A Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia - UE) assegurou nesta terça-feira que os fundamentos econômicos nos países do bloco demonstram "sinais de recuperação" e disse não ver evidências de uma nova recessão, apesar dos temores que refletem os mercados. "Não acho que possamos concluir após alguns poucos dias de sérias evoluções nos mercados que estejamos entrando em recessão", afirmou o porta-voz do executivo comunitário Olivier Bailly, em entrevista coletiva.
Bailly lembrou que muitos países, como a Espanha e a Itália, aceleraram suas medidas de consolidação fiscal e outros adotaram reformas estruturais "que vão contribuir para a recuperação e ajudarão a Europa a sair da atual situação". A Comissão Europeia considerou ainda que é "muito cedo" para falar das possíveis consequências a longo prazo das turbulências dos últimos dias nos mercados financeiros e não quis se pronunciar sobre a decisão da agência Standard and Poor's (S&P) de reduzir a qualificação da dívida americana de "AAA" para "AA+".
Bailly lembrou que Bruxelas tem certas "dúvidas" sobre a influência e as análises das agências de qualificação na Europa e que, por isso, apresentará propostas para sua regulação em breve. O Executivo comunitário negou ainda que falte uma liderança na gestão europeia da crise dos mercados suscitada nos últimos dias e lembrou que os líderes da zona do euro tomaram as decisões pertinentes na cúpula celebrada em 21 de julho.
O porta-voz afirmou que sempre haverá um "desajuste" entre os mercados, "que podem reagir em segundos". "Por isso ressaltamos que está sendo desenvolvido um trabalho todos os dias para assegurar que todas estas medidas sejam implementadas o quanto antes", disse. Bailly também descartou uma nova cúpula europeia para abordar o assunto da crise da dívida, pois a Comissão Europeia considera que as medidas necessárias estão adotadas e só falta sua aplicação.
Entenda
No auge da crise de crédito, que se agravou em 2008, a saúde financeira dos bancos no mundo inteiro foi colocada à prova. Os problemas em operações de financiamento imobiliário nos Estados Unidos geraram bilhões em perdas e o sistema bancário não encontrou mais onde emprestar dinheiro. Para diminuir os efeitos da recessão, os países aumentaram os gastos públicos, ampliando as dívidas além dos tetos nacionais. Mas o estímulo não foi suficiente para elevar os Produtos Internos Brutos (PIB) a ponto de garantir o pagamento das contas.
A primeira a entrar em colapso foi a Grécia, cuja dívida pública alcançou 340,227 bilhões de euros em 2010, o que corresponde a 148,6% do PIB. Com a luz amarela acesa, as economias de outros países da região foram inspecionadas mais rigorosamente. Portugal e Irlanda chamaram atenção por conta da fragilidade econômica. No entanto, o fraco crescimento econômico e o aumento da dívida pública na região já atingem grandes economias, como Itália (120% do PIB) e Espanha.
Um fundo de ajuda foi criado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Central Europeu (BCE), com influência da Alemanha, país da região com maior solidez econômica. Contudo, para ter acesso aos pacotes de resgates, as nações precisam se adaptar a rígidas condições impostas pelo FMI. A Grécia foi a primeira a aceitar e viu em suas ruas grandes manifestações contra os cortes de empregos públicos, programas sociais e aumentos de impostos.
Os Estados Unidos atingiram o limite legal de endividamento público - de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,2 trilhões) - no último dia 16 de maio. Na ocasião, o Tesouro usou ajustes de contabilidade, assim como receitas fiscais mais altas que o previsto, para seguir operando normalmente. O governo, então, passou por um longo período de negociações para elevar o teto. O acordo veio só perto do final do prazo (2 de agosto) para evitar uma moratória e prevê um corte de gastos na ordem de US$ 2,4 trilhões (R$ 3,7 trilhões). Mesmo assim, a agência Standard & Poor's retirou a nota máxima (AAA) da dívida americana.