Quase uma reviravolta irônica. Jornais libaneses brincavam, na semana passada, com as queixas do governo sírio - segundo as quais o Líbano estaria interferindo em suas questões internas.

Historicamente os maiores influenciados pelas manobras sírias, os libaneses vêm acompanhando apreensivos as mazelas dos vizinhos. Com tensões sectárias mais uma vez expostas, em Beirute o grupo xiita Hezbollah culpa os rivais do bloco pró-Ocidente por fornecer armamento a opositores do presidente sírio, Bashar al-Assad.

Já o 14 de Março, liderado pelo ex-premier libanês Saad Hariri, acusa o Hezbollah de ter ajudado na dura repressão aos protestos de Deraa, onde começaram os primeiros sinais de turbulência na Síria.

Por sua vez, os Estados Unidos vêm emitindo advertências a Assad, enquanto a Arábia Saudita correu para oferecer apoio ao presidente sírio.

Já em Teerã, o governo iraniano - que vinha se posicionando favoravelmente aos movimentos antiditadura em Egito, Tunísia, Iêmen e Bahrein - se calou diante da instabilidade no seu maior aliado árabe, o único a apoiar o Irã na guerra com o Iraque, na década de 80. É o mostra a reportagem de Renata Malkes na edição do O GLOBO deste domingo.

O tabuleiro de interesses é complexo. Afinal, mudanças na Síria - que mantém com maestria uma política externa dúbia, na qual abriga o Hamas e a Jihad Islâmica, mas também negocia indiretamente com Israel - teriam mais impacto geopolítico no Oriente Médio do que reformas em qualquer outra nação árabe.

A Síria sem Bashar força à reorganização de emaranhadas parcerias regionais.

- Até os israelenses veem em Assad o melhor ditador árabe. Ele é hostil, mas não incomoda. A fronteira entre Israel e a Síria é a mais tranquila da região, apesar da disputa por Golã - lembra o escritor druso israelense Salman Masalha.