Estudantes de Mato Grosso do Sul ajudam a recompor a coleção de aranhas do Instituto Butantan, em São Paulo, que foi destruída por um incêndio no ano passado. A turma do ensino médio de um colégio de Campo Grande fez uma expedição a Bonito, cidade a 250 quilômetros de Campo Grande, na região Sudoeste do Estado.

Antes de entrar na mata é preciso tomar alguns cuidados, como repelente, botas e roupas para proteger todo o corpo. "Na mata a gente encontra muitos carrapatos que podem subir pelo vão das pernas. E também usar bota é importante por causa das cobras", explica o estudante João Redro Rocha.

A expedição faz parte de um projeto de iniciação científica, e a missão dos alunos é capturar aranhas. "Hoje você tem trabalhos de bioprospecção com proteínas que são encontradas no veneno de aranhas, para o tratamento de doenças humanas. Para que você possa desenvolver essas tecnologias, precisa de pesquisa", explica o professor de biologia e doutor em ecologia Marco Aurélio Kinas.

A coleção com mais de 470 mil exemplares foi destruída em maio do ano passado durante um incêndio nos laboratórios do instituto paulista. Boa parte das aranhas era de Mato Grosso do Sul. "Acho uma experiência única, pois nós vamos ajudar biólogos do mundo inteiro", diz o aluno Cayo Felipe Bittencourt.

Não é todo mundo que pode fazer expedições científicas nas florestas do cerrado. Os estudantes conseguiram uma autorização do Ibama e da Polícia Ambiental para capturar as aranhas. Eles também foram treinados para não correr riscos de acidentes durante a coleta.

A técnica para coletar é bem simples: em um buraco escavado no chão, eles deixam um copo de plástico com uma solução a base de água, formol e álcool. A aranha que entrar na armadilha morre mas o exemplar fica conservado por vários anos. A captura é feita também manualmente.

Olhares curiosos. Quem tinha medo de aranha mudou de atitude após essa aula de ciências. "No começo eu me afastava. Depois vai perdendo o medo e começando a manipulá-las e ver as estruturas que elas têm", diz o estudante Lúcio André Alves Costa.

Das 20 espécies de aranhas mais venenosas, cinco podem ser encontradas no cerrado. A picada desses bichos provoca lesões graves na pele e pode até matar uma pessoa idosa ou uma criança em menos de 36 horas se não houver atendimento médico.

Os trabalhos prosseguem à noite. Enquanto uma equipe procura algo nas armadilhas deixadas durante o dia, outras continuam fazendo coleta usando pinças.

No escuro o trabalho de captura fica bem mais fácil porque é justamente nesse horário que as aranhas saem em busca de insetos para se alimentar. A melhor forma de procurá-las é com uma lanterna. "Fica mais fácil porque você bate o foco e ele reflete nos olhos da aranha, com um colorido bastante intenso", diz o coordenador pedagógico Carlos Alberto de Almeida.