"Quando a Síria espirra, o Líbano pega gripe", diz o alfaiate Suheil, em seu ateliê situado na região central de Beirute, ao justificar a atenção com que assistiu ao discurso de anteontem do ditador sírio, Bashar Assad.

Não é só nas conversas de esquina que a crise na Síria é acompanhada com apreensão no Líbano. Nos altos escalões da política, a instabilidade no país vizinho tem contribuído para alimentar novas e antigas divisões.

A Síria manteve presença militar no país por 29 anos, até ser forçada a se retirar em 2005, após o assassinato do ex-premiê Rafik Hariri.

Mas, nos últimos anos, à medida que reforçou sua importância regional, também recuperou influência.

O temor em Beirute é que os protestos na Síria se transformem numa guerra sectária que comprometa o frágil equilíbrio entre cristãos, drusos, sunitas e xiitas no país.

País de maioria sunita, a Síria é governada por uma elite alauíta, ramo do islã xiita a que pertencem no máximo 20% da população.

No outro lado da fronteira, o governo sírio é um dos principais aliados do grupo xiita Hizbollah, que mantém tensa disputa pela hegemonia no Líbano com o bloco liderado pelo sunita Saad Hariri.

"O que acontece na Síria pode ter repercussões sectárias assustadoras em Beirute", alertou Michael Young, do jornal "Daily Star".

TIROS PARA O ALTO

O discurso de Assad foi celebrado com tiros para o alto em áreas de domínio do Hizbollah e em bairros onde se concentram os expatriados sírios. Estima-se que 300 mil sírios vivam no Líbano.

No pronunciamento, o primeiro após o início dos protestos, há 12 dias, Assad não revogou lei de emergência de 1963, como se esperava.

Ontem, no entanto, anunciou a criação de comissão para avaliar a possibilidade.

Não demorou para a tensão síria se reproduzir no xadrez libanês. Os dois principais blocos políticos do país têm trocado acusações sobre o suposto papel que cada um estaria tendo no vizinho.

De um lado, o Hizbollah culpa os rivais do movimento 14 de Março, sobretudo o partido Futuro, de Hariri, por fornecer armas aos opositores sírios. A TV do
Hizbollah noticiou que sete navios carregados de armas foram apreendidos pela Síria.

Já partidários de Hariri dizem que o Hizbollah ajudou a reprimir os protestos em Daraa, onde teve início o movimento contra o regime.