Basta dizer uma única palavra para que o mestre João Pereira de Lima, ou João de Lima das Alagoas, como ele gosta de ser chamado, comece a criar. Em poucos minutos, dezenas de estrofes e rimas feitas pelo senhor de 68 anos já pairam no ar. A inspiração é constante e nas mãos do talentoso artista, pode virar música, poesia ou cordel. Assim como o formato, os temas também são variados – os mais citados, porém, são a saudade e a infância no campo, assuntos que muitas vezes acabam por se combinar.

A preferência tem explicação: as imagens de Porto Real do Colégio, onde nasceu e se criou, continuam fortes na mente do violeiro, cordelista e trovador. Foi na cidade que ele começou a vida artística. Ainda criança, acompanhava o pai, que era cantador, nas festas pelas fazendas do município e, ensinado pelos primos, aprendeu a tocar e afinar sua viola. A profissionalização aconteceu mais tarde, por volta dos 20 anos, quando decidiu tentar a vida em Maceió.

Já na capital alagoana, conheceu o médico e folclorista Théo Brandão, que o levou para cantar em uma rádio pela primeira vez – a escolhida foi a Difusora AM. A empreitada deu tão certo que ele virou atração do programa A Hora dos Municípios, transmitido para todo o Nordeste. “Recebíamos umas 500 cartas por dia pedindo para que eu fizesse rimas”, relembra o mestre, que acaba de ser selecionado pela Secretaria da Cultura (Secult) como Patrimônio Vivo do Estado.

De Alagoas para o mundo

Com o sucesso, outros convites começaram a aparecer. Logo o violeiro e trovador ganhou não só o Estado, mas também o País. “Já me apresentei em rádios e televisões de quase todo o Brasil, inclusive pelo projeto Minerva, do governo federal. Também já cantei no Silvio Santos, no Jô Soares e na cabine da rádio Globo no Maracanã durante a transmissão de um jogo”, conta, com orgulho, João das Alagoas, acostumado a mandar cartas e postais de Alagoas para rádios de todo o mundo.

Junto com o reconhecimento, as participações especiais renderam também outro fruto: oportunidades para a carreira. Foi quando estava em turnê pelas emissoras do Recife que uma gravadora reconheceu seu talento e o chamou para fazer a primeira gravação. O lançamento aconteceu em 1977, com um disco repleto de músicas autorais. De lá pra cá, ele já lançou três LPs, seis CDs e diversos DVDs de entrevistas, além de escrever incontáveis repentes, poesias e cordéis.

A trajetória do mestre é extensa e se completa, ainda, com os ensinamentos aos jovens – que, segundo ele, são direcionados não só para a juventude. “Já ensinei pessoas de todas as idades; até cantadores antigos já foram meus discípulos. Sempre que alguém me procura querendo uma dica, dou com o maior prazer. Também vou muito a escolas. Faço versos com conselhos para as crianças sobre questões como fumo e violência”, diz ele, que, além dos 47 anos de carreira, também já foi lavrador e comerciário.

Tanto trabalho, porém, não deve acabar nem tão cedo porque, se depender da vontade de viver de João de Lima, sua história será ainda mais longa. “Quero viver uns mil anos, só que com a mente sadia e sem rugas”, brinca ele, que até embolada sobre o tema já fez. “Vou viver quinhentos anos / Quem quiser somar que some / Quando eu morrer viro santo / Meu corpo a terra não come (...) / Cantando lá no céu aumentarei meu cartaz / Daqui mais quinhentos anos lá eu cantarei em paz / Quem estiver apressado, vá na frente, eu vou atrás”, canta o mestre, pedindo que o desejo seja atendido.