na fila para doar sangue a quem precisasse. Todas as linhas de trem foram bloqueadas e ninguém podia se mover, sem saber o que tinha acontecido, deixaram em alerta o sistema telefônico espanhol que teve um boom no número de ligações de parentes e amigos em busca de informações sobre seus entes queridos. As forças de segurança reforçaram a vigilância no aeroporto de Madri, mas todos os vôos saíram e chegaram no horário previsto.
Antes das 10 horas da manhã a Polícia Nacional e especialistas explodiam de forma controlada mais três bombas em diferentes vagões. Uma quarta foi encontrada numa mochila foi levada para análise, de onde se confirmou que tinha 0,5 kg de explosivo plástico, um detonador e um celular que fazia às vezes de temporizador. Às 10h30 foi encontrada uma caminhonete que havia sido abandonada às 7h perto da estação de trem de onde partiram as bombas em Alcalá de Henares, na periferia de Madri. No veículo havia, além de material para construir explosivos, uma fita gravada em árabe com trechos do alcorão. No dia 13 de março três marroquinos - entre eles Jamal Zougam, considerado um dos autores - e dois indianos foram presos.
Reação da população
Ainda dia 11 muitos populares se manifestaram nas ruas, muitas lojas fecharam mais cedo em solidariedade aos protestantes. Mas a grande passeata ocorreu no dia 12 de março. Mais de 11 milhões de pessoas em diferentes cidades espanholas se manifestaram com cartazes que diziam entre outras coisas, que "Todos íamos neste trem" e "ETA não!", "Al-Qaeda não!". O príncipe Felipe e suas irmãs Cristina e Elena se uniram à manifestação em Madri junto a mais de dois milhões de pessoas. Foi a primeira vez que um membro da família real participava de um protesto popular.
Poucas semanas depois, a polícia cercou vários membros do grupo terrorista responsável pelos atentados em Leganés, uma cidade próxima a Madri. Alguns dos indiciados se mataram durante a ação e morreu também um agente policial, considerada a 192ª vítima do terrorismo da Al-Qaeda em Madri. As primeiras homenagens às vítimas surgiram de forma espontânea, com flores nos locais onde as bombas explodiram. Fitas negras em bandeiras espanholas, ônibus, carros, nos casacos das pessoas também lembraram o luto que o país vivia.
Na catedral de Almudena, a principal em Madri, houve o primeiro funeral coletivo e centenas de pessoas acompanharam a missa do lado de fora. Em Alcalá de Henares, cidade da periferia da capital espanhola onde moravam muitas das vítimas, quase mil pessoas estiveram no funeral que aconteceu numa quadra de esportes. Pouco tempo depois dos atentados o governo abriu concurso público para a criação de um monumento em Atocha, estação central de Madri. Um total de 283 pessoas de diferentes países se inscreveram, e a proposta vencedora foi "A luz dedica um momento do dia a cada ausente". A sala está na estação central de Atocha, em Madri e pode ser visitada todos os dias.
No centro esportivo próximo à Rua Téllez, onde muitos receberam os primeiros socorros, hoje há uma placa em homenagem a todas as vítimas. Na Estação El Pozo, onde muitos morreram, foi inaugurado em 2011 um monumento em pedra. E assim, em diferentes cidades da Espanha, praças e bosques receberam nomes e homenagens às vítimas do atentado de 11 de março. Na música, na literatura e nas artes plásticas também foram muitas as homenagens que partiram de diversos grupos, como o painel com 192 corações com os nomes das vítimas feitos com a técnica de patchwork, que hoje está na Associação 11-M Afetados pelo Terrorismo. (enviei foto do painel)
O julgamento
Condenados como autores, Jamal Zougam e Otman el Gnaoui pegaram 42.917 anos de prisão cada um por 191 assassinatos e dois abortos, 1.856 tentativas de assassinato, 4 crimes com fins terroristas e formação de quadrilha. Condenado a 34.715 anos em regime fechado, José Emilio Suárez Trashorras foi considerado cooperador necessário. Culpados por fazerem parte do grupo terrorista, outros nove homens pegaram de 9 a 23 anos de prisão; por colaborarem com os terroristas, três homens pegaram 2 dois a 10 anos em regime fechado; e, por estarem relacionados aos explosivos, três homens terão que cumprir de 3 a 4 anos de cadeia.
Os gastos com segurança em aeroportos, estações de trens, metrôs e ônibus aumentaram em toda a Espanha, ainda que as autoridades oficiais, alegando questão de segurança, não quisessem nos informar o aumento total no investimento feito pelo governo. O Partido Popular, considerado pela população como culpado do atentado por ter apoiado a guerra do Iraque perdeu as eleições no mesmo ano. A Espanha concedeu visto de residência a 900 vítimas e familiares, além de ter pagado mais de 44 bilhões de euros em indenizações. Ainda hoje, sete anos depois, há uma mulher em coma.