O ETA (Euskadi Ta Askatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade, em basco) não é mais um perigo para a Espanha. Não oficialmente, depois que o grupo separatista disse não ao terrorismo no dia 10 de janeiro deste ano. Mas há quem duvide de que a palavra deles seja lei. Afinal, por muitos anos atentados terroristas e emboscadas contra representantes de opositores mataram mais de 800 pessoas e assustaram a muitos outros.

"Com a declaração deles dizendo que agora a violência não é mais necessária eles estão dizendo também que antes a violência era algo imprescindível para que eles chegassem ao seu objetivo. Ou seja, de certa maneira, se exculpam dos assassinatos que cometeram e colocam a culpa nas vítimas como pessoas que tiveram que morrer para que um dia o ETA chegasse à não-violência", explica Rogelio Alonso, professor de Ciências Políticas da Universidade Rey Juan Carlos de Madri.

O anúncio de janeiro foi a 12ª proclamação de fim da violência. O mal-estar foi uníssono na Espanha. Ninguém entendeu muito bem se podiam acreditar nas palavras da organização terrorista que já rompeu várias promessas de cessar-fogo no passado. O governo, por sua vez, endureceu e disse que o anuncio não seria suficiente ante o largo caminho do ETA.

"A propaganda terrorista não para de construir ficções sobre a realidade ao dizer e repetir que pela primeira vez rechaça a violência. Esse anúncio já foi feito algumas vezes, mas pouco tempo depois eles mesmos caíram em suas mentiras ao realizar um atentado. Essa foi só mais uma estratégia para que o partido político que eles queriam criar fosse aceito pela sociedade. Com o partido aceito seria muito mais fácil voltar a agir com a intensidade dos anos 80", completa Rogelio.

Apreensões, detenções e julgamentos após o anuncio de paz
Apesar das promessas de paz, o governo espanhol segue sua postura dura contra o terrorismo. Este ano já foram presos 37 supostos membros, e em abril foram recolhidos mais de 1.600 kg de material para fabricação de explosivos. Segundo as autoridades, as apreensões recentes representam "o maior estoque do ETA encontrado até o momento". Além disso, outros 200 kg estão sob o poder da polícia espanhola.

Em julho esteve sob julgamento Garikoitz Aspiazu Rubina, mais conhecido como 'Txeroki'. TRata-se de um ex-líder militar do ETA, que ainda tem muita influência sobre a organização terrorista e declarou em nota durante prisão temporária que a violência não é o melhor caminho para se chegar aos objetivos do grupo basco. Para ele se pedem 15 anos de prisão. "Se negou a declarar durante o julgamento e sorria durante todo o tempo em que as testemunhas falavam. Essa é só mais uma mostra de que os membros do ETA não são confiáveis", afirma Rogelio Alonso.

História e reivindicações
O grupo terrorista foi fundado em julho de 1958 por estudantes nacionalistas que lutavam contra a falta de ação do Partido Nacionalista Basco (PNV) durante o governo franquista. Desde o início seus membros reivindicavam a valorização da cultura, bem como dos fatos históricos, a independência e criação de um Estado próprio no norte da Espanha e sudoeste da França.

Os assassinatos cometidos por seus membros são na maioria das vezes selecionados, sendo seus alvos principalmente autoridades do governo, políticos, juízes, jornalistas, empresários e cidadãos comuns. O primeiro atentado mortal reivindicado pelo ETA aconteceu em 1960 contra uma criança, por isso, na Espanha, este é o dia nacional contra o terrorismo. Em 1973 eles mataram o sucessor do ditador espanhol Francisco Franco (1892-1975), almirante Luiz Carrero Blanco, ação que foi aplaudida por muitos exilados políticos.

Mas os atentados mais sangrentos cometidos pelo grupo começaram a ocorrer na década de 1980, quando o ETA tinha sua maior renda anual, o equivalente a cerca de 25 milhões de euros. Em 1987, a explosão de um carro-bomba em um centro comercial de Barcelona matou 21 pessoas e deixou 45 feridos. No ano anterior, outro veículo com explosivos havia matado 12 pessoas em uma praça de Madri, capital espanhola.

Depois disso, os atentados não cessaram, mas perderam intensidade. Em 1995, um carro-bomba do grupo por pouco não matou o ex-premiê José Maria Aznar, então líder do Partido Popular. Mesmo depois de perder boa parte da receita anual, em 2003, o ETA continuou na mesma linha de atentados. Em 2006 o atentado no aeroporto de Barajas em Madrid que matou duas pessoas foi o ultimo após uma promessa de paz.

Segundo o Mikel Buesa, especialista em economia do terrorismo e cujo irmão foi morto pelas milícias, o atentado mais importante cometido pelo ETA foi o de Miguel Angel Blanco, já que causou maiores conseqüências econômicas para a região.

ETA sob a marca de partidos políticos
No início da transição de poder, logo após a queda do ditador espanhol Franciso Franco em 1977, o ETA criou seu primeiro partido político, o Euskal Iraultzarako Alderdia (Partido para a Revolução Basca) e participou das eleições, ainda que sem êxito.

Na década de 1980, os objetivos do ETA foram defendidos no plano político pela coligação Batasuna, antes denominada Herri Batasuna (HB) e Euskal Heritarrok (EH), que em diversas eleições conseguiu entre 12% e 18% dos votos do eleitorado basco. O Batasuna foi declarado ilegal em março de 2003 pelo Tribunal Supremo espanhol por ter sido onsiderado pertencente ao grupo separatista e em seguida foi incluído na lista de organizações terroristas da UE e do departamento de Estado americano.

No início desde ano, o antigo partido Batasuna mudou de nome e, segundo eles mesmos, de estratégia política. Agora chamado de Sortu ("novo amanhecer", em basco), foi a primeira manifestação de que eles estavam prontos para uma nova era. No entanto, foi descoberto que o nome e o endereço dados eram falsos e que na verdade tudo continuava em mãos de verdadeiros terroristas do ETA.

O partido acabou proibido de existir e concorrer a qualquer cargo político antes mesmo do início das eleições. "Batasuna, com o novo nome de Sortu, encenou uma separação do ETA com a única finalidade de que os políticos do partido pudessem pagar os custos militares da organização", explica Rogelio Alonso.