Os rebeldes na Líbia se preparavam na quinta-feira para um contra-ataque às forças de Muammar Kadafi no leste do país, estimulados pelas notícias de apoio secreto dos Estados Unidos e da deserção do ministro das Relações Exteriores líbio. "Estamos começando a ver o regime de Kadafi se desintegrar", disse o porta-voz rebelde Mustafa Gheriani na cidade de Benghazi, no leste do país, chegando perto de saudar o chanceler fugitivo Moussa Koussa, ex-chefe de espionagem, que foi para o lado dos rebeldes.
Os analistas concordaram que a deserção de Koussa, que viajou para Londres na quarta-feira, foi um revés para Kadafi, cujas forças ganharam terreno nos últimos dias. Mas o principal oficial militar dos EUA disse ao Congresso que Kadafi está longe de ser derrotado. "Nós de fato degradamos seriamente as capacidades militares dele", disse o almirante Mike Mullen. "Isso não significa que ele está prestes a sofrer um colapso do ponto de vista militar."
Apesar de quase duas semanas de ataques aéreos ocidentais, as tropas de Kadafi têm usado armas e táticas melhores para fazer recuar os rebeldes que tentam avançar rumo a oeste pela costa a partir de Benghazi, no leste, em direção à capital Trípoli. A notícia de que as autoridades norte-americanas contaram que o presidente norte-americano, Barack Obama, havia autorizado operações secretas na Líbia abriu a perspectiva de um apoio maior aos rebeldes.
Especialistas supõem que as forças especiais estejam em solo líbio identificando alvos para os ataques aéreos. A confirmação pública de Washington talvez indique uma disposição para um envolvimento maior. Os rebeldes afirmaram não saber nada sobre tropas ocidentais na Líbia e que uma participação estrangeira muito grande poderia ser prejudicial.
O pedido principal dos rebeldes é por armas, mas isso ainda não foi autorizado por Washington, em razão de um embargo de armas imposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) que a Otan diz estar aplicando. "Isso reduziria a nossa credibilidade", afirmou Gheriani.
Resolução da ONU
A ordem de Obama deve alarmar ainda mais os países já preocupados de que os ataques aéreos contra a infraestrutura e as tropas terrestres promovidas pelos EUA, pela Grã-Bretanha e pela França estejam indo além da resolução da ONU que tem o objetivo declarado de apenas proteger civis.
"Não posso falar sobre qualquer atividade da CIA, mas digo a vocês que o presidente deixou bem claro que, no tocante aos militares dos Estados Unidos, não haverá botas no solo", disse o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. A principal autoridade do Vaticano na capital líbia citou testemunhas na quinta-feira, dizendo que ao menos 40 civis morreram com os ataques aéreos ocidentais em Trípoli.
A Otan afirmou que está investigando, mas não tem confirmação sobre a notícia. A agência de notícias estatal da Líbia, citando fontes militares, disse que os ataques aéreos do Ocidente atingiram uma área civil da capital durante a noite, mas não mencionou vítimas.
Líbia: de protestos contra Kadafi a guerra civil e intervenção internacional
Motivados pela onda de protestos que levaram à queda os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em meados de fevereiro para contestar o líder Muammar Kadafi, no comando do país desde a revolução de 1969. Mais de um mês depois, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas.
A violência dos confrontos entre as forças de Kadafi e a resistência rebelde, durante os quais milhares morreram e multidões fugiram do país, gerou a reação da comunidade internacional. Após medidas mais simbólicas que efetivas, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a instauração de uma zona de exclusão aérea no país. Menos de 48 horas depois, no dia 21 de março, começou a ofensiva da coalizão, com ataques de França, Reino Unido e Estados Unidos.