No dia em que Fadua Larui, 20 anos, foi até diante da Prefeitura da cidade onde morava, lançou gasolina sobre seu corpo e acendeu um isqueiro para se queimar, estava há muito tempo lutando por uma moradia digna que lhe tinha sido negada pelo fato de ela ser mãe solteira.
"Minha filha não era uma suicida. Só fez isso para protestar e para defender o direito de seus filhos", disse à Agência Efe Fatna Ait Bontaib, mãe da jovem.
Entre quatro muros levantados com tijolos, Bontaib, rodeada por seus filhos e netos, afirma que Fadua, uma jovem séria, se via forçada a sair à rua para mendigar.
Sua vida reflete o desespero que pode desencadear a pobreza, mas, sobretudo, o repúdio que ainda existe no Marrocos às mulheres solteiras e divorciadas.
Segundo uma pesquisa sobre prevalência da violência de gênero, apresentada no início do ano, uma em cada quatro marroquinas - ou seja, 2,1 milhões de mulheres - sofreram um ato de violência sexual em algum momento de sua vida.
Em lugares públicos, 10,8% de divorciadas e 9,2% de solteiras foram estupradas, contra 2,2% das mulheres casadas.
O destino trágico de Fadua começou a ser traçado quando, aos 15 anos, foi estuprada e ficou grávida do primeiro de seus dois filhos.
Consciente da vergonha que a gravidez nessas circunstâncias representaria para sua família, optou por se mudar para a cidade de Agadir, no sudoeste do país, e tempo depois foi para Souk Sebt.
Em 2010, o Governo lançou nesta região uma campanha contra a favelização, que obrigou as pessoas a saírem das casas nas quais viviam em troca de um pequeno terreno, mas não gratuito.
Os responsáveis da Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) em Souk Sebt asseguram que o terreno que Fadua pretendia comprar lhe foi negado por ela não ter marido.
"Existe um grande problema com as mulheres solteiras no Marrocos; o número é muito elevado e são marginalizadas", disse à Efe Hassan Ismaili, membro da AMDH.
A jovem reivindicou durante seis meses seu direito a um terreno, mas não obteve nenhuma resposta das autoridades.
No dia 21 de fevereiro, se dirigiu de manhã à Prefeitura de Souk Sebt para voltar a exigir seus direitos. A AMDH afirma que foi ela humilhada e insultada. Depois disso, Fadua nunca mais voltou para casa.
Um vídeo que circula no site "YouTube" mostra a jovem gritando que era vítima de uma enorme injustiça.
"Não tenho ninguém. Só tenho Deus", dizia.
O vídeo mostra o corpo da jovem queimando. Um policial observa a cena sem reagir, enquanto outro homem tenta apagar o fogo. Os outros presentes apenas observam a cena.
Com queimaduras de terceiro grau, Fadua foi internada em um centro médico que, segundo a AMDH, não contava com os meios necessários para tratá-la, por isso foi transferida a um hospital de Casablanca no dia seguinte.
No entanto, a jovem não resistiu e morreu em 23 de fevereiro.
"Em nenhum momento me informaram sobre o que aconteceu. Transferiram-na para Casablanca sem nos avisar, apesar de termos esperado durante a noite do lado de fora do centro médico por alguma notícia. Até hoje nenhum funcionário nem representante das autoridades nos visitou", disse a mãe de Fadua, enquanto mostrava um álbum de fotografias.
Em uma das imagens, toda a família posa junto a um retrato do rei Mohammed VI. Todos sorriem e em seus rostos é possível ver o orgulho por estarem diante do retrato do monarca, o mesmo que há poucos dias anunciou uma reforma constitucional.
Os jovens que protestaram em 20 de fevereiro para pedir reformas políticas e sociais, e que sairão outra vez no próximo domingo às ruas, seguraram cartazes pedindo "dignidade", a mesma reivindicação de Fadua.